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07/09/2012

Divagações de Um Burro Sobre a Independência do Brasil

Divagações de Um Burro Sobre a Independência do Brasil
Luiz Carlos Barata Cichetto
O titulo desta imagem deveria ser: "Vergonha Brasileira" ou "Vergonha de Ser Brasileiro"


Sim, sou um Burro. Também conhecido por "Asno" embora meu nome  original seja um tanto pomposo: “Equus Africanus Asinus”. Também chamado de "Jumento", "Jegue", "Jerico” e outros nomes que o Bicho-Homem sempre associa com a falta de inteligência e de capacidade mental.

Sou um mamífero que caminha sobre quatro patas, tenho focinho e orelhas compridas e sou utilizado desde tempos pré-históricos como animal de carga e montaria. Minha mãe é a “Mula” e meu pai o “Cavalo”, coisa que tem gerado por todas as minhas gerações, um crítico problema de identidade.

Mas sou um Burro e tenho servido ao Bicho-Homem, carregando suas tralhas e seu peso por caminhos e trilhas que a linhagem de meu pai não seria capaz. Sou forte, sou rijo e sou, conforme algumas definições, teimoso. E sou teimoso porque não me detenho por nenhum obstáculo, determinado a cumprir minha missão.

O Bicho-Homem, em determinados países, chama seus dicionários como "Pai dos Burros", porque sem mim estariam iletrados, mas conforme falam, meu pai é um Cavalo, portanto, nem sequer aí é dado justiça a mim.

Ao Bicho-Homem chamar com meu nome a alguém é uma ofensa mortal, pois o estaria associando a um indivíduo pouco inteligente, estúpido, teimoso, ignorante, com pouco entendimento, “sem conhecimento geral nem criatividade”. Coisa que decerto não sou, pois se, como admiti anteriormente, sou teimoso por natureza, essa teimosia é por minha determinação e força em vencer obstáculos, não em insistir em coisas que não são de meu conhecimento, ou em atos contra minha própria natureza.

Até mesmo a História do Brasil me defenestrou, me humilhou e colocou em meu lugar a carregar nos ombros o "libertador", a figura do meu pai, que de fato não teria capacidade nem resistência para subir uma Serra carregando um Bicho-Homem, mesmo sendo ele o filho querido de um Rei. Ainda mais que aquele era um tanto bem alimentado e prepotente. E prepotência pesa muito sobre os ombros de um Burro...

Esqueceram de mim na história. E olhem que eu ainda fiquei ali, ao lado dele, enquanto ele cobria uma de suas fêmeas antes da jornada, e também fiquei ali ao seu lado enquanto ele soltava seu estrume bem próximo às margens plácidas de um regato.

Poderia eu sentir-me honrado em ter transportado em meu lombo a bagagem e a bunda Real do Imperador Dom Pedrinho em suas jornadas em busca de foder as não tão nobres bucetas de suas concubinas, que acredito eu, o Burro, eram extremamente importantes à nação. Mas meu orgulho em carregar tão nobre carga não foi aceito nem entendido pelo artista da Corte, que ao copiar um quadro francês com intenção de retratar o heróico momento da Independência, esqueceu que eu também tinha importância na história e deixou de lado a minha figura.

Acho, por fim, que sempre fui muito importante à história do Brasil e tive papel importante em inúmeras de suas “guerras”, principalmente naquela que foi essencial à libertação do Brasil das mãos daqueles que hoje, à nível de troça, eles também chamam por meu nome. Uma guerra travada dentro de palacetes e casas de damas, e que foi ganha apenas por aquele príncipe garanhão, feito meu pai, que decididamente e indefinidamente transformou o Brasil numa pátria não de burros, que isso não sou, mas de idiotas, covardes e inúteis, que acreditam que tirar o Burro do quadro e colocar o Cavalo irá mudar sua história... E seu destino.

Eu não sou Burro!

Outras Reflexões do Burro:

Não sou desprovido de inteligência, apenas não tenho "consciência de espécie". Acaso a tivesse, acaso tivesse eu noção da minha força, decerto não admitiria a dominação por uma espécie fraca quanto a do Bicho-Homem.

Nasci no Brasil e portanto sou definido como "brasileiro", mas nenhum orgulho tenho disso. Aliás, o que sinto é uma imensa vergonha.

Não sei escrever, nem ler. E se soubesse eu deixaria de ser Burro? Decerto que não, pois a "burrice" - olhem que absurdo, criarem um substantivo feminino associado a mim -, não é extinta apenas pelas letras, mas pelo acumulo de experiências culturais, pessoais e sociais.

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A maior parte dos países do planeta tiveram suas independências conquistadas depois de guerras sangrentas, sangue de irmãos... Mas a do Brasil depois de uma trepada e uma cagada às margens plácidas de um rio, declarada por um príncipe playboy... E querem que as coisas sejam diferentes por aqui! Pensem nisso!

Seria a Marchinha "Dom Pedrito", gravada em 1949, composta por Djalma Esteves  e Célio Monteiro e gravada pelos Trigêmios Vocalistas, no mesmo ano, uma critica à "nossa" independência???

"Lá vem o Dom Pedrito,
Montado num burrico,
Cantarolando voi,
No rancho há muito vinho,
Há doce e salgadinho,
E a Chica se casou. (...)
Arte-Montagem Por Barata Cichetto

04/09/2012

O Rock Está Morto


O Rock Está Morto
Luiz Carlos Barata Cichetto

Confesso que superestimei os leitores do Whiplash! Quando elaborei e publiquei minhas listas de superestimados da musica e uma matéria sobre os plágios de Raul Seixas, claro que sabia que muita gente iria discordar, retrucar, espernear. Mas, sempre tive comigo que roqueiros são pessoas bem informadas, que tem um certo nível cultural e portanto reagiriam ao texto. Mas não da forma como aconteceu.  Quando da publicação da primeira lista, com nomes brasileiros, comecei a responder um a um os comentários postados, no intuito de ser participativo, interativo. Tenho por conduta dar uma resposta de acordo com o tom da pergunta e, portanto, aqueles que reagiram com humor foram tratados com humor, os que retrucaram com inteligência, mesmo discordando, também assim foram tratados. Mas os que partiram para a ofensa pessoal, esses também tiveram suas respostas à altura. Enfim, não agredi sem antes ser agredido.

