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28/09/2012

Pussy Galore

Pussy Galore
Luiz Carlos Barata Cichetto

Pussy Galore é uma personagem criada por Ian Fleming em "007 Contra Goldfinger", da série James Bond. Seu nome é um trocadilho com “Pussy”, que em inglês significa um outro nome para “Gata” ou o termo vulgar para "vagina'", enquanto "Galore'" significa grande abundância de alguma coisa.  Portanto, poderíamos traduzir vulgarmente "Pussy Galore" como "Bucetuda" (?). No filme, a personagem interpretada pela atriz britânica Honor Blackman foi atenuada, pois no original literário, a principal capanga do vilão Auric Goldfinger é uma lésbica, chefe de uma gangue de ladras. No filme isso é apenas insinuado e ela acaba nos braços do irresistível James Bond. 

Entretanto, na capital federal dos Estados Unidos da América, no ano de 1985, surge uma banda de garagem com o mesmo nome da personagem de Fleming. Com um som claramente inspirado em estandartes da piração criativa do final dos anos 60 e início dos 70, “The Velvet Underground” e “The New York Dolls”, desde cedo a banda construiu um som que não podia ser rotulado, dada a miscelânea sonora que compunha seu trabalho. Distorção até o bagaço, gritos, letras com forte apelo sexual e toda a sorte de influências rítmicas e melódicas. Uma usina de criatividade e “loucura” concentradas. Mas ma usina dessas não tem como não explodir com tanta carga, ainda mais juntando-se a essa carga explosiva, o uso e abuso no consumo de drogas alucinógenas. O resultado pode chegar a ser genial ou catastrófico, dependendo para qual ela vão os estilhaços da explosão.

A base original da “Pussy Galore” era formada pelos guitarristas e vocalistas Jon Spencer e Julia Cafritz e pelo baterista John Hammill. E foi com essa formação que a banda gravou seu primeiro EP "Feel Good About Your Body". Após o lançamento do disco, o guitarrista Neil Hagerty passa a integrar a banda, Hammill foi substituído pelo ex-baterista do "Sonic Youth" Bob Bert e eles se mudam para New York, passando a incluir como guitarrista Cristina Martinez, então com 16 anos. Cristina não era instrumentista, mas namorada de Spencer e a modelo que posara para a capa do EP de estréia. Com esse “line-up” eles gravam outro EP "Groovy Hate Fuck" pelo selo "Shove Records" criado pela própria banda. Logo a seguir, em 1986, pela mesma "Shove", lançam uma gravação em fita cassete, com edição limitada a 550 cópias chamada "Exile on Main Street", apenas com "covers" de Rolling Stones. Futuramente essa gravação seria incluída na coletânea "Corpse Love". 

Em Janeiro de 1987 outro EP, "Pussy Gold 5000". Pouco depois a modelo-namorada-guitarrista Martinez deixa a banda após sérios atritos com a outra guitarrista Julia Cafritz. "Right Now!" lançado pela Caroline Records, em Setembro de 1987, é efetivamente o primeiro álbum da "Pussy Galore" e o primeiro lançamento por outra gravadora. Mas, pouco tempo após o lançamento, o guitarrista Neil Hagerty deixa a banda e é substituído por Kurt Wolf. Hagerty voltaria a banda pouco tempo depois para a gravação e lançamento de outro EP "Sugarshit Sharp" um dos mais significativos da carreira da banda, que incluía "Yu-Gung", um cover da banda alemã de "industrial dance" “Einstürzende Neubauten”, misturada com trechos do "rap" Don't Believe The Hype" do Public Enemy. Neste EP também foi introduzido o novo logotipo da banda, uma mistura do "Yu-Gung Man" do Neubauten com uma imagem quase indecifrável do logotipo clássico dos Rolling Stones.

