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28/08/2019

Criado-Mudo

Criado-Mudo
Barata Cichetto
https://twitter.com/mulhernuanacama

Ela era incômoda feito uma cômoda antiga e cheia de cupim dentro do meu quarto. Me acomodei. Virei peça do mobiliário. Quase um criado-mudo onde ela guardava seu papel higiênico e suas calcinhas. Comodamente me fiz de imóvel como um móvel encardido de madeira antiga que um dia foi útil. Quieto apenas olhando a bagunça na cama ao lado e recebendo toda espécie de coisa sem uso em cima de mim. Criado-mudo me fiz de surdo. Até o dia em que o quarto ficou pequeno demais e a cômoda ficou tão incômoda que a coloquei na frente do portão. Que os cachorros mijem nela até que o lixeiro a carregue.

25/08/2019

27/08/2019

Cabaré Pornopoético

Cabaré Pornopoético
Barata Cichetto

Minha poesia nasceu no meio das putas. E por elas. E para as elas. Minha primeira musa fazia ponto na Avenida São João. A partir daí, e lá se vão 45 anos, sempre foi assim: minhas musas sempre foram putas, mesmo que tenham sido esposas, ou foram esposas, mesmo sendo putas. Algo errado com isso? Errado chamar esposas de putas? Ou putas de esposas? Qual é a escolha certa? Minha poesia é das putas. E para as putas? Minhas lutas. Absolutas. Das putas. Pelas putas. As outras. São outras. Putas. Cansei de compor poemas no meio de outas bêbadas às três da manhã. E as três da tarde. Putas mijando de rir da minha poesia. E eu mijando na cara delas. Ejaculando poesia bem no meio dos seus peitos. Foram meu feitos. Eu era o poeta palhaço no meio do picadeiro. Do puteiro. E elas era putas querendo ser engraçadas. Desgraçadas. No meio do pardieiro. Elas eram putas e eu sobranceiro e fornido descendo as escadas como no Ulisses de Joyce. Eram tímidas aquelas putas da São João, eram temidas às da Radial. Fremidas as do meu quintal. Todas era putas e a todas eu beijei na boca. De todas chupei as bucetas. Mesmo das porcas fedidas cheirando a suor. Adelaide Carraro não mora mais aqui. O submundo da sociedade. Underground é coisa de inglês burguês. Punk de operário irlandês. E o bom Rock português? Em francês  pergunto os porquês. Nem quero saber em japonês. Em chinês ou em galês. Putas são putas em qualquer lugar do mundo. E também são putas os poetas do fim do mundo. Salope. Poète. Putas crentes são fedidas. Prefiro as arrependidas. Casei com duas. Detesto putas limpas. Porcas usando colares de diamante. E pulseira de barbante. De agora em diante. Caso apenas com poetas. Que são putas imundas. E gostam de bar suas bundas. Apenas para rimar. Vagabundas. Poetas são egoístas. Putas são artistas. Putas poetas são narcisistas. Maniqueístas. De agora em diante só caso com advogadas. São hedonistas. Por dever e profissão. Suas listas de leis, suas pistas e seus golpistas. Cansei de frígidas, de rígidas e de mal redigidas. Quero mulheres bem escritas, feito roteiros de cinema. Quero protagonistas. Quero mulheres bem elaboradas, ricas personalidades. Minha poesia nasceu no meio das putas. E no meio delas irá morrer. Comigo!

26/08/2019

26/08/2019

Let It Be, Let It Bleed, Let It Seed

Let It Be, Let It Bleed, Let It Seed
Barata Cichetto

Deixa eu dilapidar teus patrimônios, lapidar teus demônios, brindar teus hormônios, blindar teus heteronômios; dançar no teu cabaré literário e cavalgar teu pangaré temerário. Deixa eu mastigar tuas vestes e instigar tuas pestes; comer teu pastel e beber teu bordel. Comer teu pão de queijo, derreter teu não desejo e dissolver teu não ensejo. Deixa eu me queimar com teu café e teimar com tua fé; escorrer pelas tuas curvas e correr pelas tuas retas. Deixa eu envelhecer nas tuas idades e enveredar pelas tuas cidades; morrer por tuas necessidades, e viver pelas tuas vaidades. Deixa eu morder tua jugular e morrer de sangrar; te sagrar rainha e concubina do universo, ser teu verso e teu inverso. Deixa eu morrer de desgosto a seu gosto, em agosto, antes do verão te chegar, ou da aurora me cegar. Deixa eu me molhar na tua chuva e me encharcar na tua vulva; secar tua testa e me enfiar na tua fresta; ser tua festa, e o que mais resta. Deixa eu ser teu vampiro e teu suspiro; o ar que eu respiro e o poema que te inspiro. Deixa eu deixar te comer e parar de querer; deixa eu ser, deixa eu estar. Deixa eu querer?