O tom do meu texto era apaixonado, como todos os meus textos o são. Não sou repórter, portanto meu objetivo não é o de apenas noticiar fatos, mas sim de posse deles e da minha sensibilidade a eles, interpretá-los, juntando a isso minha experiência com relação a esses fatos. Quase que integramente, os artistas citados eu escutei durante décadas, tinha muitos discos, fui a shows e etc. Muitos fizeram parte da minha adolescência e alguns fazem parte do meu cotidiano até os dias de hoje. Escuto ou escutei esses artistas durante cerca de quarenta anos, comprei discos e em determinados momentos também os coloquei na posição de gênios. Tenho, portanto, uma base de informação musical que, estou certo a imensa maioria deles não tem. Não fui criado escutando musica em computador, cresci escutando bons discos de vinil. Minha informação musical não é restrita ao mundo da Internet, embora eu esteja dentro dela muito antes também de boa parte dos meus atacantes terem nascido. Aliás, escutei mais musica que todos esses juntos, podem ter certeza. E em discos comprados com dinheiro do meu trabalho. Não conheço apenas duas ou três das mais conhecidas dos ídolos do Rock, escutadas em alguma rádio descolada, ou em MP3 baixado de graça na Internet.

Não sou dono de nenhuma verdade a não ser a minha. Não existem verdades coletivas. A única verdade é a pessoal. E foi essa verdade que expus em meus artigos, de forma veemente e clara. Não busquei nem abordei nenhum aspecto técnico musical por não ter tal conhecimento. E não era esse o ponto. O ponto principal, que pouquíssima gente entendeu, foi o de tentar mostrar às pessoas que mesmo ídolos cometem erros, que não são perfeitos. E que eu tenho o direito de não achar bom um cantor, um artista que é aclamado pela maioria. Todos têm esse direito. Um direito que todos têm sim, mas que a maioria prefere não usar, deixando que o senso comum prevaleça sobre o senso crítico, que a imposição dos donos do poder seja aceita como verdade. A verdade deles. Enfim, o mote principal dos meus textos é: não pense com a cabeça alheia, pense com a sua. 

Mas o que realmente me deixou pasmo e indignado foi o tom empregado pelos que não concordaram comigo. Ataques pessoais, ofensas, palavrões, em sua imensa maioria com erros básicos de português, denotando que cultura e inteligência realmente não é seu forte. Chegaram ao ponto até de mandar e-mails, ligar para meu telefone com ofensas e ameaças e ofender o trabalho de um amigo e parceiro musical deixando mensagens ofensivas a quem não tem nada com a história. Como se, quando eu "ofendi" seus ídolos, estivesse ofendo pessoalmente a cada um deles. Se usei dados da vida pessoal dos artistas citados era no intuito de traçar um perfil dos mesmos, mostrando a incoerência entre a vida e o trabalho, que é, afinal de contas a obra de uma pessoa. Explicando melhor: uma pessoa não é boa, genial, fantástica apenas porque canta bem ou é bonito. Não é uma deidade porque escreve letras boas ou toca bem um instrumento, pois junto a tudo isso há de existir o seu próprio exemplo como pessoa. Se, por exemplo, eu me senti traído por John Lennon ao saber que ele pregava a pobreza e vivia na riqueza é porque um "idolo" tem que ter responsabilidade para com seus seguidores. O fato é que essas pessoas, que pedem respeito a seus ídolos, agem da mesmíssima forma que todos os fanáticos religiosos por seus deuses e dogmas. E queimam em fogueiras burras aqueles que dizem que o rei está nu. E enfim, eu tenho sim, o direito de berrar minhas verdades num espaço que me foi colocado a disposição por seu dono, como é o caso do Whiplash. Não quer saber? É simples, não clique, não leia. Ou se o fizer e não concordar diga isso, mas não ofendendo pessoalmente a quem não o fez. 

Uma anotação final: as pessoas, a maioria desses que me ofenderam no Whiplash, reclama que não acontece nada de novo dentro do Rock, mas publiquei inúmeros artigos falando e mostrando o trabalho de bandas e artistas desconhecidos com ótimos trabalhos e a audiência e os comentários foram praticamente nulos. Conheço músicos com trabalhos de décadas nas costas que sequer são lembrados ou reconhecidos. Seus shows, os poucos que conseguem, estão sempre vazios, enquanto essas pessoas, - são as mesmas não tenho duvida - pagam fortunas para assistir apresentações desses monstros sagrados que tanto eles defendem. E que deles se alimentam.

Realmente superestimei a inteligência dos leitores do Whiplash e quebrei a cara. E a conclusão: o Rock como espírito e atitude não errou. Está morto! Os fanáticos o mataram. Pobre Rock, que em sua origem pressupunha exatamente o oposto. Descanse em Paz, meu velho!

E quem sabe eu não faça mais uma lista: a dos 1.111 Suprassumos dos Superestimados leitores do Whiplash.

03/09/2012

Eu? Contemplo as Ondas...

Eu? Contemplo as Ondas...
Luiz Carlos Barata Cichetto

Yoshiyuki Iwase - Nude in Waves, c. 1950.
Os jovens acham que sou "velho demais para o Rock'n'Roll", os velhos também. Os ricos acham que não tenho classe o suficiente para pertencer ao seu grupo, os pobres também. Os drogados acham que eu sou lúcido demais para ser um deles, os lúcidos também. Os intelectuais acham que eu sou idiota demais para pertencer ao grupo deles e os idiotas acham o mesmo. Artistas acham que sou incompleto, técnicos que sou sentimental demais, enquanto os poetas estão certos que é errada minha poesia e os errados que minha poesia é certa demais. Já os surdos acham que falo demais e os cegos que sou míope. Minha família concorda com minha falta de objetivos e os seres objetivos bem sucedidos afirmam sem pudor que falta família em meus objetivos. Meus filhos me querem na praça jogando dominó de pijama com outros velhos, que me mandam cortar o cabelo. Meus detratores não aceitam minha ingenuidade e os ingênuos berram que a prepotência é minha marca. Mas os hipócritas, esses não aceitam de forma alguma minha sinceridade, embalados pelo coro dos sinceros que não aceitam minha verdade. Pais e professores acham que crianças devem estar longe de minhas idéias, enquanto essas, inocentes, também acreditam. Os médicos acham que sou doente, os psicólogos que sou louco, enquanto loucos e doentes não acham nada. Religiosos acreditam que sou descrente e os ateus discutem se eu sou crente. Deus não pensa nada a meu respeito e eu também não penso nada a respeito dele, portanto estamos empatados... Não, eu sou melhor que ele, porque provo minha existência, enquanto sua inexistência não pode ser provada.