O segundo álbum "Dial M For Motherfucker", foi lançado em 1989, ainda repleto da formula "Pussygaloriana" de fazer musica, isto é: muito ruído, provocação e truques de estúdio, musicas que parecem estar girando ao contrário ou que terminam abruptamente, sem nenhum sentido aparente. Originalmente o disco era para ser chamado "Make Them All Eat Shit Slowly", algo como "Faça Todos Comerem Merda Lentamente", mas foi vetado pela Caroline Records. Cafritz, a guitarrista que teria sido o pivô da saída de Martinez da banda, aparece apenas em algumas das musicas e pouco depois deixaria a banda. Ainda nesse ano, o Pussy Galore lançaria seu "split", com um cover da Black Flag "Damaged II" tendo "Damaged I" com a banda Tad do outro lado, para a Sub Pop Records e posteriormente dividiria, para um lançamento da “Supernatural Records” japonesa, outro “single” com a banda de “Industrial” “Black Snake”.
Com a saída da guitarrista Cafritz, o trio Spencer, Hagerty e Bert lançam o último álbum em 1990 chamado "Historia de La Musica Rock" pela Caroline Records. A capa, uma paródia de uma série de compilações em vinil lançadas na Espanha chamada "Historia de La Música Rock".

Ainda em 89, Spencer e Martinez haviam se casado e fundado o “Boss Hog”, que alcançou certa notoriedade não apenas em função da música, mas também pela nudez dela, tanto em cena como em capas de discos. Neil Hagerty continuou sua carreira com a namorada Jennifer Herrema, no duo de Blues-Rock "Royal Trux". Cafritz e Bert se uniram no início de 1990 e lançaram um álbum auto-intitulado "Action Swingers". Em 1992 foi lançada a compilação "Corpse Love: The First Year" que incluía as faixas do cassete "Exile On Main Street", material inédito do inicio e entrevistas. Jon Spencer também formou o “Blues Explosion”, que lançou uma série de discos e ainda em 2012 continua gravando e se apresentando.

Discografia:
Albums
• Exile on Main Street - Cassette (1986, Shove) 
• Right Now! - LP (1987, Caroline)
• Dial M For Motherfucker - LP (1989, Caroline
• Historia de La Música Rock - LP (1990, Caroline)
• Corpse Love: The First Year - CD (1992, Caroline)
• Live: In The Red - LP (1998, In the Red)
EPs
• Feel Good About Your Body - EP 7" (1985)
• Groovy Hate Fuck - EP (1986, Shove)
• Pussy Gold 5000 - EP (1986, Shove)
• Sugarshit Sharp - EP (1988, Caroline)
Compilação
• Groovy Hate Fuck (Feel Good About Your Body) LP (1987, Vinyl Drip) 
Videos
• Maximum Penetration VHS (1987, Atavistic Video)




27/09/2012

O Suprassumo dos Subestimados - Parte 1 - Rolando Castello Junior


O Suprassumo dos Subestimados - Parte 1 - Rolando Castello Junior
Luiz Carlos Cichetto
Foto:Site Oficial de Rolando Castello Junior (Fotógrafa:  Lyrian Oliveira)

Há tempos atrás, quando comecei a publicar minhas listas no Whiplash, listas estas que despertaram a ira dos fanáticos a ponto de receber até mesmo ameaças veladas, tenho pensando sobre mostrar artistas e bandas que mereceriam ser melhor conhecidas pelo grande publico, mas que não o são por razões das mais diversas, hediondas e até criminosas possíveis. Sim até criminosas, pois os critérios usados pela mídia e pelas máfias das gravadoras e editoras de musica são dos mais perversos e violentos, destacando apenas aqueles cujos retornos financeiros são imediatos e garantidos. E nada como um cantor ou cantora bonitinho e ordinário, sem nenhum talento e devidamente remontados e remanufaturados em estúdio. Uma carinha bonitinha, uma bunda gostosa e dane-se se há talento artístico ou não.  

Aparentemente a máxima do sucesso "estar no lugar certo, na hora certa e com as pessoas certas" nunca se aplica aos verdadeiros artistas, particularmente que tocam Rock no Brasil. O chamado "Pop Rock", essa escrotisse inventada pelas gravadoras com o intuito de trajar de Rock bandas e artistas que nada tem a ver, parece ser a única coisa aceita. 