26/08/2019

23/08/2019

Os Canibais Suicidas

Os Canibais Suicidas
Barata Cichetto

Então ela me pediu; "Me come!" E eu comi. Com açúcar e leite condensado. Comi com gosto, como gosto de comer. E comi primeiro seus braços, de carne mais seca, depois as pernas e o tronco. Depois comi os olhos que são bem salgados e o cérebro que é bem doce. Deixei por fim os seios e as nádegas, moles e suculentas, com um pouco de limão e umas gotas de gengibre. Comi tudo. Lambi o tutano dos ossos. As tripas joguei para os cachorros, que, aliás, eram dela mesmo e viviam cheirando. Sobrou apenas a buceta, que guardei debaixo do meu travesseiro, e o coração que guardei na geladeira para comer mais tarde. A língua foi a única coisa que desperdicei: coloquei no triturador da pia da cozinha. Agora estou me sentindo mal, não sei se é indigestão, que aquela porra de mulher era uma criatura totalmente indigesta, ou se é por causa do leite condensado, que acho que estava vencido. Acho que vou vomitar. Preciso de um médico... Estou passando muito mal, acho que estou com febre. Ó.... Estou me torcendo de dor. Dói em tudo quanto é lugar. Já vomitei até as tripas. Os cachorros estão lambendo também. Desgraçada! Eu sabia que estava fácil demais quando ela me pediu para comê-la. Devia estar envenenada. Vai ver até tinha tentado suicidar e quis me levar com ela. Vagabunda de uma figa. Agora vou sair, vê se encontro alguma mulher bem filha da puta e dizer para ela me comer. Será que dá certo?

23/08/2019

22/08/2019

Barata: Biografia Brutal (Um Falso Texto Sobre Pessoas Verdadeiras)

Barata: Biografia Brutal
(Um Falso Texto Sobre Pessoas Verdadeiras)
Barata Cichetto

Quem sou eu? Sou Barata porque assim me chamaram. Com minúsculas. Depois dei uma de bacana, criei um site e botei um artigo na frente e o substantivo transformei em nome e em adjetivo. Sou  Barata e fui batizado Luiz Carlos, pelo meu pai escroto que odiava o Prestes e quis se vingar em mim.  Sou Barata e mais que isso sou desigual. Feito barata branca, que é assim por ser albina. Sou diferente. Não busco a igualdade na humanidade. Ninguém é igual. Busco a desigualdade como fim social. Sou anormal. Já fui chamado de tudo: de filho da puta por ser um e de filho da puta de bom. "Ai quero mais seu filho da puta. Me fode, seu filho da puta!" Fui chamado Baratinha por amigos chegados e Baratão por amigas fudidas! Nunca fodi com amigas. Não misturo negócios. Casei quatro vezes. Todas as quatro de supetão. Elas queriam e eu não. Mas casei. Trepei. Fiz filhos que hoje chamam Lula de pai. Nunca fodi com viado. Nem dei o rabo, por falta de vontade. Ou seria de oportunidade, ainda não sei direito. De qualquer forma já fui chamado de bicha, de tarado, de viciado. Detesto maconha, mas já fui chamado de maconheiro. Sempre fui fiel a uma única puta. Acredito que nem todas as mulheres são putas, apenas minha mãe e as que se casaram comigo, ou que me deram a buceta. O resto são santas. Já fui cafetão. Já fui cristão. Nunca fui ladrão. Deus é uma piada de mau gosto. Nem gosto de piadas. Sou mal humorado. Fumo três maços de cigarro e com isso morrer de câncer é uma lógica. Mas quem sabe antes. De tiro na testa. Ou de desgosto. Sou anticomunista. Conservador no que me interessa conservar. Sou contra o aborto, mas por nenhuma questão religiosa. O corpo lhe pertence, feminista imbecil, mas a criança dentro da porra do seu útero não é corpo seu. Então, por que deu? Não é meu. Não fui eu. Fiz vasectomia aos trinta. Foda-se a humanidade. Sou misógino, misantropo e até miss Brasil se achar que isso não afeta sua autoestima. Me chamem do que quiserem. Não luto contra a humanidade, mas muito menos por ela. Sou individualista, mas não egoísta: aprenda a diferença crucial. Nunca fui crucificado, só apedrejado. Nasci no dia de Natal. Do anticristo. Mas não sou demônio. Sou um moleque de sessenta. Sou o que escarra na tua cara, o que cospe no próprio rosto e o que esporra na tua cara e depois te mostra a face no espelho toda gozada. Tem nojo? Então engole. Tudo. E ainda quer mais? Mais de mim? Vai comprar na padaria. Compra uma dúzia de sonhos, depois me lambe feito aquele creme. Como disse, sou Barata, mas não qualquer Barata, aquela sobe nas tuas costas e que voa no seu quarto numa noite escura. Te assusto? Não tenha medo. Mais que rima poética medo é um segredo que não se conta. O medo que se aponta. Esqueci-me de dizer que sou um bosta. E de quem gosta um manjar. Me chama pra jantar? Prometo me comportar. Sei usar os talheres. E prometo não peidar durante a janta. Só arrotar. Mas sei segurar a faca com a mão direita e o garfo com a esquerda. E diferenciar copo de vinho do de requeijão. Sou sofisticado quando quero. Não prometo mais nada. Nem que não vou querer te foder sobre a toalha de cetim quando acabarmos de jantar. Sou assim: uma agulha que pode te furar ou te costurar a pele. Bordar até. E prometo não te chamar de puta, não te chamar de santa. E nem de mãe. Prometo te chamar. Para ir beber, para foder, para conversar sobre teus gatos e nossos gastos. Falar sobre tua menstruação e minha constipação. Quero poder segurar tua mão para descer do ônibus e abrir a porta do carro, sem com isso querer te comer. Quero te comer sem precisar fazer nada disso. E fazer tudo isso apenas por querer. Gosto de te agradar. Sou saudosista. Queria estar à meia noite em Paris ou em Lisboa. Fumando ópio com Baudelaire ou na Tabacaria com Pessoa. Sou ator. Cantor. Sou idoso. Alto, magro e gostoso. Cabeludo e barbudo. Tesudo. Tenho pau grande. Gosto de oral. Lá e cá. Laika? Sou laico. Bardo. Tenho Facebook, Whatsapp, Instagram. Só não tenho dinheiro. Se cobra pra trepar eu pago com poesia. Ou com orgasmos líquidos. O que é a mesma coisa. Escrevo poesia com a língua na tua depilada. Ou com meu canivete nas tuas costas. Topas? Te espero na esquina. Só até amanhã. De manhã. De short desfiado com a polpa da bunda de fora. Sei esperar. Mas só um minuto. Quer um gozo líquido? Pergunte-me como. Enfim, sou Barata, já fiz de tudo. Até amor. Já fui tudo, menos santo. Já fui. Agora sou. E se quiser saber mais de mim veja as rugas no meu rosto, que são minhas cicatrizes. Atrizes do desgosto. Quer saber o que eu sou? Não seja eu e eu serei seu. 