E quanto a mim, o que penso de mim?   O que penso que eu sou? Eu não penso... Eu sou...

Eu? Contemplo as Ondas...

Osho disse em resumo: contemple o oceano e não as ondas. E eu, que não sou guru, que não sou profeta, apenas poeta, que não me espanto com deuses, nem adoro nenhum mestre. E eu, que faço do meu trabalho uma declaração de amor. E eu, que não contemplo e nem sou subjugado pelas crendices e pelas mesmices e que não aceito o dito pelo não dito... Eu, e apenas por mim e de dentro de mim afirmo: eu contemplo as ondas, pois são elas que formam o oceano.

03/09/2012

02/09/2012

Idiocracia ou A República dos Idiotas


A República dos Idiotas
Luiz Carlos Barata Cichetto

O presente texto era para ser uma resenha sobre o filme "Idiocracy", em português "Idiocracia". Mas em determinado momento, percebi claramente que não poderia ser apenas uma análise sob o ponto de vista de cinematografia, mesmo eu não sendo um cinéfilo, um especialista e tentasse analisar apenas sob a ótica de espectador. 

O filme, de Mike Judge, um dos criadores de Beavis e Butt-Head, lançado em 2006 é definido como sendo uma comédia, onde Joe Bowers (Luke Wilson), um acomodado burocrata do Exército que passa os dias assistindo TV é considerado como o QI "mais na média das médias" e por isso escolhido para uma experiência secreta onde, juntamente com uma prostituta, será congelado por um ano. O projeto é desativado e Bowers e a mulher acordam não um, mas quinhentos anos no futuro, quando os EUA tem como presidente um ex campeão de lutas e ex ator pornô, um negro de cabelos tingidos esticados com sobrenome latino e tem como ministros loiras peitudas, moleques alcoólatras e toda sorte de gente totalmente idiota. Taxado de criminoso e de "gay" por falar correto, primeiramente é condenado à prisão, onde para implantação de um CHIP de identificação é "batizado" com o nome de "Não Sei" e seu QI dado como muito acima da média. Ele foge da prisão e depois se torna Secretário do Presidente que o incumbe de resolver os problemas da nação, entre eles o de todas as plantas não mais nascerem, pois estão sendo irrigadas por um energético verde que também é usado em substituição à água em tudo, menos na privada. A população, convencida por uma corporação de que água é apenas para ser usada no vaso sanitário trabalha predominantemente na tal corporação e pede a cabeça do articulador da "absurda" idéia de irrigar plantas com água. Tudo ali é manipulado pelas corporações, mas ele consegue provar sua tese quando as plantas começam a brotar. Pouco tempo depois, ele se torna o Presidente e se casa com a sua companheira de jornada, a prostituta.

O filme é tratado em tom humorístico, com cenas que pretendem fazer rir. A presença de um narrador, tentando conduzir ao nível comédia completa a farsa. Sim, a farsa, pois "Idiocracy" não é, nem de longe uma comédia. Rir daquilo que mostra o filme, uma sociedade completamente dominada por pessoas completamente idiotas, sem o menor traço de cultura, sem sequer conseguir formular frase simples, só pode ser mesmo ser coisa de idiota. E talvez seja mesmo esta a intenção do diretor: "Se você achar graça disso, então você é mesmo um idiota!" ou "Faça cara de inteligente e assista este filme calado!" Ou ainda algo até mais contundente, mostrando que apenas idiotas riem de idiotas... "Idiocracy", em termos de cinema não é um grande filme, chega até mesmo a ser um tanto idiota - desculpem, mas o trocadilho foi inevitável. E talvez também tenha sido esta a idéia do diretor: fazer um filme idiota sobre uma sociedade de idiotas. Fazer um filme inteligente, intelectual, tecnicamente bem feito, talvez não surtisse o mesmo efeito. E aí o diretor seria outro: Woody Allen. Confesso que o tal Mike Judge me deixou confuso, até mesmo me fazendo sentir... Um idiota.

Mas, de fato é um filme que não será muito engraçado para aqueles que têm um senso critico apurado da atual realidade, do atual momento pelo qual a humanidade passa, pois ao olharmos ao nosso redor, percebemos que podemos trazer o filme uns quatrocentos e noventa anos para trás, mudar os EUA por um certo território na América do Sul e ele deixaria de ser enquadro no gênero "comédia", para se encaixar no de "documentário". Claro que não é privilégio, mas é de onde e para onde eu consigo dirigir meus olhos e ouvidos. Aliás, acredito que até na tradução do titulo para o português tenham tido o cuidado em não criar nenhuma identificação com a terra de Cabral, pois a palavra "Idiocracia" não existe nos dicionários da língua portuguesa, então, a distribuidora, inteligentemente (ou idiotamente) traduziu literalmente, talvez até desconhecendo o fato da palavra não existir em português. Se traduzissem como "A Republica dos Idiotas", fatalmente as pessoas iriam assistir pensando se tratar claramente de um filme sobre a História do Brasil, ou ainda algum filme "político" sobre o país nos últimos dez anos, transformado numa Idiocracia comandada por uma corja de idiotas sem caráter. Uma real e muito menos engraçada, mas nem por isso perigosa, Idiocracia. 

Depois de massacrado por quase cem anos por golpes militares e ter passado por primeira experiência de "democracia" com um presidente enfiado goela abaixo, e depois retirado dela, pela grande mídia, a nossa Idiocracia Tropical adotou um sistema que elege "democraticamente" sucessivos idiotas, que vêm transformando a terra numa enorme e gigantesca favela. Não uma favela no conceito de exceção, do lugar em si, onde pobres se acumulam por falta de opção, mas no sentido de transformar a todos em mendigos, em pedintes, em esmoleiros, através de programas sociais burros e mal intencionados, que incentivam o crescimento da população de idiotas e maus-carateres. E ai, o cínico aproveitador se confunde com o idiota e, como no final de “Revolução dos Bichos”, ninguém mais sabe quem é um e quem é outro.