A mentalidade brasileira, mesmo mais de 50 anos do Rock ter chegado ao Brasil ainda o trata como "estrangeirismo" estabelecendo uma linha de atuação absurda que admite o Rock que é feito no exterior e chega aqui de todas as formas, mas não os artistas daqui. Velhos e caquéticos medalhões, que nem brilham tanto ou não brilham mais, são tratados como verdadeiras majestades não apenas pela mídia, mas pelo próprio público e pelos "artistas" da terra. Enquanto artistas do Rock internacional, milionários são tratados com pompa, gala e reverência e colocados em castelos; os daqui são tratados como parias e a pontapés. Enquanto artistas americanos e ingleses e de toda parte do mundo ganham fortunas enriquecendo ainda mais, os daqui ganham misérias e migalhas. Enquanto os "gringos" lotam arenas a preços exorbitantes, os "nativos" não recebem publico, nem a preços irrisórios. Uma demonstração clara de estamos ainda sob a égide do jugo, vivendo eternamente a condição de colonizados.

E para não perder o costume, estou criando uma outra lista. Mas a idéia agora é traçar o perfil de um artista em cada artigo, para que possa ser demonstrado de forma mais apurada o trabalho de cada um. Foi difícil criar esta lista, pois não queria deixar de lado ninguém que merecesse estar nela. Ser injusto com “Ídolos”, não me deixa com a consciência pesada, mas com pessoas que já por si só estão sendo injustiças pelas circunstâncias, me deixaria com a consciência pesando toneladas. 
Aeroblus Pappo, Rolando e Alejando Medina:
Fonte:  http://aeroblusoficial.com.ar

.: Rolando Castello Júnior 

Recentemente, Rolando Castello Junior foi eleito por uma revista argentina como "O Mais Grande Baterista do Mundo". Na matéria, Rolando é comparado aos grandes bateristas de Rock do Mundo, como John Bonhan e Keith Moon, ambos falecidos. E de fato, se fosse ele americano ou inglês estaria com seu lugar assegurado em qualquer lista dos melhores, cantado e ovacionado e merecedor de lugar de destaque em qualquer “Hall of Fame”. Mas como estamos no Brasil, pátria das chuteiras e das injustiças culturais...

Desde o inicio de carreira, ainda nos primeiros anos da década de 1970, com passagens por bandas no México (Parada Suprimida, Tarantula e Three Souls In My Mind), que ele se destaca, por sua técnica impar de tocar o instrumento. Em 1974, "Junior", foi o baterista do primeiro disco do “Made In Brazil”, o lendário “disco da banana”.  Em 1977 foi para a Argentina onde formou com o mestre da guitarra Norberto Pappo Napolitano uma das mais emblemáticas bandas portenhas, o “Aeroblus”, até hoje reverenciada e homenageada por todos os roqueiros do país de Maradona. E esse fato, aliado ao reconhecimento dos argentinos ao talento do baterista, fazem dele um ídolo.

Enquanto isso no Brasil... Rolando que foi um dos fundadores da “Patrulha do Espaço” juntamente com Arnaldo Baptista, segue carregando o legado da banda nas costas por 35 anos, tendo gravado com a “Patrulha” cerca de 20 discos, além de participação em discos de outras bandas e artistas do Rock “Nacional”. Segue em frente, tocando e ainda acreditando no Rock, como poucos.

Dono de uma técnica insuperável no instrumento, Rolando é referenciado pela maior parte dos grandes bateristas brasileiros como Paulo Tomás do Baranga, Paulo Zinner, ex Golpe de Estado e dezenas de outros. Sua forma de tocar é inconfundível e única, frutos de uma genialidade nata aliada a fatores de superação física. Embora não goste de falar sobre o assunto, Rolando teve poliomielite na infância que deixou fortes sequelas, que decerto colaboraram com sua forma de usar o instrumento.

Há um tempo atrás, li uma matéria sobre medicina em que um ortopedista dizia que a genialidade de Garrincha se devia a um "defeito físico" nas pernas que mudava todo o seu centro de gravidade e que isso, aliado à sua genialidade genética o transformara num gênio. Um gênio sufocado por Pelé e seu Marketing Pessoal melhor construído. Não vejo uma comparação melhor do que a existente entre Rolando e Garrincha, pois enquanto Pelé é um milionário, Garrincha morreu pobre. A esperteza e ganância da mídia fazem ídolos a seu bel interesse e, por mais genial que um ser possa ser, ele jamais desfrutará dos justos patamares de glória caso não se "venda", de alguma forma, a seus interesses mesquinhos. 

