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28/08/2019

Criado-Mudo

Criado-Mudo
Barata Cichetto
https://twitter.com/mulhernuanacama

Ela era incômoda feito uma cômoda antiga e cheia de cupim dentro do meu quarto. Me acomodei. Virei peça do mobiliário. Quase um criado-mudo onde ela guardava seu papel higiênico e suas calcinhas. Comodamente me fiz de imóvel como um móvel encardido de madeira antiga que um dia foi útil. Quieto apenas olhando a bagunça na cama ao lado e recebendo toda espécie de coisa sem uso em cima de mim. Criado-mudo me fiz de surdo. Até o dia em que o quarto ficou pequeno demais e a cômoda ficou tão incômoda que a coloquei na frente do portão. Que os cachorros mijem nela até que o lixeiro a carregue.

25/08/2019

27/08/2019

Cabaré Pornopoético

Cabaré Pornopoético
Barata Cichetto

Minha poesia nasceu no meio das putas. E por elas. E para as elas. Minha primeira musa fazia ponto na Avenida São João. A partir daí, e lá se vão 45 anos, sempre foi assim: minhas musas sempre foram putas, mesmo que tenham sido esposas, ou foram esposas, mesmo sendo putas. Algo errado com isso? Errado chamar esposas de putas? Ou putas de esposas? Qual é a escolha certa? Minha poesia é das putas. E para as putas? Minhas lutas. Absolutas. Das putas. Pelas putas. As outras. São outras. Putas. Cansei de compor poemas no meio de outas bêbadas às três da manhã. E as três da tarde. Putas mijando de rir da minha poesia. E eu mijando na cara delas. Ejaculando poesia bem no meio dos seus peitos. Foram meu feitos. Eu era o poeta palhaço no meio do picadeiro. Do puteiro. E elas era putas querendo ser engraçadas. Desgraçadas. No meio do pardieiro. Elas eram putas e eu sobranceiro e fornido descendo as escadas como no Ulisses de Joyce. Eram tímidas aquelas putas da São João, eram temidas às da Radial. Fremidas as do meu quintal. Todas era putas e a todas eu beijei na boca. De todas chupei as bucetas. Mesmo das porcas fedidas cheirando a suor. Adelaide Carraro não mora mais aqui. O submundo da sociedade. Underground é coisa de inglês burguês. Punk de operário irlandês. E o bom Rock português? Em francês  pergunto os porquês. Nem quero saber em japonês. Em chinês ou em galês. Putas são putas em qualquer lugar do mundo. E também são putas os poetas do fim do mundo. Salope. Poète. Putas crentes são fedidas. Prefiro as arrependidas. Casei com duas. Detesto putas limpas. Porcas usando colares de diamante. E pulseira de barbante. De agora em diante. Caso apenas com poetas. Que são putas imundas. E gostam de bar suas bundas. Apenas para rimar. Vagabundas. Poetas são egoístas. Putas são artistas. Putas poetas são narcisistas. Maniqueístas. De agora em diante só caso com advogadas. São hedonistas. Por dever e profissão. Suas listas de leis, suas pistas e seus golpistas. Cansei de frígidas, de rígidas e de mal redigidas. Quero mulheres bem escritas, feito roteiros de cinema. Quero protagonistas. Quero mulheres bem elaboradas, ricas personalidades. Minha poesia nasceu no meio das putas. E no meio delas irá morrer. Comigo!

26/08/2019

25/08/2019

Habeas Corpus

Habeas Corpus
Barata Cichetto
https://www.fotosdeamadoras.com/advogada-gostosa-caiu-na-net-pelada-em-fotos-amadoras-pro-namorado/

"Que tenhas o corpo", disse a advogada, em latim. E eu, usando de minhas prerrogativas pessoais prontamente, garantindo assim seus direitos individuais a possuí, sem abuso de poder e sem coação, dentro da legalidade. A cláusula pétrea do prazer, que garante a qualquer pessoa física  o direito de ir e vir, e também o direito de foder com quem e quando quiser é parte da declaração universal dos direitos humanos. Sem emenda, sem votação. Tesão não é democracia, é ditadura, eu disse a ela. E então a doutora me prendeu. Na cama. E me algemou. Na cadeira. E eu lhe disse: "que tenhas o corpo". E ela, com violência e abusando de sua autoridade e de seu diploma de safada me chupou. Apelei. Implorei por justiça. Por igualdade de direitos. Ela acatou meu pedido. Deferiu e levantou a saia: penetrei-lhe o rabo com base em toda a jurisprudência que eu tinha nesses casos. Ela disse: eu protesto, senhor Juiz. E eu disse: não sou juiz, sou Luiz. E sou inimputável, de acordo com lei de diretrizes das meretrizes. Ela apelou ao estado de necessidade, ao perdão judicial. E eu então lhe disse: perante a Lei todos são iguais, então gozemos juntos antes de terminar este tribunal. Aleguemos legítima defesa, e na reincidência, motivos de consciência. Sem dolo e sem perdão. Consumado está. E agora, nos resta apenas vestir nossas roupas e sair. Lá fora há uma penitenciária nos esperando, condenados que fomos por crime continuado. Hediondo. Culposo.

22/08/2019

24/08/2019

Filosofia de Quintal

Filosofia de Quintal
Barata Cichetto

Gosto mesmo é da filosofia de quintal, daqueles de cimentado rachado ou forrado de mármore. Filosofia de varal, onde expomos nossas roupas velhas, sujas e rasgadas; roupas íntimas com marcas de sexo; mal lavadas, desbotadas. Dispostas na corda, sob os olhares curiosos de vizinhos inescrupulosos, voyeurs e sádicos. A filosofia de varal é a legítima, aquela que está nas casas tanto dos pobres, com seus quintais minúsculos em subúrbios, quanto dos ricos com seus quintais de mansões. A filosofia de quintal não faz diferença, não gera diferenças e não respeita crenças. Está no quintal do ateu e do pastor, no quintal dos presidentes e dos sem dentes; no quintal das bruxas e das xuxas. A verdade está lá fora, no quintal.  Não credito em filosofia de sala de estar, de televisão, de Youtube, mas na que é dita no meio de um churrasco, de uma reunião de bêbados, ou mesmo de freiras descalças, falando das desgraças. Filosofia de varal, como roupa que cai com o vento; filosofia de varal, que sai com o tempo. Que gatos arranham e cachorros mijam em cima. Há filosofia no quintal. Há filosofia no varal. De moços letrados e idosos analfabetos; de moças menstruadas a machos com gonorréia. Ha filosofia no fundo do quintal, no barracão de ferramentas, ou na beira da piscina, onde doze putas abraçam o pedreiro da construção ou o dono da mansão. Há filosofia no quintal, de terra batida, de concreto protendido, de cacos de cerâmica ou de mármore carrara. Há filosofia em qualquer quintal. Nos livros há a ideia, no quintal o pensamento; nos livros a fórmula, no quintal o produto final. No quintal se planta, no quintal se colhe; no quintal se toma sol, no quintal se toma chuva; no quintal se bebe e se come, no quintal se suja e se limpa; no quintal se mostra, no quintal se vê. Não há filosofia nas aulas de faculdade, nem nos discursos políticos; não há filosofia nas bibliotecas, nem nas escolas; não há filosofia nos balcões de bar, nem nas salas de estar. Não há filosofia em nenhum lugar, a não ser no quintal.