18/08/2019

20/08/2019

Sursis

Sursis
Barata Cichetto


Sou poeta das lutas extremas,
Por rainhas loucas vomitadas.
O profeta de putas supremas,
E das rimas toscas limitadas.

Sou das extremas putas loucas vomitadas rainhas das lutas supremas limitadas. Sou de aço e do espaço. Ácido e flácido. Construtor de crateras e velejador de eras. Profeta do início do mundo e poeta do fim do início. Observador de precipício e filosofo de hospício. Não sou um meio nem o meio e nem tenho um quarto. Estou farto de ter infarto. Parto. De Cesar e de Ana. Cesar & Ana. Syd & Nancy. Bonnie & Clyde. Minha poesia é bandida. Tem que ser presa. De surpresa. Por um delegado folgado com um band-aid transparente na cara de gado. Quero um advogado civil. Servil. Vil. De terno e bravata. De eterno e cascata. Na vara da família. Apelo ao estatuto do indecente idoso e aos estatutos dos putos. Não põe algemas que sou primário no poder judiciário. Sou incendiário e meu crime é apartidário. Secundário. Confesso sob pena de perjúrio e diante dos jurados que meus pecados são apenas recados. E os solados dos soldados pisam minha mão. Eu não sinto dor e grito que quero ser escoltado. Quero ser presidente e não tenho dente para morder. Onde está a vítima e onde mora a testemunha? - Sou inocente senhor juiz, o culpado é o Luiz. - O que diz? - A culpa é da poesia, foi ela que me seduziu, foi quem deduziu. - Mas e o fuzil? - Não era meu, era do Brasil. Foi ele, quem primeiro me cuspiu. Eu não pedi clemência e nem aleguei demência e por pura imprudência fui condenado. Fudido. E pelo carcereiro fui conduzido à cela do corredor onde tinha um estuprador. Um ditador e um contador. Todos tinham a mesma história que lhes condiz. Todos com lugares marcados com giz. E todos queriam sursis. E então o que eu fiz foi tentar ser feliz. Espero que o ditador seja quem diz. Que o contador conte o que fiz. E que o estuprador seja aprendiz. Sou poeta. Só sei ser infeliz.

20/08/2019

16/08/2019

Alguém Quer Dar Pra Mim?

