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16/07/2012

Viver É Apenas Contar Histórias...


Viver É Apenas Contar Histórias...
A Jon Lord e Meu Amigo ARL, que hoje deixaram de contar e fazer parte de algumas histórias
Luiz Carlos Barata Cichetto
Ilustração: Jacek Yerka

Quando morre uma pessoa com quem partilhamos um pedaço de nossa história nos sentimentos tristes. Tristes, porque com ela desaparece um pouco de nós mesmos. E não ficamos tristes apenas por saudades, por falta da presença, por gostar ou deixar de gostar. Nem é porque amamos ou até mesmo odiamos, mas porque com ela morre sempre um pouco de nós, justamente aqueles pedaços, bons ou ruins que compartilhamos com o morto. Aqueles pedaços se foram para sempre e então sentimos a nossa própria morte ali... E nos sentimos fracos porque aquele ser defunto carregou com ele um pedaço, maior ou menor de nós. Sabemos que no fundo somos todos apenas mortos demorando um pouco mais ou um pouco menos. Somos apenas história, e a de cada um é formada por pedaços das histórias dos outros. Um pedaço de cada um que interagiu conosco, forma a nossa história, e cada pedaço nosso, a história de todos aqueles com quem a partilhamos. Então, quando morre alguém com que interagimos por anos, apenas por dia, apenas por uma hora, ou mesmo apenas por intermédio de um olhar, morre um pouco de nós. Mesmo quando morre alguém que sequer soube de nossa existência, um artista, por exemplo, que fez parte da nossa história contando a dele, nos entristecemos profundamente. E não há nada errado nisso, pois ao morrer um cantor, por exemplo, cujas musicas embalaram certos trechos de nossa história, sentimos que aquele pedaço se foi com ele... E ele fez, mesmo sem saber, parte da nossa. Até que não sobre nenhum pedaço de nossa história, a não ser... Histórias. Façamos então com que com cada pessoa com quem partilhamos um pequeno pedaço de nossa história, que seja ela apenas por uma palavra, apenas por um olhar, apenas por um gesto, o melhor pedaço da nossa história e do outro. Apenas assim estaremos perpetuados... Na história. Assim seremos eternos.... Porque enquanto nossa histórias perdurar estaremos vivos. Cabe-nos, portanto escreve-la da melhor forma possível e contribuir para que todas as outras histórias que ajudamos a construir, também se tornem... Eternas. Porque viver... É apenas contar histórias...

14/07/2012

Meu Primeiro Poema Infantil


Meu Primeiro Poema Infantil
(Especialmente a Petrus e Isis)
Luiz Carlos Barata Cichetto
Do Livro "Cohena Vive!" - 2012 - Editor'A Barata Artesanal



Minha querida criança de olhar esperto
Chegue agora de minhas letras bem perto
Pediram um poema feito ao seu coração
Sem palavras pesadas, letras de adoração.

Um poema sem cores escuras e berrantes
Algo sem as bestas ou criaturas errantes.
Falaram que tinha que ser algo com pureza
E sabe os adultos quando falam com dureza.

Disseram que era preciso ser cheio de brandura
Num poema bonito, sem nenhuma amargura
Pois, contaram, as crianças tem ingenuidade
E portanto não poderia lhe falar de maldade.

Tinha que falar apenas sobre belos sentimentos
Porque existe o tempo em que terás sofrimentos
Ameaçaram também, que não podia falar de morte
Porque crianças, elas tem que crer na própria sorte.

Que tinha que ser bondoso e falar sobre a bondade
Ser mentiroso e falar sobre a mentira da igualdade
Deram tanta ordem sobre como tinha que ser o poema
Que pensei que jamais poderia resolver este problema.

Ainda ordenaram, eu tinha que falar sobre um ser
Aquele que lhes contam ser o dono do seu nascer
E então falaram e falaram sobre as crianças
Que eu não podia lhes retirar as esperanças.

E falaram tanto, que agora eu sentia que era um tolo
Que sem mentir não ganharia um pedaço desse bolo
Então me sentei, de castigo em um canto da sala
Chorei e pensei, sou apenas uma criança sem bala.

Então, criança, confesso que sou mesmo um perdido
Porque jamais lhe faria um poema sem teres pedido
E não poderia escrever meu primeiro poema infantil
Sabendo que feito aos adultos lhe trataria com ardil.

11/03/2012 - 5 da Manhã...