23/08/2019

22/08/2019

Barata: Biografia Brutal (Um Falso Texto Sobre Pessoas Verdadeiras)

Barata: Biografia Brutal
(Um Falso Texto Sobre Pessoas Verdadeiras)
Barata Cichetto

Quem sou eu? Sou Barata porque assim me chamaram. Com minúsculas. Depois dei uma de bacana, criei um site e botei um artigo na frente e o substantivo transformei em nome e em adjetivo. Sou  Barata e fui batizado Luiz Carlos, pelo meu pai escroto que odiava o Prestes e quis se vingar em mim.  Sou Barata e mais que isso sou desigual. Feito barata branca, que é assim por ser albina. Sou diferente. Não busco a igualdade na humanidade. Ninguém é igual. Busco a desigualdade como fim social. Sou anormal. Já fui chamado de tudo: de filho da puta por ser um e de filho da puta de bom. "Ai quero mais seu filho da puta. Me fode, seu filho da puta!" Fui chamado Baratinha por amigos chegados e Baratão por amigas fudidas! Nunca fodi com amigas. Não misturo negócios. Casei quatro vezes. Todas as quatro de supetão. Elas queriam e eu não. Mas casei. Trepei. Fiz filhos que hoje chamam Lula de pai. Nunca fodi com viado. Nem dei o rabo, por falta de vontade. Ou seria de oportunidade, ainda não sei direito. De qualquer forma já fui chamado de bicha, de tarado, de viciado. Detesto maconha, mas já fui chamado de maconheiro. Sempre fui fiel a uma única puta. Acredito que nem todas as mulheres são putas, apenas minha mãe e as que se casaram comigo, ou que me deram a buceta. O resto são santas. Já fui cafetão. Já fui cristão. Nunca fui ladrão. Deus é uma piada de mau gosto. Nem gosto de piadas. Sou mal humorado. Fumo três maços de cigarro e com isso morrer de câncer é uma lógica. Mas quem sabe antes. De tiro na testa. Ou de desgosto. Sou anticomunista. Conservador no que me interessa conservar. Sou contra o aborto, mas por nenhuma questão religiosa. O corpo lhe pertence, feminista imbecil, mas a criança dentro da porra do seu útero não é corpo seu. Então, por que deu? Não é meu. Não fui eu. Fiz vasectomia aos trinta. Foda-se a humanidade. Sou misógino, misantropo e até miss Brasil se achar que isso não afeta sua autoestima. Me chamem do que quiserem. Não luto contra a humanidade, mas muito menos por ela. Sou individualista, mas não egoísta: aprenda a diferença crucial. Nunca fui crucificado, só apedrejado. Nasci no dia de Natal. Do anticristo. Mas não sou demônio. Sou um moleque de sessenta. Sou o que escarra na tua cara, o que cospe no próprio rosto e o que esporra na tua cara e depois te mostra a face no espelho toda gozada. Tem nojo? Então engole. Tudo. E ainda quer mais? Mais de mim? Vai comprar na padaria. Compra uma dúzia de sonhos, depois me lambe feito aquele creme. Como disse, sou Barata, mas não qualquer Barata, aquela sobe nas tuas costas e que voa no seu quarto numa noite escura. Te assusto? Não tenha medo. Mais que rima poética medo é um segredo que não se conta. O medo que se aponta. Esqueci-me de dizer que sou um bosta. E de quem gosta um manjar. Me chama pra jantar? Prometo me comportar. Sei usar os talheres. E prometo não peidar durante a janta. Só arrotar. Mas sei segurar a faca com a mão direita e o garfo com a esquerda. E diferenciar copo de vinho do de requeijão. Sou sofisticado quando quero. Não prometo mais nada. Nem que não vou querer te foder sobre a toalha de cetim quando acabarmos de jantar. Sou assim: uma agulha que pode te furar ou te costurar a pele. Bordar até. E prometo não te chamar de puta, não te chamar de santa. E nem de mãe. Prometo te chamar. Para ir beber, para foder, para conversar sobre teus gatos e nossos gastos. Falar sobre tua menstruação e minha constipação. Quero poder segurar tua mão para descer do ônibus e abrir a porta do carro, sem com isso querer te comer. Quero te comer sem precisar fazer nada disso. E fazer tudo isso apenas por querer. Gosto de te agradar. Sou saudosista. Queria estar à meia noite em Paris ou em Lisboa. Fumando ópio com Baudelaire ou na Tabacaria com Pessoa. Sou ator. Cantor. Sou idoso. Alto, magro e gostoso. Cabeludo e barbudo. Tesudo. Tenho pau grande. Gosto de oral. Lá e cá. Laika? Sou laico. Bardo. Tenho Facebook, Whatsapp, Instagram. Só não tenho dinheiro. Se cobra pra trepar eu pago com poesia. Ou com orgasmos líquidos. O que é a mesma coisa. Escrevo poesia com a língua na tua depilada. Ou com meu canivete nas tuas costas. Topas? Te espero na esquina. Só até amanhã. De manhã. De short desfiado com a polpa da bunda de fora. Sei esperar. Mas só um minuto. Quer um gozo líquido? Pergunte-me como. Enfim, sou Barata, já fiz de tudo. Até amor. Já fui tudo, menos santo. Já fui. Agora sou. E se quiser saber mais de mim veja as rugas no meu rosto, que são minhas cicatrizes. Atrizes do desgosto. Quer saber o que eu sou? Não seja eu e eu serei seu. 

18/08/2019

19/08/2019

Putas de Araraquara no Xvideos

Putas de Araraquara no Xvideos
Barata Cichetto



Era uma madrugada fria na normalmente quente Araraquara. Eu não conseguia dormir e liguei o computador.  Depois de andar por sites de vídeos pornográficos e outros de garotas de programas decidi escrever. Mas, sem nada na cabeça, a não ser putaria, sobre o que poderia escrever? Claro, putaria! 
Ando com o saco cheio de escrever putaria. Putaria, só putaria, sacanagem, pau no cu, pau na buceta. Um monte de bandalheira pornográfica que só serve pra encher linguiça e quem sabe fazer algum punheteiro soltar a imaginação, ou até mesmo e quem dera, alguma mulher soltar o dedo. Ademais para mais nada.
Fiquei olhando para a tela do computador e mexendo os dedos pensando sobre o que iria escrever. Eu tinha visto um monte de cenas muito tesudas nos vídeos e fiquei excitado, de pau duro, mesmo. Então pensei que o lógico seria escrever sobre o quanto eu ficava com tesão vendo gente se comendo, se fodendo, se chupando em vídeos pornôs. O Xvideos é pura poesia, neguim! 
Pensei e descrever alguns vídeos, depois criar alguma história engraçada sobre eles, mas aquilo é poesia, como eu já disse, e poesia não tem a menor graça. Coisas que deixam a gente de pau duro não tem a mínima graça. E poesia, nem a erótica, deixa ninguém de pau duro. A não ser algum poeta pau no cu, frustrado. Ficar de pau duro com poesia é de cair o cu de dentro das calças. Poesia é coisa de cara que não trepa. Quem trepa não tem tempo de pensar em poesia. Aliás, nem lembro mais quando trepei... Acho que foi a semana passada. Ou o mês passado? Que diferença faz quando foi? E nem lembro se foi bom. Acho que não, se tivesse sido eu iria lembrar. 
Porra, ninguém mais trepa nessa porra de planeta sem filmar? Caras de pau mole enfiando em bucetas secas, e mulheres olhando pra câmera. E o tesão donde que fica? Na pica é que não é. Nem na buceta! Fica na greta. Na grelha. Na telha.
Antes era melhor: a gente pegava o telefone e ligava pra uma puta e fazia a festa. Agora só bate punheta olhando gente sem graça, fazendo sexo sem graça. Parece até poesia isso. 
E assim se foi a madrugada. Não comi ninguém, nem bati punheta, mas em compensação estou terminando este texto e preciso dormir. Acabei nem escrevendo porra nenhuma. Nada do que está escrito tem graça, nada foi dito e nada foi lido. É tudo virtual nesse mundo de mentiras. Amanhã vou escrever uma poesia erótica, tá?