No início do filme que deu o tom deste artigo, o autor começa mostrando como teriam chegado aquele estado de coisas, ao mostrar as árvores genealógicas de dois casais. Um inteligente e com bom nível de informação e cultura. O outro, um casal de autênticos idiotas. A conclusão é simples: o primeiro casal pensa sobre todos os problemas que advem do nascimento de uma criança e assim acabam não tendo filhos, até que o marido morre. Enquanto o outro, o casal de idiotas enche o mundo de filhos. Dúzias de descendentes, dúzias de idiotas que se proliferaram, demonstrando assim como se chegou a uma população totalmente dominada por idiotas, que falam apenas por girias, consideram afeminado um sujeito que fala correto e premia um filme que mostra uma bunda o tempo inteiro com o Oscar. 

E retornando às nossas terras no hemisfério sul, é muito mais vantajoso, deixar que os idiotas se proliferem, dar-lhes toda sorte de assistência social equivocada e mal intencionada, para que eles aumentem, proliferem e mantenham eternamente esse estado de coisas. Uma educação fraca e fraudulenta completa o quadro, mantendo essa situação eternamente, num circulo vicioso. Além disso, uma outra facção desse sistema torpe trata de disseminar a promiscuidade sexual, induzida pelo egoísmo e colocando nisso uma falsa idéia de liberdade sexual. Fora dos livros de poesia, a liberdade precisa ser sempre acompanhada da responsabilidade, e nesse caso representa: mais um monte de filhos não pensados, não planejados, que muitas vezes não terão o menor respaldo paterno e psicológico. Geralmente idiotas são contra qualquer tipo de prevenção, execram coisas como vasectomia e ligadura de trompas e, principalmente, idiotas não usam preservativos. 

Mas o Estado incentiva tal coisa, dando a essas crianças uma assistência social fajuta, sob a forma de leite e remédios para que sobrevivam e cresçam, engrossando as fileiras do Exército dos Idiotas. E, através de um sistema de educação propositalmente incompetente, deixa que apenas um o outro se sobressaia, para assim manter viva a ilusão de que idiotas podem deixar de ser idiotas se estudarem. Mas, idiotas são deixam de ser idiotas porque estudaram, serão apenas idiotas estudados. E idiotas formados são piores que idiotas analfabetos. São muito mais perigosos.

Então, no que se tornará a maior parte dessas crianças quando crescerem? Estejam certos que elas se tornarão perfeitos idiotas. E se reproduzirão com a mesma facilidade, aumentando e aumentando em numero e espécie. E fatalmente serão sempre gratos aos que propiciaram essa situação, perpetuando o sistema. Salsichas insossas espremidas num enorme moedor de carne alimentando aos porcos. Simplesmente isso!

E antes que pedras cheguem à minha cabeça, me acusando de fascista, dizendo que estou discriminando aos pobres com essa colocação, devo dizer o seguinte: claro que os pobres, até porque são a maioria no mundo e os que mais se proliferam são os maiores responsáveis pelo crescimento da idiotização da espécie humana. E são idiotas não porque são pobres, mas porque vêm por gerações sendo idiotizados. Claro que nem todos os pobres são idiotas e contribuem para a Idiocracia... Apenas a maioria... Mas por outro lado, ser rico também não é sinônimo de inteligência. Aliás, muito pelo contrário. Ricos podem ser espertos, esse lixo que domina a cultura mundial e particularmente a brasileira, mas não necessariamente menos idiotas, até porque boa parte da idiotia básica e perene é praticada por eles.  Em resumo, não é a classe social ou a cor da pele que fazem com que idiotas sejam idiotas. Os idiotas são de todas as cores e raças e classes sociais. Aliás, pertencem apenas a única classe predominante: a dos idiotas.

E os mentores da Idiocracia também tem outros métodos, como as religiões, que são a forma mais simples e eficiente de se promover a idiotização das pessoas. Usando de artimanhas sórdidas, esse braço potente completa aquilo que o Estado deixa de lado. É simples também o resumo do papel das igrejas: seja um idiota e o reino dos céus lhe pertencerá. E sob qualquer dogma, qualquer dominação, a conclusão será apenas esta. E é claro que também a elas, as religiões, interessam grandemente a proliferação de idiotas sobre a face da Terra, pois ao contrário do que pregam os escritos religiosos, não serão os justos que herdarão a Terra, mas os idiotas.

Mas, nem apenas de religião e igrejas se alimenta a Idiocracia. Dos esportes e das artes também. Não delas propriamente ditas, mas do mesmo fator covarde usado pela religião: o fanatismo. Esporte em si seria uma coisa saudável, claro. Mas quando se transforma esportes em competições acirradas que terão como premio o dinheiro e a fama, dando assim à vaidade o lugar de destaque ao transformarem esportistas como símbolos míticos, acabam com o que existe de bom neles. As fanáticas torcidas de futebol são o melhor exemplo disso.  E o mesmo vale para as artes, quando criam a competição, os mitos, os ídolos. Enfim, quando os esportes e as artes são tratados como fenômenos de mídia, perdem suas essências e se transformam em apenas mais um item de manipulação, não os diferenciamos mais das religiões. Experimente falar mal de um clube de futebol que não é o mesmo do seu interlocutor, ou falar que um determinado astro da musica não é o gênio absoluto que a maioria acredita. O fanatismo cega, obstrui, embota o cérebro e, enfim, o fanatismo, seja ele de cunho religioso ou até artístico é segregador, e, portanto burro. E não existe nada mais idiota do que o fanatismo. Fanáticos em sua essência são idiotas! O pior e mais perigoso tipo de idiotas, porque além de outras coisas, fanáticos sempre andam em bandos, pois apenas assim se sentem fortes. E isso os que os torna muito mais temíveis. 

Ademais, os teóricos e construtores da Idiocracia, conhecem armas muito poderosas de controle e principalmente de disseminação de suas idéias. Atualmente, disseminada mundo afora rapidamente por intermédio das chamadas redes sociais, o Marketing Social, filho do Politicamente Correto e neto do Patrulhamento Ideológico, tomou de assalto as mentes das pessoas, implantando códigos secretos de conduta que embotam e degeneram qualquer capacidade de raciocínio, qualquer resquício de inteligência. Ao pregar uma igualdade que não existe e nunca existirá; ao transformar a aberração, a promiscuidade e o desvio sexual em modalidade e normalidade, enfim, ao despertar e estabelecer conceitos éticos e morais com base apenas na vaidade e no consumo fácil, geram o que é preciso para criar uma classe de pessoas que no futuro bem próximo, comporá uma sociedade dominada por egoístas, narcisistas e hipócritas. Uma sociedade altamente doente formada por idiotas e controlada por idiotas. 