Alguém Quer Dar Pra Mim?
Barata Cichetto

Eu poderia esperar que alguém desse alguma coisa para mim; fosse a buceta, o cu, ou ao menos um muito obrigado, mas que não fosse obrigado. Eu gostaria de poder esperar que alguém desse algo para mim, que fosse um tapa na cara ou algum dinheiro, e que fosse ao menos companheiro.  Eu aceitaria esperar que alguém me desse, que não fosse esmola, que não fosse favor. E que não fosse de graça, que fosse até desgraça. Eu saberia esperar que alguém desse alguma coisa para mim, que fosse uma opinião, um pequeno gesto de afeto, ou ao menos respeito, até a despeito do que meu pensamento, mesmo que eu fosse suspeito de matar um sujeito. Poderia queria esperar que alguém lesse meu poema, me explicasse um teorema, e não seria problema esperar. Eu poderia querer esperar de alguém, mas de quem posso esperar? Esperar é esperança, e esperança é morte. E eu não sou mais criança para esperar. Esperar e contar nos dedos, esperar é apontar segredos, esperar é correr dos medos, e nos meus dedos tem tão poucos segredos e tantos medos, que não consigo contar. Quem espera sempre alcança, é o dito popular, então eu poderia alcançar quem corre a frente, apenas a me esperar. A esperança não cansa, disse o poeta, e que também não murcha, mas eu ainda não sei quanto ainda posso esperar sem cansar. E nem espero esperança nem espero perdão, espero o que espero, e espero em pé, com a corda no pescoço, e até apenas até a hora do almoço que posso esperar. Eu poderia ainda falar sobre outras formas de esperar, mas estou cansado de falar. E o que eu quero mesmo é acabar. Acabar com tudo e deixar o mundo a quem queira cuidar. Queria mesmo poder esperar algo de alguém, que fosse o que fosse, mas que fosse algo que eu mereço.  E se eu não merecer, que seja apenas por existir. Eu poderia querer esperar de alguém esperar por alguém, mas ninguém espera por mim. E por fim, queria saber esperar, sem desesperar, mas estão todos tão ocupados... E eu não tenho mais tempo de esperar.

16/08/2019

13/08/2019

Exumação

Exumação
Ao Amigo João Barrá
Foto: Luiz Carlos Cichetto, Cemitério das Cruzes ("Britos", Araraquara - SP

Confortem-se! Aceitem! A poesia morreu. De inanição. De falta de visão. Mas estava lúcida a coitada. Não ouvia direito. Não falava direito. Na verdade só chorava. Faleceu. Está morta a pobre. E nem no velório alguém recitou um verso. Em homenagem póstuma. Ninguém derrubou uma lágrima. Ninguém se aproximou do caixão. Nem pediu perdão. Nos celulares muitos concentrados. Preocupados. Com a eleição. A poesia se foi. Foi-se. Não houve missa de corpo presente. Nem discurso de presidente. Outros então contando piada. De polícia e ladrão. Mas não. Ninguém lamentou. Ninguém percebeu de fato. O fedor da defunta. Suas roupas rasgadas. E sua boca costurada. A poesia está morta. Foi sepultada como indigente. Num caixão. Sem paixão. Em cova rasa. Num cemitério clandestino distante da cidade. Ninguém pediu justiça. A beira do túmulo. E por cúmulo. O prefeito pediu a palavra. Como se soubesse o que é palavra. E disse: Que morra a poesia. Mas que sobrevivam os porcos. Todos foram para casa. E na sepultura nenhuma flor. E a chuva nem caiu. E ninguém sentiu. Pediram exumação. Abriram a campa. Não haviam restos mortais. Apenas cinzas. E o processo foi encerrado. E nunca foi noticiado.

13/08/2019

10/08/2019

Brick as a Thick

Brick as a Thic


Palavras são tijolos. Constroem e ferem. Tijolos assentados casa erguida; tijolo s atirados testas feridas. Tijolos matam. Tijolos protegem. Tijolos de barro. Barro de terra. Tijolos são vermelhos. Ou tijolos amarelos na estrada para a terra da fantasia. São belos. São tijolos. Tijolos são burros. Feito portas. Brick as a trick. Thick as a brick. Quem constrói com tijolo de vidro não pode reclamar do vizinho. Tijolos esfarelam. Pontes e pontos. Tijolos de concreto. Poemas concretos. Casas. Sepulturas. Cemitérios. Palacetes. Fecham a fresta. Então empresta. Um tijolo. Que atiro na tua testa. Sangue no tijolo. Tijolo sem dolo. Tijolo de tolo. É palavra vã. Tijolo sem pedreiro. Construção sem emoção. Tijolo é palavra. Tijolo maciço. Tijolo oco. Tijolo refratário. Tijolo burro. Catatau. Façamos tijolos. Mortos e enterrados. Em tumbas de tijolos. Namorados. Tijolaços. Tijoladas. Tijolados. 

10/08/2019

05/08/2019

O Gigante e o Ferreiro

O Gigante e o Ferreiro
Luiz Carlos Cichetto

Há um gigante dentro de mim, esmurrando as paredes do meu crânio, forçando os ossos do meu peito, querendo sair. Ele anda armado e é perigoso. Implora que eu o deixe sair e destruiu quem me feriu. Eu o repreendo, reprimo e mando que se cale, pois a vingança não pertence a gigantes, mas aos ferreiros que dão têmperas a espadas num fogo lento e depois as amolam nas pedras escuras do ódio. Sou ferreiro, e ao tempo certo a espada estará pronta para degolar todos àqueles que me jogaram numa masmorra escura desejando minha própria morte como forma de me livrar do sofrimento. Que o gigante repouse por enquanto, pois de dentro de mim ele sairá apenas para comemorar.