19/08/2019

17/08/2019

Eu Só Queria Fumar Um Cigarro

Eu Só Queria Fumar Um Cigarro
Barata Cichetto

O portão da rua, de ferro fundido e com um cadeado de aço parece tão distante visto da janela do meu quarto. Escuto cachorros ladrando insuportáveis na rua. Tento fumar. Pego e cigarro e coloco automaticamente na boca. O isqueiro não funciona. Agora não tem mais jeito. Tenho que atravessar o corredor de cimento cheio de musgo que separa minha porta e chegar até a saída de casa. Insuportáveis vinte metros. Insuportável caminho até a rua. Moro nos fundos. Nos fundos do mundo. Ainda penso. E saio sem fechar a porta. Os cachorros ainda ladram e me olham com medo e ódio. É quase a mesma coisa. Olho para o topo da rua e tento calcular quantos minutos sobre aquele asfalto quente eu terei que caminhar até chegar o supermercado onde uma atendente horrorosa vai passar o código de barras na leitora e pegar o dinheiro sem nem olhar na minha cara. O pior é tudo isso sem poder acender meu cigarro. Sem fumaça para respirar. A não ser a dos carros dirigidos por motoristas esnobes que passam cheios de empáfia dentro daquelas latas com rodas. E feito a gorda horrorosa do mercado sem olhar para mim. Sou um perdedor. Nem motoristas de carros ou caixas de supermercados olham na minha cara. Fosse eu um sujeito endinheirado e me ofereceriam carona nos carros e aquela escrota sebenta do mercado iria esfregar aquela buceta fedorenta na minha cara. Eu não preciso de um carro brilhoso que tenho dois pés. E nem da buceta sebosa daquela nojenta caixa de supermercado que tenho uma mão. Posso ser um perdedor. Um perdedor que ainda tem pés e mãos. Então posso ser um perdedor e andar e me masturbar. Eu só quero fumar. Não quero perder nem ganhar. Fodam-se a gordeta escrota com cara grudenta do supermercado que conta as moedas como se fossem pedaços de merda. E fodam-se os carros e seus motoristas automáticos que contam merda como se fossem moedas. Cheguei ao supermercado que de super tem nada e fui direto ao balcão. Pedi um isqueiro. Vermelho ou preto que tenho preconceito contra isqueiro branco. Todo mundo rouba isqueiro branco. Não tinha. Só branco mesmo. Só tinha branco naquele mercado. Me dei conta que não tenho ninguém que possa roubar meu isqueiro. Nem sendo branco. Aceitei. Eu só queria mesmo era acender a porra do meu cigarro. Tirei o sacana da embalagem de plástico e puxei um cigarro do maço e porra da vendedora que acho que era magrela e quase careca quase arrancou o cigarro da minha mão. Eu só queria acender a porra do meu cigarro. Tinha que esperar a rua. Que era distante e tinha um cimentado gasto e era cheio de musgo com um monte de carros cor de bosta dirigidos por gordas suarentas e magrelas carecas. Na saída do mercado tinha um portão. Estava trancado. Por fora. Então eu perdi. Sentei no chão de cimentado gasto e cheio de musgo verde e acendi meu cigarro. Ganhei!

17/08/2019

31/07/2019

20 Livros de Barata Cichetto/Luiz Carlos Cichetto, para Leitura e Download Gratuito


20 Livros de Barata Cichetto/Luiz Carlos Cichetto, para Leitura e Download Gratuito

Tudo que escrevi e publiquei - artesanalmente - desde 1997, com algumas coisas de poesia ainda dos anos 1970 e 80, incluindo poemas, crônicas, autobiografia, os textos das três óperas Rock e até o livro infantil, estão disponíveis gratuitamente, para leitura e download em PDF pelo site Archive.Org, que se propõe a compartilhar obras artísticas do mundo inteiro. Uma imensa biblioteca pública.

São 20 livros ao todo, a maioria já publicado pela extinta Editor'A Barata Artesanal, que criei em 2010 e que em quase nove anos, publicou, além dos meus, mais cinquenta títulos de vinte autores.

O objetivo não é altruísta, mas sim tentar tornar meu trabalho conhecido, além de afastar eventuais abutres que podem se achar no direito de usufruir pelo que não produziram, e sequer apoiaram. A publicação está de acordo com os critérios da Creative Commons, embora todos os textos tenham sido registrados no Escritório de Direitos Autorais.

Para acessar todo esse material - mais de três mil páginas - acesse: 


30/07/2019

Solidão é o Tudo

Solidão é o Tudo

Penso agora nas pessoas que sentem solidão. Eu não sinto. E não é por estar só. É bem por não estar, mesmo. O que é estar só? Pergunto ao passarinho. E nem ele me responde. Penso na solidão como algo a ser pensado. A solidão é o medo de estar só. O resto não é solidão. É só medo. Tenho tanto medo da solidão quanto tenho da morte. O medo não é da coisa em si, mas da dor. Na dor a dor que a antecede, na solidão a que a sucede. Penso na solidão como algo inevitável quanto à morte. Quanto à própria existência. A existência é inevitável, a morte é inevitável, mas seria a solidão também?

Penso agora nas pessoas que sentem solidão, e não sei se as invejo ou as temo. Não sei se as procuro ou as deixo em paz. Não tenho pena delas, como ademais de ninguém. Por escolha ou por consequência, a solidão é o destino. Sempre. Não procuro afagos, nem carinhos, sequer um boquete de uma puta. E quando a gente não procura nada disso, é por não sentir solidão. Se falo sobre isso, entretanto, é por sentir solidão? Se não sentisse solidão, eu estaria escrevendo sobre solidão?  Pode ser que sim, pode ser que não. Não se escreve apenas sobre o que se sente falta, embora nossas faltas sempre forneçam bom material para a escrita. Escreve-se também por aquilo que se tem. Como o prazer e a dor. E a solidão, que é o que se tem. Sempre é o que se tem, mesmo quando ela é enganada, ludibriada por alguma ou centenas ou milhares de companhias.

O "um" é o humano. E o humano é o um. E o um é solidão. Sempre foi, sempre será. A solidão é individualismo, embora às vezes seja egoísmo.

Penso agora em que acredita em não estar só. Solidão não é presente, é conquista; solidão não é desejo, é prazer; solidão não é janela, é porta; solidão não é incolor, é arco-íris. Solidão não é escolha nem opção, não é momento, nem situação; solidão não é porém nem talvez, não é mas nem porém; solidão não é erro nem acerto, solidão não é efeito, nem causa, não é bonita, nem feia; solidão não é solução nem problema, não é doença, nem cura; solidão não é verdade nem mentira, não é dor nem prazer; solidão não é macho, nem fêmea, não é alegria nem tristeza solidão não é nada, nem é tudo. Solidão é o nada e é o tudo. É o todo do nada, e o nada do tudo.

Outro dia perguntei à solidão: sabe quem com quem está lidando? E ela respondeu: não o conheço. Então eu lhe disse: deixe-me a sós, então. Incomode a outro.

28/07/2019

25/07/2019

Eu Não Sou Escritor

Eu Não Sou Escritor
Luiz Carlos Cichetto
Brigitte Werner By Pixavay

Não, eu não sou escritor de Facebook, nem de Internet. Somente. Nasci primeiro que essas coisas. Sou escritor. E ponto. Não de uma geração remelenta, politicamente correta, disfarce de estupidez e ignorância, e de submissão a ideologias corruptas.
Não, eu não sou poeta de Facebook, nem de Twitter. Apenas. Sou poeta antes de qualquer coisa. Sou poeta. E ponto. Não da geração das facilidades, dos computadores e celulares, das liberdades, e da rabugice precoce, alimentada de leite com mamão e açúcar.
Não, não sou artista de Facebook, nem de Youtube. Somente apenas. Sou artista das mãos sujas, das roupas rasgadas não por moda, mas por falta de dinheiro. Sou artista. E ponto. Não artista da fome, mas pela fome. Não da geração que tem fome, mas não come, por não saber nem comer, que morre de inanição diante de prato de feijão.
Não, não sou filósofo de Facebook, nem de Instagram. Nem apenas, nem tão somente. Sou filósofo por deformação, não por formação, de um diploma outorgado pela reitoria da faculdade do pensamento livre. Não da geração de cérebros triturados por professores de estória com camiseta vermelha, alimentada por mentiras e tolices sobre a humanidade.