13/07/2012

Syd Barrett e o Elefante Efervescente



Syd Barrett e o Elefante Efervescente
Luiz Carlos Barata Cichetto
Arte: Quadro Pintado Por Syd Barrett

Syd Barrett criou a essência do Pink Floyd, mas depois não coube mais dentro de sua própria criação. Aquilo era pequeno demais para caber sua genialidade. Syd Barrett era maior que o Pink Floyd. Sempre foi e sempre será. Segundo conta a história, ou melhor contam os remanescentes da banda, Syd foi colocado de escanteio por causa de sua "deterioração mental". Afinal, aprisionar aquela gostosa da Karine (a peladona que aparece na capa de Madcap Laughs era a namorada dele na época) num apartamento e lhe passar bolachas por baixo da porta era coisa de doido mesmo.  Aparecer no palco com a cabeça cheia com uma pasta de comprimidos é coisa de maluco mesmo. Ficar tocando uma nota apenas na guitarra, então, isso é coisa de doente mental.

Mas Roger Keith Barrett não era maluco, maluco eram eles. E sabiam disso. Tanto sabiam que continuaram a usar as idéias digamos pouco ortodoxas de Syd em um monte de discos que seguiram a saída dele. "The Dark Side Of The Moon", segundo Waters e Gilmour era uma homenagem á ele, pois "apenas os lunáticos podem enxergar o lado escuro da lua". Lunático? Syd era lunático? Claro que não. Chamar Syd Barrett de lunático é o mesmo que chamar Freud, Schopenhauer, Da Vinci, Einstein também de lunáticos.

Um sujeito que pegou o Rock e disse: "Ok, vamos à lavanderia!". Que pegou as experiências sonoras de John Cage (outro lunático?), colocou uma pitada de musica erudita, um quilo de Rock'n'Roll, bateu num liquidificador mental e transformou essa pasta num belo e florido Elefante Efervescente. Um elefante que esmagou os conceitos sobre música para sempre. Não era um maluco, nem doido, nem doente mental. Era um gênio. E aA história da musica deverá ser escrita no futuro da seguinte forma: AB/DB, ou seja, Antes de Barrett e Depois de Barrett. 

Basta que escutem com atenção composições como "Astronomy Domine", "Interstellar Overdrive" e principalmente "See Emily Play" e mais ainda "Arnold Layne". Esta uma das composições musicais, incluindo letra, mais "malucas" da história da música. As idéias de Barrett até sua "demissão" do Pink Floyd estavam por toda parte. E não apenas na música, nos arranjos e nos mínimos detalhes musicais, com também na plástica, nos conceitos e em cada uma das letras compostas diretamente por ele, ou influencias por sua “loucura”. 

E seus ex-companheiros sabiam e ainda sabem disso. Tanto que toda obra que o  Pink Floyd compôs desde sua saida é simplesmente a continuação das suas idéias, como se aquele prisma que Syd tinha dentro da cabeça tivesse sido lapidado e passasse a refletir outras tonalidades. Barrett era a luz que incidia sobre o prisma ou era o prisma que refletia a luz que partia de algum ponto do universo e criava o espectro? Karine conhecia Syd que não conhecia ninguém, não reconhecia seus amigos de banda... Bobagem. Roger comia Karine que estava sempre nua em sua dieta de bolachas.  Syd comia as bolachas também?  Syd usava drogas ou eram as drogas que faziam experimentos em sua mente, tentando entender até que ponto podiam chegar dentro da mente humana? Escolheram um gênio para suas experiências.

"Há um lunático em minha mente", pensou Roger Waters, dentro de sua paranóia de Segunda Guerra Mundial. "Há alguém em minha cabeça, mas não sou eu". Era Barrett dentro da cabeça de Waters e ele não podia suportar aquilo muito tempo. "E se a banda em que você está começar a tocar melodias diferentes" ainda pensou. "Eu te verei no lado escuro da lua"., ainda disse Waters antes de chutar Barrett do ventre de sua criação.

Waters em sua megalomania não podia suportar Syd, um louco diamante. E nem Karine suportou comer bolachas passadas por debaixo da porta, colocou a roupa e desapareceu. "Corra, coelho corra, Cave um buraco, esqueça o sol / E quando afinal o trabalho estiver feito / Não se sente, é hora de cavar mais um". E Barrett respirou fundo, cavou um buraco bem fundo dentro de sua própria mente, e feito um coelho assustado ficou quieto, calado, deixando que pensassem que era a loucura o que o afastara do mundo.