04/08/2019

03/08/2019

Araraquariana Nº 4

Araraquariana Nº 4
Barata Cichetto

Tem uma santa parada na esquina, pedindo carona a transeuntes de muletas e andadores. Uma santa de carne, pouca, e ossos fracos. E lábios tão finos que nem aguentam segurar um cigarro. Ela treme e gesticula do jeito tosco como se mexem as santas, e também as loucas. A esquina é seu ponto, e mal aponto, ela me chama de namorado, pedindo oitenta sem trocado, implorando que eu ame o seu pecado. A esquina é da Brasil com "Um", que tem nome de poeta. E um McDonalds bem em frente. Ela é diferente por ser indiferente, e agora ela quer cem. Aceita cartão de débito e do Bolsa Família, e me conta que é filha de mãe solteira de pernas longas, e de um pai que anda preso em Curitiba. Dentro do bar bêbados lhe sorriem e passam a mão nas pernas de outra a quem chamam de Bailarina. Da calçada ela me chama, falando que me ama, agora por cento e vinte: há um preço por uma santa, conta ela balançando os cabelos negros encaracolados. É o custo da carne seca no supermercado. Preço marcado tatuado em sua alta testa. Ah, mas ela não presta, é apenas outra santa sem nome, e santas não matam a fome: santas sabem ser putas. Ela me chama de pai, e quer se minha filha. Diz que podemos ser, nós dois, uma grande família. Desde que eu pague cento e cinquenta. Eu com sessenta, e ela com quarenta. Uma família de cem. E ela tem uma filha de vinte, então passa de cento e vinte com a menina. Nós três e a cocaína. Uma bela família burguesa, trajando bandeiras vermelhas. A filha não é santa, é menina de família. Que não faz anal. Nem mal. Nem bem. E ela cobra só cem.  Seu olhar é de faca, a carne é fraca e eu não tenho dinheiro. Ela pede o meu tudo, não como santa, mas como pastora de igreja neopentecostal, ou qualquer coisa que eu ainda possa possuir. Dou-lhe duas moedas e uma caneta, digo que escreva um poema. Mas ela é uma santa, e santas não sabem escrever. Poesia. Chega o preço a duzentos e com mais quinhentos, eu chego ao valor de mercado, por uma santa. Então pego emprestado, pago adiantado. E depois de trocado, saio ferrado, lamentando meu pecado: ela é uma santa, e santas não sabem foder.

03/08/2019

01/08/2019

Araraquariana Nº 3

Araraquariana Nº 3
Luiz Carlos Cichetto
Foto: Barata Cichetto

Fujo das tenebrosas brumas. Dunas dolorosas. Arenosas ruas trajadas de asfalto e sujeira. E na perfídia insidiosa encontro apenas frio onde um dia morou o Sol. O Paraíso e o Inferno são um só. Deus e o Diabo jogando dominó. Putas fogem de mim feito a fama. A fortuna. E os filhos de uma puta a quem chamei de meus. São seus os filhos. Meus são os trilhos. Da estrada de ferro onde encerro meu caminho. Tão enferrujados quanto eu. E as locomotivas que dormem nos dormentes. Na estação abandonada há uma guarda noturna. Tão soturna e abandonada quanto eu. E a estação. Objeto de desejo a meu alcance. Minha mão trêmula tremula feito bandeira manchada de sangue hasteada pelo meu braço mastro. Hasteio minha bandeira. Inteira. E abraço suas pernas finas e brancas. Retiro seus óculos de hastes negras e duras. E entre juras de orgasmos ejaculo. Na pele enferrujada e dormente do seu rosto. É Agosto. E eu ainda nem sei o gosto do teu ser. À gosto do seu ter. E por desgosto ainda espero com um copo de bebida quente. Que o ultimo cliente. Solte a tua mão. À contragosto. Mas não tem preço o teu apreço. Por dinheiro e emoção. Então me esqueço da tua depilada. E te aqueço pelada. Na beira da estação. Qual estação? Inverno. Inferno. Ou Paraíso. Talvez na próxima. Eu possa descer. Do trem. Nessa não tem. Ninguém. Quem sabe na outra. O trem do tempo saia dos trilhos. Talvez na Primavera. Quem sabe talvez no Verão. Eu possa lhe dar meu tesão. Ainda é tempo. Ainda há tempo. Desde que eu pague a prestação. Na beira do Museu. Que não é seu. Que nem é meu. Agora me deixe embarcar no teu trem. Pagar a passagem. Carregar tua bagagem. Te dizer bobagem. E depois tirar tua roupa. Me deitar entre os dormentes podres. Da tua cama. E te amar. Do mesmo jeito que se ama. Quando se quer esquecer.

01/08/2019

25/07/2019

Araraquariana Nº 2

Araraquariana Nº 2 
Luiz Carlos Cichetto

Cheguei à cidade. Forasteiro. Desarmado. De braços abertos. Fui recebido. A balas. Então saquei minhas almas. E caí. Ferido. Mas cai atirando. Com a mão direita. Que a esquerda é inútil. Tinha botas de cowboy. Que gastaram na estrada. Chutaram a boca. Do meu estômago. E eu senti a dor. Mas não morri. Corri. E me escondi. Num vagão enferrujado. Mas não era o bastante. Fui encontrado. E morto. E esquartejado. Ao som da "Internacional". Fui sepultado. Feito bandido. Ressurgi. Ainda ontem. Quase Agosto. Depois de um ano. Como quem ressuscita. Por desgosto. E jurei que nunca mais. Eu morreria. Por que ainda não era. O dia de estar morto.