08/12/2018

DOWNLOAD FREE - 10 Livros de Barata Cichetto

DOWNLOAD FREE - 10 Livros de Barata Cichetto

Aos amigos que afirmam gostar dos meus escritos, e que não puderam ou não quiseram comprar meus livros: acabei de colocar 10 deles - anteriormente lançados em papel - no Internet Archive para leitura e/ou download grátis. Os livros são:
- O Poeta Xingou Minha Mãe de Puta e Eu Lhe Dei uma Porrada
- Troco Poesia Por Dinamite
- Syd Barrett Não Mora Mais Aqui!
- O Poeta e Seus Espelhos
- O Cu de Vênus/O Câncer, o Leão e o Escorpião
- Manifesto Sem Eira Nem Beira
- Manual do Adultério Moderno
- Imprinting
- Falo
- Poemas de Pau Duro

O link: https://archive.org/details/@luiz_carlos_cichetto

Não deixem de comentar/favoritar. Enjoy

19/07/2019

As Portas da Liberdade

As Portas da Liberdade
Luiz Carlos Cichetto
Imagem: Omar González por Pixabay 

O que falam de mim, não é problema meu. Meu problema não é que falem de mim, mal ou bem, meu problema é com quem fala de mim.
Estamos numa terra e num momento de absurdos, de ódios, de ostracismos, de matar de fome e de ódio quem não concorda com o pensamento absolutista de "esquerda". Isso é real. Perigoso e real. Fico me perguntado qual será o fim disso tudo, se é que um da isso terá fim. Toda a cultura e arte está nas mãos de um grupo que se auto-proclama "progressista", mas que não passa de meros ditadores, que são capazes de enforcar o próprio pai, e decerto o entregariam a seus ídolos políticos se fosse pedido.
Sou essencialmente um anarquista. Mas não um anarquista desses que andar por aí, com um pé dentro da esquerda - ou os dois. Meus dois pés estão fora de qualquer círculo político, e os odeio seja qualquer for seu espectro.
Há tempos percebe-se claramente a predominância de artistas ligados à "esquerda" em qualquer atividade. Isso não é novidade para ninguém. Em literatura isso é muito mais claro, pois é nítida a transformação de feiras e concursos literários em verdadeiros palanques. Basta pesquisar a história de todos os escritores que são elevados, que saem vencedores de concursos, aclamados em feiras e têm livros alçados à condição de best-sellers.
Eu, como muitos - poucos em relação ao todo, enquanto isso são tratados com ostracismo, ódio e desprezo. Pouco importa se a pessoa produz muito, se tem enorme talento, quando não alinha suas ideias com pautas socialistas e comunistas.
Mesmo fora do mundo cultural, não estar alinhado com essa ideologia, é sinal que teremos enormes problemas de relacionamento, mesmo dentro das famílias. Suas ideias serão rechaçadas, seu pensamento acusado de fascista, e seu trabalho e tudo o que fizer, jamais será respeitado e reconhecido.
Até mesmo contrariando os conceitos anarquistas, não, eu não quero um mundo sem portas, quero um mundo em que as portas de cada indivíduo sejam respeitadas, e que ele possa passar pelas que abriu, muitas vezes a socos de punho sangrando, mas que são fechadas muitas vezes em nome de liberdade como disfarce para a usurpação. Liberdade não é entrar por qualquer porta, liberdade é abrir suas próprias portas e respeitar qualquer porta, aberta ou fechada.

19/07/2019

16/07/2019

Lou Reed Morreu! Antes Ele e Depois Eu

Lou Reed Morreu! Antes Ele e Depois Eu
Luiz Carlos Cichetto, AKA Barata

"(...) não há espaço nas calçadas para os personagens de Lou Reed. Festivais de rock hoje tem vibe de shopping center. E ‘Perfect Day’ foi cantada até por Susan Boyle. Lou Reed morreu ontem, mas o mundo que o tornou possível já tinha morrido faz tempo. (...)” - Camilo Rocha, "Lou Reed, o Cronista da Cidade Suja”, 28/11/2013

No mundo de (quase) 2020, não há mais lugar. Não apenas para as personagens de Lou Reed, como para o próprio, e qualquer um que ouse não ser politicamente correto à esquerda do espectro. Não há lugar para se cantar putas, bichas e travestis, sem ser apedrejado, processado, esquecido, ofendido. Nesse mundo de 2019, onde ando perdido e deslocado, não há lugar para artistas como Lou, Buk (a não ser para os que o usam como desculpas para serem bêbados), Henry Miller, e por tabela, não há espaço - nem para respirar - a pessoas como eu e tantos - nem tantos - outros. A sujeira debaixo do tapete sala de estar; a imundice disfarçada no barraco alimentado por bolsas do Estado; a educação jogada no lixo (em todos os sentidos da palavra educação, e em todos os sentidos da palavra lixo). A fome de que nos matam não é por falta de comida, mas de caráter. As putas ganharam o jogo e fazem plantão na porta de presídios pedindo a liberdade dos amantes bandidos, que lhes juraram amor eterno, apenas até gozar e balançar o pau. As putas ganham mal, não gozam, mas defendem seu cafetão, numa história que foi cantada de formas diferentes tanto por Lou quanto por Buk quanto por mim. Lou morreu rico, Buk também. Eu não. Ainda vivo. Pobre e fudido, como um personagem deles. Um personagem que não poderia ser descrito neste mundo de merda de (ainda) 2019. Um personagem feito eu não pode mais ser criado, sem que ele e o autor sejam processados, apedrejados, esquecidos. E eu, personagem de mim mesmo, ainda estou aqui, a despeito de tudo. Existo apenas como personagem de um autor fracassado, que jamais poderá existir enquanto a maldita e rançosa onda violenta do politicamente correto moer os cérebros.Muito obrigado, Marx e Gramsci. Seu genocídio corre muito bem.

16/07/2019

10/07/2019

Eu Não Gosto de Balada (Ou: Feliz Aniversário)