Era preciso ajustar os controles para o coração do Sol, rompendo a escuridão. E Syd foi cuidar das flores do jardim da sua mãe. Era preciso entender as flores ao Sol. Era preciso entender o Sol. Porque apenas quem entende o Sol, consegue fugir das sombras, da escuridão. O elefante efervescente o acompanhou, enquanto Arnold Layne pendurava suas roupas na janela. E o Octopus da morte disse: "Veja, veja Emily brincar". E Emily respondeu: "Não há outro dia!" .Então, o Elefante Efervescente “com olhos pequenos e uma tromba enorme sussurrou para a orelha de um inferior que para o próximo mês de Julho ele morreria.” 

18/04/2012

O Amigo Naturista e o Criador do Pink Floyd


O Amigo Naturista e o Criador do Pink Floyd
(Acerca de Um Texto de Jorge Bandeira)
Luiz Carlos Barata Cichetto


Há cerca de um ano pretendia escrever um texto sobre Syd Barrett para a Revist'A Barata. Considero Roger "Syd" Barrett um dos maiores gênios não apenas do Rock, mas de toda a música contemporânea, e sai pelas páginas virtuais em busca de mais informações e imagens. Queria escrever algo um tanto diferente, não apenas uma outra biografia, afinal ninguém merece ler outra biografia de Pink Floyd ou de seus membros. Depois de muitas páginas lidas e abandonadas por não oferecerem nenhuma informação diferente, nada que eu ainda não soubesse, entrei num blog por intermédio de uma busca no Google e o título do texto logo de cara me chamou a atenção: "Namorada Naturista de Syd Barrett, o Criador do Pink Floyd". Decerto estaria ali um enfoque diferente. E estava mesmo! Comecei a ler o texto, ilustrado fartamente com as fotos do ensaio feito por Syd para o álbum "The Madcap Laughs", com uma linda mulher nua, sempre de costas, exibindo um corpo maravilhoso. O contraste do olhar perdido e por horas penetrante de Syd com aquela bela mulher suscitava inúmeras alucinações, viagens, interpretações. E foi assim que Jorge Bandeira, o autor do texto de forma genial tratou: uma viagem transcendental para dentro da mente de Syd Barrett, com os olhos fixos no Naturismo de Karinne. Escrito na primeira pessoa, Jorge mistura ficção com realidade, viagem com sonho e nos desenha com tintas psicodélicas um quadro completamente natural traçando por horas um paralelo entre o Naturismo e a mente “nua” de Syd Barrett. 

Acabei por desistir de meu intento, pois jamais poderia ser tão preciso e louco a ponto de produzir um texto tão cheio de imagens e interpretações quanto aquele. Desisti, ao menos naquele momento, e a acabei publicando apenas uma frase com algumas fotos... A partir daí retornei inúmeras vezes ao blog e reli o texto do Jorge, cada vez mais apaixonado por Karinne e pelas imagens criadas feito instantâneos por ele. Deixei uma mensagem no blog, nunca  respondida, e achei que o autor houvesse abandonado, que tivesse pirado, desistido.. Sei lá, tanta gente começa coisas na Internet e desaparece... Mas aquilo ficou martelando na minha cabeça. Aquela visão era muito forte. Aquele quadro pintado por Jorge Bandeira tinha cores intensas demais. Um dia, poucos meses depois, o reflexo de uma antena parabólica numa parede, num ponto de ônibus deserto me alçou novamente à condição de poeta e comecei a escrever um poema enorme: "A Sombra de Objetos Inexistentes": "Apenas lunáticos enxergam o lado escuro da Lua, mas quem percebe a sombra de objetos inexistentes?...". Uma resposta, ou contraponto ao que os remanescentes do Pink Floyd tentaram mostrar com "The Dark Side Of The Moon", pretensa homenagem a Syd Barrett. "Um domingo de sol desses, eu levo minha sombra para visitar um parque qualquer, carregando em meu embornal um par de sanduíches de carne de elefante efervescente." Minhas claras referências estavam pululando, pulando, pulverizando minha mente. "Pink Floyd rolando em um velho disco negro de vinil enquanto Syd Barrett ignora o corpo nu de Karinne e eu desejo ao seu."... Este trecho, particularmente brotou inspirado na jornada naturista de Bandeira. E no final do poema: "Syd Barrett é um São Jorge moderno domando com sua lança psicodélica, um elefante efervescente de olhos de cristal.". Depois de pronto o poema, gravei uma narração e fiz um vídeo onde misturo cenas de antigos vídeos pornôs, minha narração e a musica do Pink Floyd da era Barrett. O poema foi lançado em meu ultimo livro de poemas "Cohena Vive!" 