22/07/2019

Bosta

Bosta
Barata Cichetto

Abro a janela da rua e mostro meu pinto. Sinto, mas é o que tenho a mostrar. O crente batendo palminhas ridículas no portão e eu penso que deuses não sabem tocar a campainha. Desgrenhado, mostro o dedo médio e coloco as cuecas para secar no varal. Sujas, com marcas nos fundilhos. E os crentes desistem de carregar minha alma ao céu. Cai o véu. Cai a máscara e os deuses devem estar putos comigo. Afinal, sou apenas um bosta de um poeta que não deixará heranças aos filhos e netos. Não tem dinheiro e os crentes batem em outro portão. Tem olhos mágicos e câmeras nas portas. Jeová não entra. Nem sai. Daqui ninguém sai. Nem entra. Sou apóstata. Aposto no escuro e encosto no meio fio. Não sei dirigir, nem tenho carro. Jeová nunca me deu. Nem meu pai, nem meu filho, nem o espírito santo. Espírito Santo, Bahia, Salvador. O salvador mora em Salvador? Ou em El Salvador. Che Guevara não era santo nem guerreiro. Médico motociclista e ateu. Feito eu, que nem sou judeu. Deu? Fodeu! O que é teu não é meu. Meu, apenas meu eu, aquele que te fodeu... Hahahaha... Enfie suas jóias, seu condomínio fechado, seu helicóptero argentino e suas casas no rabo. E eu me acabo. E enrabo teu cu. Sou porco? Não tenho sorte, só a morte. Por sorte. Guarde teus segredos, resguarde seus medos. Aos meus dedos. No seu cu. Adote um artista, mate um ativista e leia uma revista. Contigo. Veja. Mas seja o que for, não venha. Guarde bem sua senha. Debaixo do colchão. De espumas flutuantes. De Castro. O Alves. Navio negreiro e barco bêbado. Bêbados no barco, arco do triunfo. Rimbaud e as mercenárias. Plebe rude e bolinhas de gude. Chupe meu pau antes de cuspir. Chute seu mal antes de se vestir. Jogue as crianças no rio. Ou na privada. Despeje os fetos. Abençoe os netos. E reze para que os deuses te perdoem. Peça perdão, mas não peça desculpas. Guarde suas culpas, debaixo do edredom chinês. Xadrez. Comprado na Vinte e Cinco. Reze um pai nosso. Negue o pai nosso. Ainda posso. Renegar. Negar. E cagar. Na tua cabeça. E antes que esqueça, guarde minha herança. Como lembrança. Amarga esperança. Do porvir. Biscoito de polvilho. Barulho e sujeira. Pombos jogando xadrez. Ratos de saias. Tombos. Os muçulmanos e os manos. Da favela. Atearam fogo na tua mansão. Da rua dos mestres. Ao mestre com carinho. Aos mestres um cantinho. Caminho suave, cartilha dos bobos. Robôs humanos tomaram de assalto o trem pagador. E o pombo cagador escolheu tua cabeça para cagar. Sorte sua. Não tenho raiz, nem país. Não sou árvore nem flor. Que se cheire. Sou bosta, mas sou feliz, mais bosta é quem me diz. Sou bosta, mas sou... Luiz.

16/07/2016

24/07/2019

Syd Barrett Não Mora Mais Aqui

Syd Barrett Não Mora Mais Aqui
Barata Cichetto

Eu não quero enlouquecer, comendo restos de merda e comida estragada em latas de lixo presas a postes. E não quero apodrecer em consultórios médicos, em clinicas de recuperação de bebida, ou em camas de hospital. A morte não consta em meu testamento, quero chupar as belas tetas de belas garotas loiras que amamentam a filha do outro.
Eu não quero adoecer minha alma, enlouquecer minha mente, apodrecer minha carne. Não quero estar sozinho, mas não quero companhia. Estar só é ruim, mas não aguento sua hipocrisia. Deixe estar, fique longe, esteja perto. Segure meu pau, cure minha ressaca e beba comigo sentada na calçada enquanto eu enfio o dedo por dentro de sua calcinha.
Por onde andam meus amigos, onde bebem minhas amantes, onde morre minha solidão? Putas não gozam mas chupam. Ontem eu era um amante, agora, não tenho amigos. Deixem eu deitar antes de morrer. Mas antes mesmo do gozo da morte, quero gozar entre suas coxas magras e lamber sua bundinha estreita.
Enlouquece minha mente, apodrece a semente. Somente a dor permanece, amada e amante com garras de leão, olhos de serpente enquanto eu procuro restos de amores jogados nas lixeiras das ruas. Rasga minha carne com unhas afiadas e pintadas com a cor do meu sangue. Beija minha língua, seu pai não percebe.
Deixe eu acender meu cigarro, soltar um escarro e peidar. Não há censura, não há doença, não há porque. Nem liberdade, nem poder. Beber e foder. O limite são os ponteiros do relógio, um verdadeiro Elefante Efervescente. Cortinas de ferro, baratas mortas no quintal, monstros quentes e um dia de glória a um poeta que teima em não viver.
Mas eu não encontro o que procuro, tenho bolsos furados e sonhos dourados. Pague minha bebida e a conta do motel, depois desapareça em direção contrária á minha fuga. Desapareça nas brumas, nas noites escuras enquanto eu procuro restos de comida e sobras de orgasmos nas latrinas dos banheiros públicos. Púbicos pêlos presos aos dentes, dentadura postiça e a trilha sonora do apocalipse.