Eu Não Gosto de Balada (Ou: Feliz Aniversário)
Luiz Carlos “Barata” Cichetto

“Feliz aniversário, envelheço na cidade!”.  Feliz aniversário, apodreço na cidade. Claro, podem afirmar preconceituosos e afoitos, o cara tem quase 50 anos... Lugar de velho é de pijama vendo a novela da Grobo... É, pode ser... Mas a realidade é que nunca gostei... E já tive 14, 17, 21, 26, 32 anos... E tive mais e menos que isso. Mas balada para mim sempre cheirou (Epa!) sacanagem... E nem sempre no bom sentido, se é que existem bons sentidos em sacanagem... Armadilhas da língua: sacanagem ser associada a sexo e... Sacanear, ferrar os outros... Mas sempre preferi um pequeno grupo de amigos, bem pequeno de preferência. Nunca curti maconha porque tinha nojo da baba que corre de boca em boca... Bah! Blergh!!!!!!!!! E se nunca gostei de balada, nos momentos em que as curti foi por desespero mesmo... Falta de companhia, vontade de encher a cara e falar com alguém... E quer lugar melhor? Tá todo mundo bêbado e ninguém vai lembrar de você no dia seguinte... Nem com quem você fodeu... No bom e no mau sentido... Ai vem de novo a língua pátria... Filha da puta, a pátria e a língua. Língua é bom, chupando meu pinto. Não gosto de balada nem de baladeiros comedores e baladeiras piranhas. Porque em baladas, todos comem e são comidos... Esse é o código, o segredo das baladas. Quantas promessas são feitas e quebradas em baladas... Quantas crianças nascem de baladas... Inconseqüências e suas conseqüências... Porque em balada se não se come ou é comido não é balada. Simples.... Simples balada. Quem, entre os baladeiros de qualquer espécie, nunca acordou do lado de uma baranga horrorosa ou de um desdentado sem nem lembrar como foi parar ali?  É... Balada. Foda isso! Pessoas têm sentimentos, mas em baladas parecem que são apenas seres em que o que importa é apenas o grau etílico e erótico. O que importa é foder, cheirar, beber... Sensações apenas torpes e que não edificam em porra nenhuma o ser humano. Baladas, baladas, "Sorrisos na Madrugada". É, mas sorrisos falsos, drogas batizadas, pessoas fúteis, músicos inúteis, donos de bares embriagados pelo dinheiro e um bando de moleques idiotas bebendo e se drogando... E enchendo o rabo dos poderosos. Baladas, baladas.... Baladas tristes em forma de tango... Rock Balada é uma piada. Balada, Piada Balada. Eu não gosto de balada e nunca gostei. Bares noturnos são açougues onde a carne humana é exposta a compradores que nem sequer exigem a de primeira. Carne humana, no mercado de consumo é a mais cara... Ou a mais barata. Que importa se é Funk, Rock, Pagode, Axé ou a puta que o pariu. Balada é balada. Onde todos se divertem, se fodem, fodem os outros. Balada é trono do egoísmo. Competição de tamanho de pênis ou de quem é mais piranha. Quem dá mais, quem deu mais, quem come quem... São as disputas no leilão humano das baladas. Balada é balada! A competição é o que dá o tom. Seres noturnos com orgulho de sua cegueira permanente á luz do dia. Pobres crianças com cheiro de mofo e naftalina. Pobre, pobres crianças que não acreditam no dia. Quero estar morto ao amanhecer e não gosto do cheiro de vômito em meu cabelo. Nem o de maconha, que enjoa meu estômago. Ai, garota, gosta do cheiro de esperma em sua boca quando acorda de manhã? Quem dá pra quem, quem come quem nesta balada? Quantos pintos você chupou ontem à noite? Gosto de pinto é igual? Mesmo sem lavar? Lavou tá novo? E ai, cara, quantas bucetas você comeu ontem? Tinha cada bucetinha naquela balada, né? Todas putinhas, né?! Cê não vai querer casar com nenhuma delas, né?! Ai... O Punk da Periferia, da Freguesia do Ó...Ou da puta que o pariu... Em quantos caras deu porrada ontem em sua balada? Uma porrada, né?! Sai piranha que meu pinto está mole! Não quero te foder porque você é cara demais pra mim... E ai... Diz uma coisa pra mim: Você já deu o cu hoje? Não?! Mas ficou com vontade né?! Quando eu quiser foder alguém pago uma puta bem gostosa e dai nem tenho que lembrar ou ser perguntado do nome dela. Puta é tudo igual mesmo...! Seja em balada ou no puteiro! Puta é puta, na esquina ou na balada. De salto ou saltando. Mas o dia ainda nem chegou e minha balada escrita ainda nem chegou ao final... Passe seu melhor perfume, lustre a botinha, coloque uma saia bem curtinha, guarde uma grana pra breja e outra pro motel - acaso o muro atrás da balada machuque sua bunda. E tchau. Mas não me espere em sua balada. Ah, não esquece da porra da camisinha para encher de porra, porque ninguém quer ai mais uma piranha ou pirralho cheio de doença venérea fodendo os outros. Puta sacanagem! Prefiro o “Banquete de Lixo”, porque “O hoje é apenas um furo no futuro por onde o passado começa a jorrar. E eu aqui isolado, onde nada é perdoado, vi o fim chamando o principio, pra poderem se encontrar.” E também sei que agora é Luiz Carlos Cichetto que Barata vai encarar “Nem todo bem que conquistei nem todo mal que eu causei me dão direito de poder lhe ensinar” Meu amigo Kraciunas já me disse depois de umas, que eu não sou nenhum demônio, não sou bom nem mau. E hoje vi o furo do futuro jorrando vinho azedo em minha cabeça, o meu principio e o meu fim se encontrando em meu sepulcro e o Certo e o Errado, de braços e pernas dados transando que nem loucos. Estou cansado de ser um mendigo que apresenta um banquete de lixo cultural. E eu não penso melhor parado, estou desempregado mas sou escritor. Eles não avaliam seu preço se baseando pelo nível mental que eu estou usando. E minha cabeça está de graça hoje. Procure na barraca da feira de amanhã ou procure nos restos daquele restaurante de luxo da esquina da sua casa. Eu morri e sei mesmo qual foi aquele mês, foi Outubro, de um ano que nunca começou. 1977 é um ano que não tinha que existir. Eu morro e morri e nem sei o que fizeste, Metrô Linha Leste Oeste. Pouco importa, porco importa! Pesadelos Mitológicos Número 3, Senhora Dona Persona...  “Todo homem tem direito de pensar o que quiser, todo homem tem direito de morrer quando quiser, direito de viver pela sua própria Lei.”  É, sou mesmo outro canceriano sem lar e sem bar... Estou sentado no chão, tossindo, trancado dentro de mim mesmo e a mobília é parca e gasta. Acabei de tomar minhas três ou quatro doses de Cynar puro e a Clínica Tobias é aqui. E eu nem sei o que acontece e minha enfermeira chega daqui a pouco com sua dose de morfina em forma de palavras religiosas e eu sou apenas um velho internado em um asilo de loucos. Uma lista e baladas que eu não gosto esperam por mim, mas estejas sozinha nessa, cara criança, porque prefiro comemorar seu aniversário metendo uma bala na minha cabeça. Balas, balas, baladas. Revólver e revolver. Volver e voltar. Nunca voltar, porque a vítima nunca volta ao lugar do crime, apenas o criminoso. E eu não matei ninguém. Fui morto e enterrado no fundo de uma cova rasa. Saqueado e sacaneado. Mas não importa, minha gostosa! O que importa é que queria mesmo era foder sua bucetinha melada, mas tudo bem, eu não gosto de baladas nem de mulheres bêbadas cujos clitóris estão no lugar do cérebro. Do mesmo jeito que eu minhas veias não corre esperma, mas sangue. Não gosto de mulheres que têm o útero no lugar do coração e portanto por elas não sinto tesão. Gemidos, minha piranha, são apenas gemidos e unhas rasgam e cortam, por prazer e de tesão ou por vingança. Queria mesmo lhe dar os parabéns, mas lhe dou minhas condolências, queria lhe dar prazer, mas tenho nojo daquilo que senti quando comi sua bucetinha sem dono. Dá pra mim, só hoje vai! Eu vou pra balada contigo, te como depois caio no mundo. Ta, eu não gosto de balada, mas gosto de foder sua buceta. Gosto do melado que escorre dela.  Quase 30 e não és mais uma criança. O Punk, ele não é mais uma criança, não tenha a pretensão de ser uma criança rebelde, porque o  rebelde sou eu. Escorpião come barata e as vezes uma barata astuta come um escorpião...Pelo rabo! Dá o cu pra mim que eu não conto pra ninguém! Estou com fome, acho que preciso comer alguém! Tem balada hoje? Me chama, que depois que a balada acabar eu te como no fundo do salão. Convide suas amigas e então sua festa estará completa. Não minta, apenas sinta. A gente pode colocar uma trilha sonora bem legal, dança coladinho, isto é eu colando meu pau bem junto com sua bucetinha inçada, que acha? “So Very Hard To Go” é o caralho, eu nunca parti porque eu nunca cheguei. Fui apenas uma balada prolongada por mais noites que eram necessárias.  E o hoje não é apenas um furo no futuro, amigo. O hoje é apenas a buceta do passado, por onde o melado continua a jorrar.  Que resta? Nem balada nem buceta melada, o que resta são fantasmas de um dia que nunca começa, de uma noite que nunca acaba e de um tempo que insiste em não apagar. Não quero saber que música tocará em meu velório, nem que médico lhe enfia um supositório.  “Porque é noite de balada, sorrisos na madrugada... Desculpe só estou de passagem... Desculpe se canto em sua homenagem... Dinheiro não compra a verdade... Quem sabe a felicidade...Feliz noite... Embriagada...” Meus olhos agora pouco enxergam, meus dentes pouco mordem. “Seus olhos pequenos da cor da terra, me fazem lembrar a guerra” Pois é, o problema é que usas lentes de contato cor de mel, igual uma tigresa de unhas negras e eu, entre a serpente e a raposa, fiquei com a solidão. E não tenho uma faca, nem o mapa, estou perdido e não posso cortar mais os pulsos como antes. “Um grande amor do passado se transforma em aversão e os dois lado a lado corroem o coração” Mas hoje é noite de balada e eu não gosto de balada e quero esquecer que agora ainda hoje. Quero descer da solidão e da tristeza, mas os devaneios tolos ainda me torturam.  Chega mais, vem cá! Deixa eu enfiar minha língua na sua orelha... No cu? É... Talvez.. foi muito bom quando eu enfiei a língua no seu cu. Mas agora minha língua está mole.  “Tente passar pelo que eu estou passando”  Hoje eu acordei sem uma gota de sangue no corpo. Sem uma gota de alma no sangue. Afinal, esquecestes que eu lhe dei minha alma e a trocastes por um par de calcinhas? E por um par de algemas? Portanto o prisioneiro não sou eu, porque fiz as chaves das minhas próprias vísceras. Agora estou terminando, desculpe eu morrer, desculpe eu estar morto e não poder ir até ai lhe apertar a mão... Nem os peitos. Desculpe eu estar morto e não poder ir até ai enfiar o dedo na sua buceta nem comer do seu bolo nem comer seu cu. Apenas não gosto de baladas nem de putas baratas.