Algum tempo depois, Syd e o Elefante Efervescente apareciam em meus sonhos e finalmente meu texto sobre ele saiu: "E nem Karine suportou comer bolachas passadas por debaixo da porta, colocou a roupa e desapareceu. (...). E Barrett respirou fundo, cavou um buraco bem fundo dentro de sua própria mente, e feito um coelho assustado ficou quieto, calado, deixando que pensassem que era a loucura o que o afastara do mundo." Sentia que tinha pago meu tributo a Syd. Eu o desnudara. E também estava nu.

A alemã Nico era uma paixão desde a época, nos anos 70 que me descobri a trupe de Lou Reed e John Cale. E decidi escrever alguns textos sobre eles. O primeiro, dedicado á ela, foi publicado no Whiplash e entre as pessoas que comentaram, uma pessoa de nome Genecy Souza, de Manaus. Acabamos por criar uma amizade e ele acabou sendo a primeira pessoa a comprar minha autobiografia. Adicionado ao Facebook hora ou outra trocávamos algumas palavras. Mas há uns dias, decidi ler o texto do Bandeira novamente e ao reler, percebi que o mesmo tinha sido dedicado "a um floydiano de nome Genecy". Não poderia ser coincidência, pois o “blog” era de alguém de Manaus, tal e qual meu amigo de nome incomum. Perguntei-lhe sobre o texto, ele confirmou e também falou sobre a amizade de mais de 25 com o autor, e do orgulho de ter tão maravilhoso texto dedicado à sua pessoa. E então, hoje ao acordar recebo um pedido de amizade virtual de Jorge Bandeira. Horas depois conversávamos via Internet sobre esse texto e principalmente sobre o assunto que mais interessa a ele, "uma pessoa que acredita que o Naturismo é a solução para muitos problemas da humanidade." 

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A Namorada Naturista de Syd Barrett, o Criador do Pink Floyd
(A Um Floydiano de Nome Genecy.)

Jorge Bandeira (*)
(Reprodução autorizada pelo Autor)

Eu estava tentando superar aqueles pesadelos que me perseguiam após a saída da banda, o que nem mesmo eu desconfiava. Não esperava ter ido ao fundo do poço sem som algum, sem letras, sem acordes, sem viagens ao meu interior. Os caras não tinham o que inventar, uma estranha sintonia desconectada, talvez pelo uso de certas substâncias que muito me alegraram e que até hoje consomem meus sonhos mais apreciados. A insistência de Roger e David, agora, seria para que eu entrasse naquele estúdio e registrasse algo para a minha alma. Eles sabiam que o elefante efervescente poderia ser domado para este circo da indústria de discos. Neste período conheci Karinne. Ela era nudista, mas me corrigia sempre quando a chamava assim, dizia que o certo era naturista, e que a nudez no caso dela era um complemento perfeito para sua arte, no final de 1967 essencialmente colocada nos palcos e na feitura de livros artesanais de poemas. Karinne adorava ficar nua, e em princípio achei aquilo meio que um exibicionismo gratuito, sem um foco específico. Roger e David, quando entravam em meu apartamento e a encontravam nua ficavam cabisbaixos, mas não demorou muito para que se acostumassem com a nudez de Karinne. Eu ficava nu, mas só quando estávamos sós, e chegamos a fazer um ensaio fotográfico juntos, este que vocês estão vendo ilustrando este relato. Ficamos pouco tempo juntos, talvez em virtude de minhas iluminações, que cegavam a todos, ou dos momentos de reclusão interior, quando ficava incomunicável por longo tempo. Nos separamos depois que a prendi neste recinto e passei a alimentá-la com biscoitos, e ficou Karinne nua com seus biscoitos apetitosos. Ela reclamou e foi embora, para não voltar mais. A nudez e a arte dela deixaram resquícios, porém. Muito tempo depois cheguei a ver vários ensaios do Pink Floyd utilizando-se da nudez de forma artística e dinâmica. Um bonito trabalho é aquele das mulheres nuas com as costas pintadas na beira de uma piscina, tendo como motivos algumas capas do Pink Floyd. O próprio Roger usou uma capa com uma mulher nua pedindo carona,usando somente uma mochila nas costas. Karinne é a co-responsável por estas obras, tenho a certeza, mesmo que o ego inflado e Roger e David não admitam, Karinne está lá! O louco Syd não esqueceu mesmo daquela naturista, as fotos um tanto desbotadas daquela sessão memorável não me deixam mentir, Karinne era muito talentosa, além de possuir uma sensibilidade para esta coisa de movimento do corpo. No piso de taco e tecido aveludado daquele recinto esta menina-mulher nua perpetuou sua arte. Digo isso, pois Roger e David tanto insistiram que acabei por lançar (eles fizeram a parte burocrática com a gravadora!) dois álbuns, “Barrett” e “Madcap Laught”. A capa do primeiro tinha a pintura de uns insetos que matei com a bravura de um Dom Quixote e no Louco que ri, o segundo, as fotos de Karinne nua foram incluídas no encarte (a da capa só aparecia eu e um jarro). Karinne nua, sentada num banco alto, um tamborete, no canto do aposento, como se estivesse agüentando a parede para que não caísse sobre nós e nos esmagasse, e eu de mendigo louco, descabelado, um hippie mesmo, um ser feito de psicodelia tentando, com minha bicicleta, deixar uma limonada de bebê para minha querida tia gigôlo. Coisa da vida, e da morte. 