27/12/2009

O Mundo é Uma Buceta

O Mundo é Uma Buceta
Barata Cichetto

Queria comer o mundo feito uma buceta deliciosa. Devorar suas entranhas, coisas estranhas, gordas de banhas e magrelas safadas. Magrelas, canelas finas, eróticas e desejadas amadas de brancos corpos cor de marfim. O sol se envergonha de sua pele, querida. 
Queria comer o cu do mundo, chupar as tetas da nação e morder os mamilos de Eva. Sou safado, velho e sem-vergonha! Minha vergonha é não ser o que sonharam de mim. 
Queria foder, chupar e gozar, mas estou agora, neste instante, á sós comigo enquanto o mundo se come e se devora. Devoro a buceta do mundo, como o cu do coveiro que quer enterrar minha alma no jardim.
Queria o gozo das putas, das esposas e das matronas ensandecidas, paridas de mel, ao fel e ao bordel. Bordel não é lugar de freiras, queridos padres. Peguem o terço ali no balcão ao lado da garrafa, incinerem seus livros sagrados e fodam-se.
Queria, queria, queria, mas não tenho. Estou indo dormir, sozinho e buscando em minha masturbação o deleite, doces deleites, doces e leites das putas ensandecidas, loucas meninas de peitos que cabem na palma da minha mão. Daimones e daianes. Enrosquem os pelos de suas  bucetas nos pelos da minha barba.
Queria guardar segredos dos meus medos, mas cedo ou tarde conto comigo mesmo e a esmo conto as farpas espetadas em minha mão. Sempre, sempre conto farpas, espetadas na palma da minha mão, feito espinhos de um cristo pagão, alucinado por uma madalena que não lhe oferece o sudário. Sou louco, estupefato e paralisado de um medo que não chega. Chega de medo. Acordo cedo e fico o dia com sono. Acorda, amigo, sou seu castigo.

23/12/2009

Números Absolutos

Números Absolutos
Barata Cichetto
Andrew_Loomis_-_Woman

Porque eu consigo transformar cada perda e cada desengano em outra poesia. São tantas poesias que nem as perdas e os desenganos conseguem dar conta. São mais poesias que perdas e desenganos?
Ah, garota, eu queria tanto lhe comer! Ontem a noite eu tinha planos, mas fiquei mesmo masturbando números e tirando poesias da escuridão e da solidão.
Calculo com uma régua sem números, somo em uma calculadora desmantelada e diminuo da aritmética onde o nada é absoluto e o tudo é absurdo. Quanto a dividir, sempre fico com a parte menor que cabe dentro da palma da minha mão.
Matemática pura, sempre o resultado das minhas contas é negativo. Porque devo ou porque devem a mim, depende de quem calcula. Mas sempre transformo números em letras e letras em palavras que formam um verso. Devo ao mundo, devo ao universo. 
Porque eu consigo transformar, matemático enérgico, mágico e trágico, cada numeral negativo em um cardinal sem cifras, sem dizimas. Numero absoluto de perdas, transformadas todas elas.... Em poesia...

22/12/2009

22/07/2019

Araraquariana Nº. 1

Araraquariana Nº. 1
Luiz Carlos Cichetto
Foto: Barata Cichetto

Querem acabar com o trem na cidade. E agora? Como eu faço? Para cometer suicídio? Sem um trem para pular na frente? O prefeito disse que ninguém quer o trem dentro da cidade. É mentira seu prefeito. Imperfeito idiota. Agiota perfeito. Que eu ao menos quero o trem. Dentro da cidade. Fora da cidade. Ou com a cidade inteira no bucho. Feito serpente cobra coral. De aço... Querem arrancar os trilhos. Do trem da cidade. E agora? Como eu faço? Sem ter por onde caminhar? O prefeito suspeito. Mandou embora a locomotiva. A Maria foi. Nunca mais voltou. A andar na linha. Nos trilhos. Que agora querem arrancar... Querem acabar com o trem. E ainda tem. Gente que também quer. É o sujeito. Que mora ali perto. Que reclama que não pode dormir. E eu nem reclamo. Que moro perto. E sem o trem. Não posso morrer... Querem acabar com o trem. Do mesmo jeito que a mim. E seu aço. Ainda resiste ao tempo. Ao temporal. E ao prefeito. Imoral. Mas eu não resisto. Sou de carne...  Querem arrancar os trilhos. Da cidade. Que a eletricidade. Precisar passar. Arrancar os filhos. Por necessidade. Por vaidade. Por maldade. E por vontade. De um. Que é nenhum... É preciso não navegar. É preciso não viver. É preciso não correr. Na frente do trem... Querem destruir a estrada de ferro. E se não erro. É por decreto. Secreto. Do executivo. Que tem poder. É por dinheiro. Sem direito. A escolher... Querem mudar a história. Da cidade. Colocar outra em seu lugar. Arrancar o apito. Arrancar o grito. Mas eu repito. Não arranquem. Que eu resisto. Feito a estação... Dementes querem retirar dormentes. E vender à prestação. E a condição. É o pleito. Do eleito. Um sujeito sem trilhos. Sem filhos. E sem coração. Apenas vagão... Então o jeito. É arrancar o prefeito. E deixar os trilhos. Deixar eu jogar. Na frente do trem. A carne que restou. De mim. Enferrujada. Feito o trem. Que não tem. Onde morar. Que não tem estação. Onde parar.