26/10/2006

Que Venham as Putas!

Que Venham as Putas!
Luiz Carlos Cichetto

Quero acordar de manhã tossindo e peidando. Fumar quatro maços de cigarros por dia, beber todas as cervejas que existem e depois bater cabeça ao som do bom e velho (ou novo) Rock'n'Roll. A liberdade é minha e eu a conquistei. Sou Barata e não barata, sou anjo, rebelde e torto, solto principalmente. Minhas asas não carregam ao céu nem ao inferno, porque como disse, estou livre. Não prendam minhas asas, não amarrem meus pulsos. Deixem minhas pernas caminharem até onde eu quero. O destino é meu e de nenhuma bruxa. Não quero dizer eu amo, porque não retrata meu ser. Quero peidar sem censura e andar sem frescura. Acordar e tomar café na padaria, andar as cinco da manhã falando com os mendigos do centro da cidade. Quero beber até cair, cair até beber. Beber com as putas, beber, beber... E dai, que alguém tem com isso? Depois de cinquenta anos minha vida é minha e não quero mais tomar conta de ninguém. Cada um que tome conta da sua própria existência. Não sou professor nem padre. Deixem rolar as pedras, Keep The Rolling Stones, Meet The Beatles e Purple haze into my brain. Não caio em buracos porque aprendi a andar pelas calçadas, minhas pernas estão soltas e minhas botas gastaram os saltos de tanto eu pisar em pedras. Mas as putas ainda gozam e bebem comigo. Acreditam em putas que gozam? Eu também! Apenas não acredito é em anjos, porque anjos não gozam... Nem fingem. Quero putas e desejos alados, pés bonitos e olhares lânguidos. Cansei de olhares cansados e que imploram por dinheiro e misericórdia. Freiras e putas estão perdidas. E daí? Quero transar com todas! Ontem bebi até cair e quase não acho o caminho de volta... Mas nem sempre quero voltar. Voltar para onde, se eu nunca sai? Deixa de frescura, que eu não gosto de beijo na boca. Gosto mesmo é de chupar bucetas de putas. Eu não posso recolher seus cacos porque ainda nem acabei de recolher os meus. Não quero mais caminhar carregando pedras. Desliguei o telefone, aliás arranquei o fio. Rasga meu número, esquece o endereço. Eu não moro em lugar nenhum nem com ninguém. Não quero magoar ninguém então prefiro estar só. Moro dentro de mim e entro dentro de você apenas para ver seu coração e o sangue que corre em suas artérias. O mundo é uma buceta quente e melada e eu quero me enfiar nele. Até o pescoço, quero chupar feito manga até o caroço. Oh, minha querida, apaga as luzes que estou de ressaca e a lua incomoda. Desliga o botão e apaga o sol. Quero dormir até mais tarde hoje. À noite todos os gatos são pardos e todas as gatas estão no cio. As cadelas gemem de tesão e eu quero mesmo dançar Rock'n'Roll. Let it bleed. Eu não sangro mais porque não quero. Dor nem sei mais o que é, do mesmo jeito que saudade. Saudade, falam, existe apenas na língua portuguesa. Então inglesas não sentem saudade? Austríacas não sentem saudades? Que estranho! Nem eu, que sou o mundo sinto saudades. Saudades? Apenas do cigarro que acabei de apagar no cinzeiro. E da garrafa de Cynar que acabei de tomar. Daquela putinha que fodi ontem naquele puteiro cheirando a mijo e incenso barato também. Meus cabelos estão longos e minha paciência curta. Não tenho idade para ter paciência. Paciência é coisa de velhos, por mais paradoxal que isso possa parecer. Acorda, que eu tive um pesadelo anteontem, uma noite em que eu não consegui dormir, porque a lua não deixou. Abriram um buraco no meu peito por onde quiseram entrar, mas eu eu tapei rapidinho, com o asfalto que sobrou. Minha barriga ronca mas eu não quero comer agora. Não gosto de comer sozinho e então prefiro não comer. Tomo outro gole de café gelado porque estou com preguiça de esquentar. Porque chegastes chegando e ai foi falando em paixão? Eu não quero! Por um momento acreditei que poderia querer outra paixão, mas tenho que continuar afirmando: amor? Nem de mãe. Porque eu sei que apenas a dor carrega à sabedoria e quero apenas saber com quantos paus se faz uma canoa. Quero construir minha canoa e atravessar o rio até a outra margem, onde putinhas de dezoito anos esperam para chupar meu pau. E o rio é feito de Cynar. Até lá, quero estar em qualquer lugar e acordar onde quiser. Tem uma puta que gosta que eu a chupe, então... Um monte de livros ainda precisam ser lidos e eu nem sei por onde começar. Parece que foi ontem e a semana que vem ainda nem começou. Fui dormir cedo porque enchi a lata, até a tampa... Então não ligue que estou pelado e bêbado. Até qualquer hora onde a estrada poderá carregar. "Bêbados não marcham" e eu nem quero marchar. Soldados são tristes e as putas são alegres. Então que venham as putas!

11/5/2007

Coçar a Cicatriz, Xingar a Meretriz e Sonhar Com a Imperatriz

Coçar a Cicatriz, Xingar a Meretriz e Sonhar Com a Imperatriz
Luiz Carlos Cichetto