E assim, por estes e outros obscuros motivos, o trabalho de Rolando Castello Junior permanece desconhecido da maior parte do publico, mesmo dentro do publico de Rock, que normalmente rende glórias aos grandes bateristas da história do Rock e desconhece que aqui mesmo existe um músico, vivo e produtivo e que ainda coloca nos ares sua banda, com muito esforço e dedicação a um Rock que, tal como o restante da Cultura nacional é cega, surda e muda.

E, usando ainda a comparação com o futebol, atualmente se rende loas a "cabeças-de-bagre" (usando um jargão futebolístico), como os "neymares" e se acredita (porque a mídia assim o impôs) que Pelé foi o maior craque de todos os tempos. Mas se esquece ou não se conhece a genialidade de Manuel Francisco dos Santos, o Garrincha. E se rende homenagens a tocadores de bateria e fazedores de barulho como (Huuuuum, deixa pra lá!...) e desconhecem o talento, e porque não dizer a genialidade, de Rolando Castello Júnior.

Ah, os argentinos acham que foi Maradona o maior, mas sempre lembram que Rolando Castello Junior é o "Mais Grande Baterista do Mundo". Futebolisticamente falando podem estar errados, mas com certeza, entendem de Rock melhor do que “nosostros”.
Disco Mais Recente da Patrulha do Espaço (2012)
http://www.patrulhadoespaco.com.br

Discografia Completa:
(Em Ordem Decrescente)
2012 - Patrulha do Espaço - Dormindo em Cama de Pregos - Indie
2007 - Patrulha do Espaço - Capturados ao Vivo no CCSP  -  Voice Music
2006 - Aeroblus - Aeroblus (Digipack) - Universal
2006 - René Seabra - As Cores de Maria - Lâmpada Records
2005 - Brasil Papaya - Esperanza - Beluga
2004 - Patrulha do Espaço - Missão na Área 13  -  Indie
2003 - Patrulha do Espaço - Sim São Paulo - Baratos Afins
2003 - Patrulha do Espaço - Compacto - Indie
2003 - Patrulha do Espaço - Demo Sul - Braço Direito Records
2002 - Patrulha do Espaço - Dossiê Volume 4 - Indie
2001 - Patrulha do Espaço - Música Para Reciclar
2000 - Patrulha do Espaço - Chronophagia  -  Indie
1999 - Made in Brazil - Made in Brazil - BMG
1998 - Relespública - E o Rock’n’Roll Brasil!? - Indie
1998 - Patrulha do Espaço - Dossiê Volume 3 -  Baratos Afins
1998 - Patrulha do Espaço - Dossiê Volume 2 - Baratos Afins
1997 - Patrulha do Espaço - Dossiê Volume 1 - Temptation
1997 - Aeroblus - Libre Acceso / Aeroblus - Polydor
1995 - Made in Brazil - Acervo -  RCA
1994 - Patrulha do Espaço - Primus Inter Pares - Aqualung
1993 - Beijo AA Força - Coletânea - Tinitus
1993 - Aeroblus - Aeroblus -  Phillips
1993 - Quantum - Quantum -  Record Runner
1993 - Beijo AA Força - Beijo AA Força  -  Tinitus
1992 – Pappo - El Riff - Trípoli Records
1990 - Cemitério de Elefantes - Coletânea - Vinil Urbano
1989 - Maria Angélica - Outsider - Vinil Urbano
1989 - Arnaldo e Patrulha do Espaço - Elo Perdido - Vinil Urbano
1988 – Arnaldo e Patrulha do Espaço - Faremos uma Noitada Excelente  -  Vinil Urbano
1986 - Inox - Inox - CBS / Epic
1985 - Patrulha do Espaço - Patrulha 85  -  Baratos Afins
1983 - Mario Garcia - Sr. Cisne - Indie
1983 - Quantum - Quantum - Café
1983 - Patrulha do Espaço - Patrulha do Espaço 4 -  Baratos Afins
1982 - Patrulha do Espaço - Patrulha do Espaço - Baratos Afins
1981 - Patrulha do Espaço - Patrulha do Espaço - Seta / Ariola
1980 - Patrulha do Espaço - Patrulha do Espaço - Halley
1979 - Billy Bond - Billy Bond and The Jets - Sazan
1977 - Aeroblus - Aeroblus - Phillips
1975 - Made in Brazil - Coletânea - RCA
1974 - Made in Brazil - Made in Brazil - RCA
Internet:
.: www.rolandorock.com
.: www.patrulhadoespaco.com.br
.: www.aeroblusoficial.com.ar 