Eu falava de Karinne, aquela nudista que passeava pela casa e que não lavava roupas. As dela não precisava, pois ficava nua o dia todo, e as minhas porque ficavam podres mesmo, não fazia questão de que as lavasse. Pedia a Karinne que esquecesse o fogão, a escova e o sabão em pó. Que cuidasse só da arte, pois a vida é passageira, e a arte é um infinito profundo, interplanetário, descomunal. Existia entre nós uma comunhão de propósitos, Karinne nua com seus poemas e coreografias, Barrett com uma música verdadeira, nua. Ao ver a natural nudez de Karinne imaginava em meus sonhos artificiais aqueles índios das florestas selvagens, inóspitas, prendendo Tarzã por usar aquela tanga ridícula. Índios nus que usavam aqueles alteradores de consciência, de percepção, que usei e abusei, tornando-me um diamante louco, como querem David e Roger. Minha lapidação, porém, foi feita por algo que os índios nus não conheciam, não foi o peiote, não foi a mescalina, não foi o yage, não foram os cogumelos, não foi erva alguma, foi um composto criado em laboratório por um certo Hoffmann. Louco, Sem Diamante. Foi como fiquei, (L)ouco, (S)em (D)iamante, e o que seria pior, sem aquela agradável nudez naturista de Karinne, minha companheira de quarto naqueles dias e noites londrinos de eternas viagens ao redor de mim mesmo. Agora penso no jarro, escuro, com aquelas flores claras, de um amarelo pálido, e Karinne indo na outra direção de minha vida. Meu olhar interroga um possível interlocutor, como se perguntasse a ele se nunca viu aquilo, uma mulher nua e um jarro num meio de uma sala vazia. Nua, Karinne desponta da penumbra no recinto fechado, neste quadrado em que me encontro, onde ratos imperam, onde o único livro é um grosso exemplar do Ulisses, de James Joyce. David e Roger hoje estão muito ricos, Mason não sei por onde anda ou o que faz, e o Richard daqui há pouco deve me acompanhar, quando eu conseguir sair deste local, deste quarto interminável. Coisas da vida, e da morte. Karinne nua percorre minha mente, ela anda desenvolta, com muita calma e elegância. Os gnomos do quarto acabaram por quebrar o jarro com suas brincadeiras insanas, tempos depois. As flores do jarro não resistiram por muito tempo e também murcharam, como secaram os meus neurônios. Só restou em minha mente a nudez representativa da paz interior de Karinne, e fico até hoje divagando se tudo ocorresse diferente, como outro. Outrora. Talvez se eu ficasse com Karinne, como um casal, por exemplo, John e Yoko, não teria feito um disco com a capa de nós dois nus, dois nus e um jarro de flores desbotadas. Quem o saberá? 