Au Salon de la rue des Moulins - Henri de Toulouse-Lautrec

Queria mesmo deixar de falar sobre a ferida que teima em doer, da falta do remédio e da falta de destino, mas o que consigo apenas coçar a cicatriz, xingar a meretriz e sonhar com a imperatriz. É difícil pensar sem sentir dor, difícil chorar sem lágrimas, difícil é perceber que não existe um caminho. Quebrei meus óculos e agora não consigo enxergar um palmo adiante de meu nariz. Que importância tem isso pra quem da vida ainda é aprendiz? Onde minha verdade me levará? Bem mais longe que suas mentiras! Deixei uma porção de sonhos enrolados em papel de seda, dentro de uma caixa de madeira que eu mesmo construí, além de um colchão e de um fogão. Pouco importa onde deitar e que camas que esquentar, porque estou congelando no Inferno. Mas porque então tenho uma tristeza infinita, o coração apertado que não sei quando é saudade e quando é ódio? O ócio causa o ódio e eu nem sei até que esquina eu chego sem tropeçar. Há bêbados e putas demais nas ruas e as estrelas não tem graça nenhuma. Preciso de uma eternidade, quero a humanidade, sei que estou perdido e o caminho é comprido até o fim. Pedras esparramadas, hematitas, navalhas e relógios. Então, conto um conto e não aumento um ponto. A que ponto chegamos? A que ponto chegamos! Ao ponto final, de exclamação, de interrogação eterna. Pontos, reticências, acentos. Sem aspas nem caspas, apenas cabelos pintados da cor do Inferno. Andar é caminhar e não sei ficar parado. E eu, que  nunca entrei num motel. Foder é bom, transar melhor, mas o ideal é fazer amor. Tem mulheres que gostam de dar e se acham liberadas, mas elas gostam apenas de dar então são apenas putas. Não gostam mesmo de sexo, nem de homem, gostam de dar. Mulheres de verdade gostam de dar... E de receber... De doar, não apenas dar. Boca suja, cala a boca e abre as pernas, sua piranha! Putas não gostam de sexo, gostam de dinheiro. Então onde estão as mulheres de verdade? Trepar, transar, meter, foder... Tudo isso tem que ser uma troca de desejos, de líquidos, sólidos e gasosos. Não apenas de dar... E receber... Dinheiro ou coisas de volta. Onde é que está meu Rock'n'Roll??? Existem as putas, as fêmeas e as mulheres. As putas gostam de dar e tem orgulho disso, apenas dar a buceta e receber sempre algo em troca, de favores a dinheiro, de suporte de carência a remédios; de documentos de posse a posses de documentos, incluindo ai certidão de casamento. As fêmeas também gostam de dar não apenas dar a buceta, mas dar carinho, paixão; mas termina no sexo a relação; apenas satisfazem uma necessidade fisiológica. E sabem suportar melhor a dor... Dos outros... Mas existem por fim as mulheres... Uma espécie animal em extinção, pois gosta de dar a buceta, mas também de chupar, de ser chupada, de gozar e fazer gozar, mas também está pronta para a dor em comum e que consegue gritar tanto de prazer quando de espanto, que segura tão bem uma espada quanto segura um pinto; que segura tão bem a barra de ser companheira e guerreira. Onde andam as mulheres? Não sei! As putas e as fêmeas eu conheço bem. Onde andam as mulheres? As mulheres podem ou não ter tatuagem, possa ou não usar piercings, saias curtas, botas e estereótipos de putas e fêmeas, mas precisam ser mulheres, não apenas putas ou fêmeas. Precisam sim gostar de sexo e de dinheiro, mas não podem ser escravas do desejo e da cobiça. Rainhas não existem ou são caras, putas são caras, fêmeas são caras, mas mulheres de verdade são baratas. Peco por falar, pecados do calar, emudeço quando tenho sede, morri na beira de um poço, mas ah, seu moço, deixa eu morrer em paz que ainda tenho um caminho comprido a percorrer. Tenho dois livros a ler e outros tantos que não consigo entender. Nunca entendi os poetas nem as mulheres, são todos fingidos e mentirosos. Quando eu acordei ontem tinha uma dor nas pernas e nem conseguia andar. Não existe remédio que faça um morto caminhar. Acordo? Nem quero, é melhor dormir e ter pesadelos. Quero uma navalha, cortar minha jugular, deixar meu sangue escorrer, porque sem sangue não sinto dor, não sinto nada, não sinto saudades daquilo que não posso sentir. Saudades da dor, pobre poeta idiota! Acreditastes que ao falar era com sua alma, não com sua buceta! Acreditastes nas outras vidas quando é nesta que tens que acreditar, seu inútil! Papagaios e cadeiras de balanço... Bobagem! Abandonastes sua arte em troco de uma buceta??? Burro! A arte lhe dará tantas bucetas quantas puderes foder! Ou não! Mas de qualquer forma sua arte é uma grande buceta cabeluda, gostosa e cheirosa... Buceta de puta... Gratuita que não lhe faz pagar por um prazer que é só dela. Acorda, portanto e segure seu pinto, bem duro e bem tesudo. Anjos tem asas, mas galinhas também tem! Nunca confire em paixão de putas, putas mentem, e quem mente também rouba, esta era a filosofia da mãe de Ray, Charles. Real filosofia. Deixa eu escutar Miles Davis, chorar até secar e depois espetar um palito de churrasco na jugular. Segunda-feira é dia de trabalho, seu imbecil, deixa de lamento e pega uma picareta. Arte não é trabalho, arte é vagabundagem, lembra o que a professora lhe falou. Chutaram seu rabo, não é, Poeta Idiota! Então deixe de ser idiota, ou deixe de ser poeta, o que é a mesma coisa. Putas são frias, geladas e usurárias, não acredite em seus gritos de paixão. Ninguém reconhece um artista, nem um pedreiro, mas pedreiros constroem casas e casas dão prazer. Então um pedreiro constrói o prazer? A luta é dura e meu pau agora amoleceu. Não como mais nenhuma puta sem dinheiro. O preço das honestas é muito maior. Caras putas, caríssimas honestas. Deixa estar que um dia eu lhe compro um par de brincos de ouro, um anel solitário e outra navalha. Atende o telefone, que é seu cafetão. Atende o celular que é alguém querendo lhe alugar. Desabafa então comigo sobre o que é ser puta e eu lhe desabafo sobre o que é morrer. Ambos estamos mortos, a diferença é que sei do que se trata morrer. Sei o preço das coisas. Deixe então de ficar procurando o gozo das putas e encontre o seu, Poeta dos Infernos! As putas te seguirão, Poeta das Perdidas! Encontre seu caminho, e faça com que ele seja apenas seu! O que é seu lhe pertence, por direito e de fato. Crie seus próprios vaticínios, crie seu próprio destino. É seu e de ninguém mais. Para ser forte não é preciso carregar ninguém nas costas. Fui!!!

10/5/2009

09/07/2019

Carta de Um Velho Safado a Uma Barata de Bar

Carta de Um Velho Safado a Uma Barata de Bar
(Um Tributo a Charles Bukowski)
Luiz Carlos Cichetto


Olá, querida barata:

Estou lhe mandando a presente afim de lhe contar o quanto foi importante o nosso encontro de ontem á noite, quando eu tinha bebido demais, fumado de mais e amado de menos.
Sabes, querida barata, que aquele bar onde nos encontramos carrega por aquelas imundas e gordurentas mesas e balcão, histórias que apenas as baratas e a sarjeta da rua em frente conhecem.
Minha cabeça dói, amiga barata e acaso a sua também doa ao mexer suas antenas, não ligue, em poucas horas ou depois de outro porre, passa.
Hoje, escondida pelas frestas ao lado da pia imunda da cozinha do bar, certamente não lembrarás mais de mim e sei que outros bêbados solitários encontrarão em suas antenas, os ombros que precisam.
Têm horas que penso que sou igual a uma barata, mais porque nós humanos lhes achamos imundas e doentias, menos porque respeitamos sua capacidade de sobrevivência; mais porque as tememos, menos porque as respeitamos por sua capacidade de alimentar de absolutamente qualquer coisa, enquanto precisamos comer em bares e plantar e esperar.
Querida amiga, a solidão humana é coisa que apenas as baratas compreendem e sei que quando escutastes sobre minha solidão gargalhaste de um jeito a querer dizer "Estou certa disto!".
Sabes, amiga barata de balcão de bar, sou apenas um velho safado, nem carteiro nem poeta, apenas arremedo de escritor. Mas como escritor escrevo e como o carteiro entregava cartas ao poeta, lhe entrego esta, certo de que com o mesmo respeito que o poeta tratava o carteiro e suas cartas, tratarás a mim e minha carta.
E, amiga barata, sou apenas um velho safado, carteiro da ilusão, da angústia e da solidão. Sabes, querida amiga que encontrei naquele balcão fedorento e gordurento, queria lhe agradecer por escutar minhas queixas e minhas mágoas, por ficares ali, parada, quieta, escutando cada palavra que a embriagues me impunha, me trazia á boca e eram pronunciadas com dificuldade.
Obrigado por ficar ali, apenas mexendo suas antenas, sem censura nem pudor. Queria lhe agradecer por bebericar minha bebida em goles tão pequenos, por andar de um lado ao outro do balcão tomando conta de mim, quanto a bebida me fazia dormir; por andar nas bordas do meu copo tomando conta dele, porque afinal quem beberia num copo em que uma barata andara?
Queria lhe agradecer porque quando finalmente minhas pernas responderam aos impulsos do cérebro embriagado e responderam mesmo que trôpegas aos passos, também correstes de volta a sua fresta junto a pia da cozinha do bar, de um jeito a me dizer "Bom dia!".
Queria saber, querida barata de bar cujo nome - igual a de tantas putas com as quais dormi - desconheço, sobre o que achastes daquele livro que eu portava e que passeastes pelas páginas abertas, um pouco invejosa porque não falava de ti, mas de moscas de bar. Grande injustiça aquela, realmente! É é por isso que decidi lhe mandar esta carta e espero que a leia antes que o dono do bar descubra teu esconderijo, logo ao lado da pia da cozinha, onde ontem á noite não me deste um beijo de bom dia!
Sei que por sua coloração - e eu andei estudando sua espécie do mesmo que jeito que estudas a minha - também és uma veja velha barata safada. Aliás, porque me refiro a você no feminino, se nem sei seu sexo? Mas realmente não importa que sexo um amigo tenha ou se é uma barata ou outro ser, mesmo que humano. O que sei é que pensas, porque mexes as antenas o mesmo jeito que eu quando penso, balanço os braços. E sei mais ainda, que fantástica amiga serias por ter três pares de braços (ou seriam três pares de pernas?).
Não ligues, não, ás queixas deste que lhe manda esta carta, sou apenas um bêbado, um velho safado em busca de uma paixão perdida. E uma paixão eterna e etérea, a paixão pela vida, perdida - a paixão ou a vida - em um tempo em que eu não era nem velho nem safado, nem bêbado sequer era. Aliás o que eu era era um não ser, mesmo que um ser humano, enquanto sempre fostes e serás uma barata de bar.
Não mostres, minha cara, esta carta a outras baratas e principalmente a outros seres humanos porque, principalmente estes, hão de dizer que além de um velho safado, sou um velho louco, conversando com baratas. Certamente irão dizer que a bebida e a solidão embotaram minha mente a ponto de ter delírios e, embora digam que não, irão incluir minha carta em um fabulário geral do delírio cotidiano. Guardes segredo, amiga. Mas não o segredo dos padres, mas o segredo das adúlteras.
Quando quiseres, abandonas a fresta próxima a pia nojenta e gordurenta do bar onde a conheci e chegues a minha morada. Ali terás o abrigo em uma fresta próxima de minha cama, onde meus pesadelos acompanham as noites em que não durmo embriagado. Terás ali papel e bebida, que é tudo o que precisam um escritor e uma barata. Serás então minha confidente de todas as noites, sem que eu precise beber debruçado num imundo balcão de bar afim de poder me escutar.