Com o passar do tempo, as pessoas necessitarão mais e mais de ídolos, de mitos, de tutores, pois quanto menor é nosso grau de raciocínio, maior é a nossa dependência. E quanto menos palavras conhecemos, menor é nossa capacidade de raciocinar, como bem colocou Orwell quando falou da Novilingua. Estão simplificando as línguas, reduzindo palavras, criando vocábulos e simplificações absurdas nas formas de falar e principalmente de escrever. E o cérebro acompanha isso, atrofia, empedra e passa apenas a responder por funções vitais como comer, beber e dormir. E esse atrofiamento do cérebro decerto se tornará um fator genético, transmitido através dos cromossomos às gerações futuras, causando assim a involução da espécie. Será este o apregoado fim da espécie humana? Não por catástrofes naturais, doenças, fenômenos estelares e outros, mas simplesmente por uma atrofia no cérebro que transformará o ser humano em uma ameba gigantesca? 

Mas, retornando ao inicio, quando falei sobre o filme "Idiocracia", não concordo apenas com uma coisa que o criador do filme coloca: a idiotização geral. Aliás, uma coisa passa despercebida num primeiro momento: todos ali, das pessoas mais simples ao Presidente da República são perfeitos idiotas. Todos? Nem todos, pois na história existe a corporação que domina a quase tudo e todos através de produtos que são colocados como absolutamente essenciais, como por exemplo, o tal energético. As corporações dominam tudo. E são eles também idiotas?  Mike Judge não toca nesse ponto propositalmente? Quer deixar isso nas entrelinhas, para que apenas espectadores não idiotas percebam? Ou isso é algo nem ele mesmo pensou? E então faço a mim mesmo a pergunta: Mike Judge é um idiota ou um gênio? "Idiocracia" é um dos filmes mais inteligentes do mundo, ou apenas o mais idiota deles, feito apenas para que idiotas assistam? E para que outros idiotas feito eu tentem entende-lo e mostrar a outros idiotas que não se acham idiotas...

Mas, por fim, estamos chegando a uma linha de limite da sobrevivência da espécie humana, como ser pensante e dominante do planeta. Ou acordamos agora e passamos a aceitar menos as imposições dos dominantes, e começamos a pensar com nossas próprias cabeças, agindo de acordo e com base no pensamento critico, ou estaremos todos assistindo o fim de nossa própria espécie. A consciência critica, baseada na informação e na cultura livres, é a única coisa que poderá nos salvar da extinção.

Deixo a seguir, uma adaptação minha do texto do discurso de posse do Presidente "Não Sei" dos EUA, 2.505 DC, no final do filme. 
"Houve uma época neste planeta, em que pessoas inteligentes eram consideradas legais. Nem todas as pessoas inteligentes eram legais, mas pessoas inteligentes fizeram coisas como navios, pirâmides e até foram ao espaço. E houve uma época nesse planeta em que ler não era coisa de gente esquisita. E muito menos escrever. E que pessoas escreviam livros e filmes e tinham histórias. E não importava de quem era a bunda e porque estava peidando. E acredito que essa época vai voltar.” 