O meu vertiginoso pensamento percorre os espaços vazios e amplos daquele recinto, e sinto mais uma vez que Karinne passeia nua aqui, eu não estou só. A nudez dela cheira a alfazema do campo, um perfume agradável, um odor de pele como não se tem ao usar uma roupa, qualquer que seja a vestimenta. Karinne, do alto de seu espírito completa e totalmente naturista dizia que quem veste uma vestimenta veste a mentira, quem usa vestimenta, a veste e mente. Um trocadilho que me deixa encucado até hoje. A música poderia ser nua? Como alcançar um som que nos faça feliz, sem usar nada além do som e de nosso corpo despido? Eu não consegui esta façanha, e Karinne por causa deste vácuo na minha produção, não retornou ao quarto dos biscoitos e do jarro escuro. Roger poderia me dar a resposta, mas ele está muito ocupado contando seu dinheiro e fazendo ópera na selva, na companhia daqueles indios nus, ou que ficavam nus. David está fora de cogitação, está com uma tremenda barriga proeminente e quase careca, e fisicamente ficou um tanto quanto parecido comigo, perdeu sua força junto com suas medeichas que caíram pelo caminho tortuoso do tempo e das intrigas e pelejas pelo potencial de uma marca, de um nome de banda. Trivialidades. Sem a nudez de Karinne confesso que fiquei meio perdido, foi como se faltasse uma peça fundamental da roupa de minha mente, e eu chorei esta ausência, a nua mulher menina que eu vi e senti, a menina mulher nua que me fez acostumar com a naturalidade de um corpo nu, desta Eva desgarrada do Éden, que fugiu de Deus e da serpente, e que deve estar em busca de um raro Adão dos séculos vindouros. Sei que entre olhar dois olhos que não se enxergam por entre uma cabeleira despenteada e uma mulher nua, seu olhar dará preferência àquelas protuberâncias que fazem a festa dos olhos gulosos de muitos e de muitas... Saiba porém que a dona destes atributos, naqueles anos de psicodelia chamava-se Karinne, e que tinha em sua nudez uma força além da limitação destes olhares curiosos e famintos pelo nada. Seu corpo nu almejava somente a nudez, natural, e nada mais.

(*) Jorge Bandeira é escritor, autor do livro de poemas Bela Cruedade, Diretor de Teatro e Cantor da banda "Alma Nômade".

Texto  Original: 


Links Relacionados:
- Video de "À Sombra de Objetos Inexistentes" - http://www.abarata.com.br/videos_detalhe.asp?codigo=1513
- Syd Barrett e o Elefante Efeverscente:  http://whiplash.net/materias/biografias/153733-sydbarrett.html



09/07/2012

Barata: Sexo, Poesia & Rock'n'Roll: O Dia Seguinte



Apesar do frio intenso e da típica garoa paulistana de um domingo de inverno, no domingo, dia 8 de Julho de 2012, muita gente compareceu ao lançamento do livro "Barata: Sexo, Poesia & Rock'n'Roll", no CIAM, no bairro do Tatuapé. Pessoas para quem nem mesmo uma baixa temperatura afasta o desejo de compartilhar sonhos e histórias. Porque somos sim, história, como escreveu Ignácio de Loyola Gomes Bueno. E nesse dia mais um capítulo não apenas da minha, mas de todas as pessoas que compareceram foi escrito. Falar sobre os livros, sobre como foram escritos, feitos e editados não tem dinheiro que pague, nem frio que afaste. Escutei frases de pessoas alí que me deixaram encantado, vivo e até de certa forma, orgulhoso. Mas não um orgulho vaidoso, um orgulho em saber que o sucesso não é medido pelo retorno financeiro ou a glória etérea. Mas o orgulho de ter feito e escrito coisas que dão certezas ou dúvidas, não importa, sobre o que elas pensam e sentem.

Escutar a voz de Ciro Carvalho e Renato Pop interpretando musicas construídas a partir de minhas poesias, receber a presença da banda Baratas Organolóides que fez questão de aparecer e tocar; apreciar a arte genial desse garoto chamado Gabriel Fox, são coisas que fizeram com que eu me sentisse uma criança brindada com o melhor dos presentes. E ainda mais pela presença firme de meus pais, que apesar de todas as dificuldades de locomoção compareceram.

Poderia ter feito um evento num lugar afamado, ter convidado uma série de famosos e ter vendido milhares de livros e decerto não teria a sensação de sucesso que tive. Acima de tudo pelo sentimento de amizade e parceria oferecidos pelo Dimas Farias, guardião do CIAM. Compartilhamento é isso, não apenas um clique num ícone numa rede social. As revoluções são feitas assim: com pessoas e idéias. Apenas assim são válidas e permanentes.

Obrigado a todos.

Luiz Carlos "Barata" Cichetto
09/07/2012