5/11/2001

Tudo Certo. Tudo Politicamente Correto

Tudo Certo. Tudo Politicamente Correto

Um homem idoso dá uma cantada sexual numa garota de vinte e poucos. Ele diz que ela é gostosa, que quer transar com ela e um monte de coisas. Ela responde que não vai transar com um velho babão e xinga o velhote de machista, diz que ele não se enxerga e um monte de coisas. Ela o processa por assédio. Ele a processa por preconceito contra idoso. Estão presos. Ninguém trepou com ninguém. Nenhum dos dois gozou. Ela virou lésbica na cadeia, afinal homens são todos uns porcos. O velho morreu na cadeia, afinal lá se dá ou se morre protegendo o cu. Os advogados processaram os dois por falta de pagamento. A União recolheu as custas do processo. Os políticos fizeram as leis para proteger a sociedade. O presidente foi pego roubando. Ninguém sabe. Ninguém viu. A garota foi pra Marcha para Jesus. O velho para o cemitério.

A vida segue. Está tudo certo. Está tudo politicamente correto.

21/10/2017

05/07/2019

Like The Hurricane

Like The Hurricane
Barata Cichetto
Antagônico, busco uma dor que enfraquece meu corpo, mas fortalece a minha alma; irônico, dou tiros no escuro tentando abrir buracos na escuridão; crônico, sonho com minhas doces amantes e tenho pesadelos amargos comigo mesmo.
Sou feito o furacão, like the hurricane, forte, inquieto e destruidor, mas apenas uma força natural; consumo a mim mesmo, depois parto deixando uma lembrança de mim que nenhuma outra tormenta apaga; lembro de mim mesmo com ódio e com ternura daquilo que destruí; tenho saudades do parto e saudades antes do partir, mas depois parto ao meio meus sentimentos e dou a metade que sobrou à mendiga que, enlouquecida e entorpecida pela fome, brada que a insanidade é inerente á humanidade. 
Poeta profundo, do tipo perdido, que apenas encontra salvação na arte, num tipo de arte dolorida e inglória; mas não tentem salvar minha alma, que ela foi perdida quando eu nasci; não tentem salvar a mim de mim mesmo; ninguém é perfeito, mas eu não sou um mal sujeito, nem bom bem mal, apenas Poeta.
Estou à solta, sem crime nem castigo, sem perdão nem oração; categórico, instalo bandeiras no alto do meu precipício, depois salto de cabeça do alto do edifício; mas não busquem meus pedaços na calçada, peguem as folhas soltas das poesias que lancei ao ar no momento da minha queda.
Eu morro, mas não solto, padeço, mas não largo mão, apodreço, mas não... Não, não morro enquanto viver em mim a dor. Pobres amantes, não entendem de dor, nem da dor causada por elas mesmas! Não sou rocha, sou tocha humana queimando de minha própria combustão; não sou cristalino em minha dor, guardo as maiores a mim mesmo; e não acredito em anjos nem em deusas, sou um demônio que foi jogado á Terra em busca de pedras perdidas, asas partidas e putas arrependidas.
Reflito agora sobre a liberdade e as guerras santas, internas, contra mim e contra o que eu achara ser amor. Não posso amar, não sei mesmo o que é o amor que proclamam nas histórias, nos poemas e nos filmes. Porque meu amor é mais intenso e quente que qualquer história. Nem àquelas por quem abandonei minha alma, também conhecida por "Poesia", souberam compreender.
A arte, apenas ela, compreende e procura aqueles que a alimentam e suprem. Arte é autofágica, vampira e santa ao mesmo tempo. Arte é feito cachorro: é ele quem escolhe seu dono e não adianta outro alimentar que ela irá lhe morder a mão.
Agora, preciso sair e fumar, cigarro pode matar. Pode! Mas a vida mata ao certo, viver é fatal; é proibido pensar em áreas públicas, de uso comum; é proibido ser poeta, que arte é cancerígena; ambientes enfumaçados deixam o cabelo das belas fedido. Então, amadas, lavem o cabelo e deixem eu morrer tossindo.
Sonhei com minha própria morte - “Era um sujeito de sorte aquele homem!”, declarou sobre meu caixão uma puta, trajada de preto e com um cigarro na mão; amadas riam bebendo refrigerantes baratos, padres gargalhavam e o único choro que podia ser escutado era da Poesia, prostrada e um canto, desenhada em uma folha de papel.

09/12/2009

04/07/2019

O Dia Em Que Eu Morri

O Dia Em Que Eu Morri
Luiz Carlos Cichetto
Imagem: Jonny Lindner por Pixabay

O dia em que eu morri foi igual ao dia antes e ao dia depois de eu morrer. Para muita gente foi diferente, mas não para mim. Naquele dia, assim como nos anteriores e nos posteriores, eu não sabia que tinha morrido. Todos são dias de morto para mim.
No dia em que eu morri, como em todos os outros dias, eu não fui lembrado, a não ser por três ou quatro amigos. Alguns até lembraram mandaram uma mensagem à viúva afirmando minha bondade e outras inverdades que se falam quando alguém morre, ou quando se deseja bajular. Estranha essa mania de as pessoas bajularem os mortos, como se eles tivessem ouvidos, como que se pudessem ser ouvidos. Ou como se quisessem.
Aquele dia eu não acordei, como não acordo nenhum outro dia. Não inspirei em aspirei o ar como nunca faço. A diferença foi que não acendi um cigarro, nem preparei café. Apenas fiquei deitado, morto, como faço todos os dias antes de morrer.
No dia em que morri, como em todos os outros em que estive morto, meus filhos não falaram comigo, ocupados com suas lutas, meus pais continuavam preocupados, como em todos os outros dias em que me abortaram, em guardar dinheiro para quando morrerem; e todos eles tiveram desculpas para não me verem morrer: as mesmas desculpas que usaram para não me verem viver.
O dia em que morri não aconteceu nada além da mesmice de todos os outros dias: políticos continuaram roubando e as pessoas brigando por eles; os donos do mundo continuaram a mandar, e os mandados continuaram a andar pelo mesmo caminho. Tudo era muito igual, e nenhuma pena caiu do céu em minha homenagem. Nenhum pássaro cantou diferente. Os ponteiros do relógio, mesmo daqueles que não tem ponteiros, continuaram a marcar as horas, até completarem as vinte e quatro do dia em que morri; e depois continuaram sua marcha marcando o dia seguinte ao da minha morte, sem se importar com quem ficou para trás, atrasado, perdido ou morto no tempo. 
Eu não sei a que horas foi que morri, que não uso relógio de pulso.
No dia em que morri não aconteceu nada que algum jornal pudesse dar notícia, a não ser as mesmas que dão desde que existe jornal, apenas mudando as palavras, as pessoas e os lugares. 
Enfim, no dia em que morri, apenas foi um dia qualquer em um lugar qualquer, como qualquer dia em que eu não tenha morrido.

04/07/2019