Cópia Infiel – Ato 1: Raul Seixas e o Dolo de Ouro


Cópia Infiel – Ato 1: Raul Seixas e o Dolo de Ouro
Luiz Carlos "Barata" Cichetto
Foto: Thereza Eugênia
“Querer o meu não é roubar o seu / pois o que eu quero é só em função de eu” – Raul Seixas / Cláudio Roberto / Marcelo Motta em “Novo Aeon
Antes de qualquer coisa, e que os seguidores da Igreja Jesus Seixas dos Santos do Penúltima Dia comecem a espernear, quero deixar uma coisa bem clara: conheci o trabalho de Raul Seixas ainda no inicio dos anos 1970, com seu primeiro disco ("Krig-Ha Bandolo") e comprei todos os seus discos subsequentes. Fui a dezenas de "shows" dele, inclusive na estréia de "O Dia Em Que A Terra Parou", com um Raul Seixas trajado de roupas brancas, cabelos curtos e sem barba esquecendo a letra da musica titulo e dormindo bêbado ao meu lado depois de ter dado lugar ao microfone a alguém da platéia. Escutei milhares de vezes suas músicas, tinha, e ainda tenho,  "Tente Outra Vez" como uma das melhores musicas da história da musica do Brasil. Até a história do nome do meu filho, que tem o nome de Raul não por causa dele, mas de uma estranha coincidência que rolou no lançamento do disco do Estúdio Eldorado em 1983. Fiquei sim, muito chocado com sua morte em 1989 e não fui ao velório em São Paulo porque não consegui licença no trabalho. Depois disso, escrevi vários textos que eram verdadeiras odes a Raul Seixas, e que continuam publicados em meu portal. Mas o que é necessário a um ser humano, segundo até mesmo o que o próprio Raul pregava, é a evolução do pensamento e por conseguinte das atitudes, de uma pessoa. A tendência natural de um ser humano é buscar novas informações, introjectá-las e processa-las, tornando-se assim um ser melhor, mais sábio e mais digno. O que ele chamava de “Metamorfose Ambulante”, tão repetida pelos fãs, mas tão pouco entendida. Na maior parte das vezes a letra é mal interpretada, transformada em hino de pessoas que não tem opinião própria, mudando-a de acordo com qualquer circunstância social e moral, o que é absolutamente diferente. 
"Você é forte, faz o que deseja e quer / Mas se assusta com o que eu faço, isso eu já posso ver / foi com isso, justamente, que eu vi / Maravilhoso, aprendi que eu sou mais forte que você." – Raul Seixas/Paulo Coelho
Mas o fato é que Raul Seixas morreu sozinho, na merda e, segundo escritos dele publicados depois de sua morte, implorando por uma amada companheira que não queria por perto aquele homem decadente e doente. Raul morreu só, sem dinheiro e abandonado por todos. Ganhou muita grana e gastou tanto ou mais do que ganhou. Birita e outras coisas. Antes disso foi preso por estar tão embriagado num show que não foi reconhecido pelos próprios fãs que causaram tumulto. Ou seja, apenas um ser humano de carne, osso e sangue, que tinha problemas na vida como qualquer, mas que transformava, como bom artista, seus problemas, suas experiências e principalmente suas dores, em arte, em musica. Não um messias, um deus. Apenas Raul Santos Seixas.
“Ah, mas que sujeito chato sou eu / Que não acha nada engraçado / Macaco, praia, carro, jornal, tobogã / Eu acho tudo isso um saco.” – Raul Seixas
O que se sucedeu após sua morte foi a criação de um mito que aparentemente Raul não queria ser. E seu nome passou a representar dinheiro em muitos cofres e, principalmente, representar o ídolo, um mito, quase um deus. Menos por seu trabalho musical e muito mais pela irresponsabilidade dele em relação a si próprio e a seus espectadores, que o tinham sempre embriagado, esquecendo letras de musicas. Raul se tornou um mito por ser associado mais à bebida, falta de compromissos, rebeldia gratuita do que propriamente por suas musicas e suas idéias, embora, claro, existam as exceções. E aí é reside decididamente o perigo. Um mito vivo é muito perigoso a si próprio, pois absolutamente ninguém consegue suportar essa pressão sem enlouquecer ou se tornar ditador, um ser gelado com um ego gigantesco, o que é quase a mesma coisa. E essa legião, tanto urbana quanto rural, passou a tentar reproduzir os passos de seu ídolo, transformando-o em mártir, em messias, em guru. Inatacável, intangível, inalienável. Então muito daquilo que o próprio pregava cai por terra. Segue-se o que é de interesse próprio, da barba às bebedeiras, mas muito, muito pouco da filosofia, das idéias. Raul era coerente, tinha sua existência e obra amalgamadas, enfim era autêntico. Mas o que falar de pessoas que não leram um décimo daquilo que ele leu, que não escutaram um décimo do que ele escutou? Que o seguem às cegas, às surdas e às mudas achando legal encher o rabo de vinho barato, deixar a barba crescer e sair por ai gritando em qualquer lugar: "Toca Raul!"??? Pessoas que têm personalidade, identidade e auto-estima tão pequenas que passam a adotar o sobrenome do ídolo. Por um lado querem ser o próprio, mas por outro colocam-se a si mesmo como tão frágeis e inseguros que precisam ser adotadas por um “pai doidão”. 
“Você alguma vez se perguntou por que / faz sempre aquelas mesmas coisas sem gostar? / Mas você faz, sem saber por que você faz, / e a vida é curta.” – Raul Seixas/Cláudio Roberto
Fanáticos são perigosos! A bala que estourou a cabeça de John Lennon tinha um nome gravado nela: fanatismo. E são extremamente perigosos porque são cegos a qualquer coisa que não diga respeito ao objeto de seu fanatismo e são capazes de atos violentos para defender o alvo de seu fanatismo, mesmo contra o próprio segundo, certas mentes doentes. E qualquer coisa que ouse atacar tal objeto é alvo de atos violentos de toda natureza. A eles, atacar seu "monstro sagrado" é arrumar briga, encrenca na certa. E eu, que não acredito que existam monstros e em nada que seja sagrado, até continuo a escutar Raul Seixas, mas não o tenho como ídolo, como aliás a ninguém. Apenas a mim mesmo, pois só apenas a si o Homem merecer reverenciar como a um deus. Até mesmo Raul que bebendo em águas turvas de filósofos como Nietzsche e Schopenhauer pregavam. “O que eu como a prato pleno / Bem pode ser o seu veneno.” Mas seus fãs preferem reverenciar um mito, colocar um deus no lugar de um homem e adorá-lo cegamente. Mas “ninguém pode notar / estão muito ocupados pra pensar”.
"Eu já passei por todas as religiões / Filosofias, políticas e lutas / Aos 11 anos de idade eu já desconfiava / Da verdade absoluta." - Raul Seixas
O presente preâmbulo é extenso por necessidade de deixar claras as minhas posições com relação à figura de Raul Seixas. O coração do texto não é o que pode entender o leitor mais afoito, que foi direto à lista das musicas que foram plagiadas por Raul Seixas. O coração e a mente por trás deste monólogo é demonstrar o quanto o ser humano é suscetível ao poder não apenas da mídia que lhes impinge o que deseja com a única função de obter lucro, mas também ao poder da própria massa de ignorantes que precisa criar ídolos e mitos para se manter na comodidade do não pensar. E que prefere seguir um ídolo e não ser ele próprio um ser com idéias próprias. Ou seja, um ídolo de si mesmo baseado em suas próprias experiências e dores, não um seguidor das alheias. E não por vaidade, nem por ganância, mas por justificar sua própria existência. 