21/07/2019

26/06/2019

Reflexões Sobre Meu Sexagésimo Primeiro Aniversário

Reflexões Sobre Meu Sexagésimo Primeiro Aniversário
Imagem Por: Reimund Bertrams por Pixabay

Estamos num mundo às tortas onde todas as portas parecem se fechar. Um mundo de mortas que não sabem trepar. De escritores que não sabem ler. De leitores que não sabem escrever. Onde todos são poetas e ninguém é poesia. Onde todos são livros e ninguém é literatura. Um mundo onde todos tem opinião e ninguém sabe o que o não. Pensadores que dispensam apresentação. Formados nas faculdades das igualdades. Com sinceridade sem educação. Com respeito à decepção. Estamos num mundo sem fronteiras. Com limites cercados. Um poeta em cada portão de casas sem leitores. Um escritor em cada centímetro quadrado num mundo redondamente analfabeto. Um mundo de fetos abortados. De dejetos entortados. Trajetos cortados. Insetos. Resta a certeza. Da morte. Sobra o resto. Eu não presto. E por sorte não empresto. O que sou. Dia a dia me abandono. E nem o sono. Consola. Não há orgulho em ser o que sou. Mergulho profundo no que fui. Sou escritor. Sou poeta. Sou leitor. Ator. Peça sem fim. Peça o meu fim. Atendo.

26/06/2019

22/06/2019

Manual da Desexistência

Manual da Desexistência
Luiz Carlos Cichetto
Imagem: ntnvnc por Pixabay

Há uma poesia que não pode ser escrita. E não pode ser dita. E que de tão maldita ninguém acredita. Que seja poesia. Acham ser afasia. Concordam que é heresia. E imaginam ser hipocrisia. Há uma poesia que não posso escrever. E ninguém pode ver. E nem descrever. Uma poesia que nada tem a ver com haver. Com o que o houve. E que não se ouve. Uma poesia e um pé de couve. Há uma poesia que não pode ser pensada. Nem assada. Nem frita. Há uma poesia podre. No meio das outras frutas. Cheirando mal. Contaminada. Azeda. Há uma poesia na feira. Na cesta e na sexta. Poesia que não tem preço. Nem tem apreço. Há uma poesia que não pode existir. Nem resistir. Há uma poesia que não pode ser Poesia. Nem Prosa. Nem mote. Nem glosa. Há uma poesia no balcão. Na fila do pão. No supermercado da ilusão. Há uma poesia na fila do não. Com senha na mão. E um tiro no coração. Há uma poesia que não tem graça. Nem causa desgraça. Sentada na praça. Da Consolação. Há uma poesia dormindo. Embaixo da ponte. Sem colchão. Nem cobertor. Há uma poesia vazia no prato. E que não faz trato. Nem tem retrato. Falado. No jornal. Há uma poesia que não tem perfil. De poesia. No Facebook. E não tem Instagram. Nem Whatsapp. Há uma poesia que não pode ser falada. E que não pode ser calada. Há uma poesia caída na calçada. Pisada. Há uma poesia escarrada. Na sarjeta. Há uma poesia cuspida. No asfalto. Há uma poesia esculpida. Em barro. Em terra. E em carne e osso. Há uma poesia que não pode ser escutada. Nem estudada. Há uma poesia expandida. E que de tão bandida. Foi banida. Varrida. Debaixo do tapete. Do quarto de despejo. Sem beijo. Sem desejo. Há uma poesia sem pagamento. Sem aumento. Sem permissão. Há uma poesia estendida. No meio fio. Com a vida por um fio. Há uma poesia doente. Sem hospital. Há uma poesia louca. No hospício. Há uma poesia suicida. No alto do prédio. Sem remédio. Nem droga. Há uma poesia armada. No meio da multidão. Há uma poesia amada. No seio da escuridão. Há uma poesia morrendo. De fome. Há uma poesia assassinada. Assinada. Com sangue. Há uma poesia morta. De desgosto. Ou solidão. Houve uma poesia. Então ouve uma poesia. Que não pôde ser escrita.

08/06/2019