"O plágio é o ato de assinar ou apresentar uma obra intelectual de qualquer natureza (texto, música, obra pictórica, fotografia, obra audiovisual, etc) contendo partes de uma obra que pertença a outra pessoa sem colocar os créditos para o autor original. No acto de plágio, o plagiador apropria-se indevidamente da obra intelectual de outra pessoa, assumindo a autoria da mesma. (...) A origem etimológica da palavra demonstra a conotação de má intenção no ato de plagiar; o termo tem origem do latim plagiu que significa oblíquo, indireto, astucioso. O plágio é considerado antiético (ou mesmo imoral) em várias culturas, e é qualificado como crime de violação de direito autoral em vários países." - Wikipedia
É claro que uma pessoa que escute milhares e milhares de músicas e, sendo musico, no momento em que compõe acabe sofrendo das "influencias" daquilo que escutou. Também é lógico que determinados acordes ou trechos de musicas, permaneçam dentro de seu inconsciente e acabe aparecendo, se diluindo em sua obra. Isso acontece com todas as artes, da musica á literatura, passando pela pintura. E a isso é dado o nome de "influência". Plágio é outra coisa, conforme consta na definição acima. Em resumo, plágio é roubo. Quando um artista pega propositalmente musicas inteiras, ou apenas trechos dela e confere a si próprio a autoria está sendo no mínimo mal intencionado. E como é a mais popular das artes, é na musica onde se encontra o maior numero de "apropriações indébitas". Existem casos muito conhecidos, como Rod Stewart que plagiou descaradamente Jorge Ben e tomou um processo e os casos clássicos de bandas e artistas como Deep Purple, Led Zeppelin e Rolling Stones, que se apropriaram do trabalho, do suor e da criatividade alheias para ganhar seu dinheiro e fama. Incompetência? Malandragem? Preguiça? ... Acho que todas essas coisas juntas. Uma coisa é a citação com os devidos créditos. Aspas servem em texto para isso, e indicação em capas e selos de discos também. E a outra é pegar a criação alheia, mudar de nome e auferir os lucros. 
“Se você acha o que eu digo fascista / Mista, simplista ou anti-socialista / Eu admito, você tá na pista...”  – Raul Seixas/Marcelo Motta
No caso do nosso querido amigo Raul Seixas, as coisas pareciam acontecer de uma forma muito estranha, pois além motivos citados, ele tinha veneração pela cultura americana, particularmente dos primeiros ídolos do Rock. Todos sabem que Elvis era grande ídolo Raul, mas nem por isso, ou talvez por isso mesmo foi um que sofreu nas suas mãos. Mas existiram outros, como The Byrds, Jim Breedlove, Albert King, Bobby Russel e Carl Perkins. Em seu excelente livro "Metamorfose Ambulante" (aliás, esse livro me foi presenteado pelo Sylvio Passos), Mario Lucena conta que Raul Seixas admitia que copiava mesmo e que não se sentia envergonhado com isso.  Em algumas, poucas, oportunidade ele dava os devidos créditos, lançando como versão,tal como em “Babilina” que é “Bop-a-Lena” de Ronnie Silfo; e “No No Song” da dupla David P. Jackson / Hoyt Axton gravada por Ringo Starr  que virou “Não Quero Mais Andar na Contramão” e “Não Fosse o Cabral”, versão de “Slippi’n & Slidin’n” de Little Richard. A mais conhecida é “Lucy In The Sky With Diamond” dos Beatles que se transformou em: “Você Ainda Pode Sonhar”  que saiu inicialmente no disco “Raulzito e Seus Panteras“. E houve também o absurdo caso em que ele se auto-copia, como em “Abre-te Sésamo” e “Um Som Pra Laio”... Em pouquíssimos casos, Raul admitiu ter feito o plágio, como em "Rock das Aranhas", uma musica tradicional americana que tinha sido gravada por Jim Breedlove em 1958, e posteriormente por Elvis Presley. Sobre isso ele próprio disse: "Meti a mão! 'Killer Diller' é uma música que adoro, e peguei o arranjo, ficou bonito e ninguém notou!!! ". E uma curiosidade sobre essa música: uma versão de "Rock das Aranhas" é considerada por muitos como a precursora de uma "jóia cultural" chamada "Funk Carioca". 
“Cada cabeça é um mundo Gismundo / Antes de ler o livro que o guru lhe deu / Você tem que escrever o seu.” – Raul Seixas
Falando em Elvis, "I Was Born 10.000 Years Ago" acabou sendo traduzida "Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás".  A musica não é de autoria do “Rei do Rock”, é uma musica de domínio publico americana gravada por ele. E esse caso em especial denota uma questão muito mais séria do que aparenta: uma musica de domínio público é algo que nasceu das ruas, dos bares, das revoluções e é geralmente uma criação popular e anônima. Enfim, ninguém lucra com isso. É o que o nome próprio titulo demonstra, uma criação de propriedade publica. Então, um esperto chega, pega uma musica dessas e coloca seu nome como autor, ganhando com isso... E o absurdo dessa usurpação é que nosso "Cowboy Fora da Lei" nem se preocupou com a regra gramatical na tradução. Em inglês está correto "10.000 Years Ago", mas "10 Mil Anos Atrás" é pleonasmo.  Mas a coisa beira ao absurdo quando alguém ainda atesta a idoneidade de uma criação... Que nunca existiu. Há um tempo atrás, num documentário da Globo, a segunda esposa de Raul, Gloria Vaquer, conta sobre o momento em que Raul e Paulo Coelho compuseram "Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás": "Foi algo singular, mágico, impressionante, amazing. Um falava uma frase e o outro completava, como se estivessem dominados por uma 'entidade'”. Mas será que ela, uma norte-americana fã de Rock, não sabia que "I Was Born About Ten Thousand Years Ago" havia sido gravada e lançada em disco por Elvis em meados 1970 e lançada no mesmo ano, inclusive como subtítulo do disco: “Elvis Country (I'm 10,000 Years Old)”, uns cinco ou seis anos antes da tal inspiração mediúnica da dupla brasileira? Então pergunto, se realmente Gloria relata uma visão correta, o que os dois fizeram ali foi o que? Uma encenação? Ou estavam apenas tirando a musica e “adaptando” a letra? Bem provável que seja isso. Paulo Coelho ao ser questionado pela imprensa sobre o assunto, desconversou, mas depois afirmou que Raul prestara tributo a seu ídolo maior. Como se fosse Raul o único responsável pela fraude, atitude bem típica dele, que é dado também a surrupiar textos e histórias alheios. Mesmo assim, admitiu, mas o fato é que a musica continua por ai, sem os devidos créditos de autoria. E de Elvis tem ainda "My Baby Left Me", uma co-autoria com Arthur Crudup, que Raul transformou em “A Verdade Sobre a Nostalgia”. 
“Você já foi ao espelho, nego? / Não? / Então vá!“ – Raul Seixas
Uma banda que Raul também parecia adorar a ponto de copiar era The Beatles. “Peixuxa” tem a abertura idêntica a “Obladi-oblada”, do White Álbum. “Back in the U.S.S.R." do mesmo disco e "Get Back" foram picotadas e juntas formaram “O Dia da Saudade”. E um outro caso que merece uma historinha: "S.O.S." é uma cópia descarada de "Mr Spaceman" do Byrds e teve uma outra versão, com uma letra um tanto diferente, dois anos antes, em 1972, que tinha o nome de "Objeto Voador", gravado pela dupla jovenguardista Leno e Lilian. 
“Eu sou estrela no abismo do espaço / O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço. / Onde eu tô não há bicho-papão.” – Raul Seixas/Marcelo Motta
Mas o suprassumo é realmente quando a copia é de musicas que já eram plágio, como foram os casos de "Loteria de Babilônia" e “Gita”. A primeira tem um final que é um felatio de "How Many More Times" do Led Zeppelin que já tinha sido devidamente boqueteada de "The Hunter", um antigo blues de Albert King. Particularmente não acredito que Raul tenha se baseado na cópia do Led, mas na original, de King. Já "Gita", foi originalmente composta por Bobby Russel com o titulo de "Honey I Miss You" que os Rolling Stones chuparam e chamaram de "No Expectations". Há de se invocar nesse caso o antigo dito popular do "Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão"? Acho que não: Para mim, ladrão que rouba ladrão tem que ir junto pro paredão.
“Não tenho saco para ouvir artista / Comendo alpiste na mesma estação / Cantando regra com o rei na barriga / E só de preguiça não mudou o botão.”  - Raul Seixas
Enfim, um artista precisa ser tratado com o total de sua obra e com relação aos seus atos e efeitos causados. Que Raul Seixas foi importante à "linha evolutiva da musica popular brasileira", embora cantasse o contrário talvez sendo sarcástico, não há como negar. Que, num determinado momento, quando a ditadura militar comia o couro dos descontentes, ele foi de grande e valiosa importância bradando no limite a favor da liberdade também não. Mas o que não posso aceitar é transformá-lo em algo acima do que realmente foi. Um Homem não pode estar abaixo de ninguém, mas muito menos acima de si próprio. Ou dos outros. O fanatismo é criminoso, como bem nos mostra a história. E concluindo com algo que decerto irá causar provavelmente irá abalar os mais profundos dogmas e aos fiéis, cegos e surdos seguidores da Religião Raulseixista: aquela história do encontro com John Lennon foi uma farsa. Ele nunca passou três dias na casa dos Ono-Lennon e, portanto a história do interesse do Beatle pela Sociedade Alternativa é falsa. Ao que parece Raul teria aprontado essa para além de promover a Sociedade Alternativa e chamar a atenção da imprensa brasileira, mas sustentou essa história até o fim. De fato, com quem realmente Raul esteve foi com Leno, da antiga dupla Leno e Lílian, para quem ele, na época um desconhecido produtor da CBS produziu e participou de um disco chamado “A Vida e a Obra de Johnny McCartney”.
“Eu devia estar contente / Por ter conseguido tudo que eu quis / Mas confesso abestalhado / Que eu estou decepcionado.” – Raul Seixas
Raul Seixas tinha um envolvimento muito grande com as coisas esotéricas e profundo admirador das coisas do bruxo Aleister Crowley. E muitas das citações em letras de musicas dele, particularmente em “Sociedade Alternativa” e “A Lei”, que é quase um remake da primeira, e outras, não saíram de dentro de sua cabeça, mas dos livros da “Besta”. A frase: “Faze o que tu queres, há de ser tudo da Lei”, hino da Contracultura no Brasil e amplamente cantada a plenos pulmões até a atualidade pelos adeptos da Igreja Raulseixista é de autoria de Aleister Crowley. Aliás, muitas de citações dele e principalmente atribuídas a ele, circular pela Internet não eram de sua autoria. Por exemplo: "Ninguém morre, as pessoas despertam do sonho da vida." É um Provérbio Chinês, "Pare o mundo que eu quero descer." é de uma música de Silvio Brito.. E por aí. Já vi por ai gente usando camisetas com fotos de Raul, com as frases estampadas mais absurdas, que de fato nunca foram pensadas nem ditas por ele. E entra à baila a mesma questão: o fanatismo é cego, surdo... E burro. E embora ele tenha sido um pensador atento, lido grandes filósofos e criado sua própria filosofia, muita gente teima em atribuir a ele pensamentos que nunca foram de sua autoria. E o problema é que muita gente lucra com isso. Aliás, a marca, a grife “Raul Seixas” é muito vendável, rende muita grana aos espertos. Do mesmo jeito que outras grifes famosas, como Che Guevara, Marx e até mesmo Jesus Cristo.
“Eu sou astrólogo / E conheço a história do princípio ao fim.” – Raul Seixas / Paulo Coelho
Enfim, segue uma lista com uma dúzia (doze) musicas que foram total ou parcialmente surrupiadas em suas autorias por Raul Seixas. Algumas são cópias idênticas, outras são apenas trechos, mas nem por isso menos plagio. Ao que sei, tecnicamente, existem um certo numero de compassos, para ser comprovado o plágio. Não sei analisar por esse aspecto, mas estou certo que seja qual for esse numero é bem inferior ao que foi usado nas musicas citadas. E escutem as musicas antes de criticar. E se disserem "Ah, ele fez tudo isso, mas ainda assim é o Rei do Rock, o melhor, era um gênio" e outros adjetivos que denotem falta de discernimento e capacidade de raciocínio próprios, digo o seguinte, primeiro parafraseando uma de suas filhas: "Os fãs de Raul Seixas são muito chatos!" E por fim: "O que eu quero é o que eu penso e o que eu faço / ... / Pois o homem é o exercício que faz". Conhecem o autor, não?! Ao que consta, essa é dele mesmo. Ou não? Afinal é uma parceira com Marcelo Motta e a letra acredita-se que seja deste. Outro fato que há de se levar em consideração. Aliás, seria mesmo de Raul Seixas todos os conceitos explícitos nas suas letras? Paulo Coelho afirma quer eram dele, mas ele não exatamente a pessoa a quem eu daria crédito, afinal, ele é um plágio de qualquer mau escritor que tenha existido. E deixo então uma pergunta no ar: as tão aclamadas letras de Raul Seixas eram dele ou de seus parceiros letristas, como Paulo Coelho, Marcello Motta, Cláudio Roberto, Oscar Rasmussen e outros?  
“Sou tão bom ator que finjo ser cantor e compositor e vocês acreditam.” – Frase atribuída a Raul Seixas
1. The Byrds - "Mr Spaceman" > "S.O.S."
2. Jim Breedlove - "Killer Diller" > "Rock das Aranhas"
3. Peter And Gordon - "Willow Garden" > "A Beira do Pantanal"
4. Elvis Presley - "My Baby Left Me" > "A Verdade Sobre A Nostalgia"
5. Domínio Público (Spiritual) - "Working On The Building" > "Gospel"
6. Elvis Presley - "I Was Born About Ten Thousand Years Ago " > "Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás"
7. Albert King  - "The Hunter"  > Led Zeppelin - "How Many More Times" > "Loteria da Babilônia"
8. The Beatles - "Back in the U.S.S.R." e "Get Back"  > "O Dia da Saudade"
9. The Beatles - “Obladi, Oblada" > "Peixuxa"
10. Bobby Russel - "Honey I Miss You" > The Rolling Stones  - "No Expectations" > "Gita"
11. Simon & Garfunkel - “Bridge Over Troubled Water” > "Ave Maria da Rua"
12. Carl Perkins - “Honey Don't”  > "Rock do Diabo" 



E não percam: Cópia Infiel – Ato 2 - Led Zeppelin; Cópia Infiel – Ato 3 - Deep Purple, afinal eu também tenho o direito de “ser ateu ou de ter fé e até deixar Jesus Sofrer...”

31/08/2012
Arte: Barata Cichetto para a KFK Webradio