Entrevista de Barata Cichetto com Rolando Castello Junior - KFK Webradio - 2012


(Apertura del Tributo a Aeroblus encabezada por Castello, Medina y Chizzo Napoli, ademas contó con la Participación Millo , "Tete" y "Tanque" Iglesias.)

(Virada Cultural de São Paulo - 2010 - "Festa do Rock" - Vocal Percy Weiss)

26/09/2012

26/09/2012

O Que Eu Poderia Ter Sido, o Que Fui... E o Que Sou...


O Que Eu Poderia Ter Sido, o Que Fui... E o Que Sou...
Luiz Carlos Barata Cichetto

Eu poderia ter sido muitas coisas, pois afinal sempre fui muito curioso, sempre apreciei leituras e musicas, sempre gostei de aprender e de pensar. E principalmente sempre fui muito apaixonado por tudo aquilo que me interessava e, portanto muito dedicado a meus interesses. E aprendia com muita facilidade por esses motivos. Sem muito esforço, durante o curso primário (designação do 1º ao 4º anos do que seria hoje equivalente ao ensino fundamental) durante três dos quatro anos fui considerado o melhor aluno da sala e da escola. Era natural para mim ser dessa forma. No Ginásio (equivalente a 5ª a 8ª séries) tive meu primeiro contato com o Inglês e aprendi com muita facilidade.

Aos 12 anos de idade era um "Auxiliar de Ambulante", puxando um carrinho de mão pesado e repleto de vasos de plantas que meu avô fabricava, isso depois de ser o responsável pela alimentação do viveiro de coelhos da criação doméstica de meu pai. Aos 14, um eficiente Office-Boy que rasgava a jato as ruas de São Paulo entregando encomendas e envelopes. Aos 15 e 16 bancário de gravata e paletó. Dos 17 aos 20 um dedicado funcionário de arquivo com especialização no que se desenhava como a panaceia aos montes de papel: Microfilmagem. E neste ponto o que eu poderia ter sido se contorce de raiva em relação ao que fui.

Desde garoto sempre gostara de escrever. E sempre rabiscava minhas histórias, contando coisas simples de um garoto de 10, 12, 14 anos. Eram contos no início, poesias depois. E eu queria ser Jornalista. E teria sido um bom jornalista, acaso não tivesse dado ouvidos a um primo mais velho que eu respeitava como a um irmão. Não fui, mas poderia ter sido... O tempo passou e com ele o desejo e as oportunidades...

Mais tarde, comecei a escrever e mimeografar "jornaizinhos" e distribuir em portas de teatros. Depois veio a edição de livro de poesia e depois... Depois o abandono dos estudos no final do que seria atualmente o Ensino Médio. O fascínio pela escrita, pelas histórias de vida das pessoas e principalmente pelas putas da Boca do Lixo era maior que o desejo de ter uma profissão, uma formação e consequentemente dinheiro. Cursar uma faculdade na época era muito difícil, muito mesmo. As faculdades eram raras e ou caras. E as putas eram abundantes e baratas. Ah, as putas e suas histórias eram o que alimentavam minha paixão. A paixão pela escrita e pelas coisas "proibidas". Nessa época, tive muitas oportunidades de ser cafetão em função possivelmente da forma como eu tratava aquelas mulheres. E então... Não fui, mas poderia ter sido.... O tempo passou e com ele o desejo e as oportunidades...

Paralelamente, gastava quase todo meu dinheiro em discos, shows e revistas de musica. Criei bandas imaginárias como a maioria dos "caras" da minha idade. Alguns deles transformaram essas bandas em realidade, mas não eu. Adorava o som do contrabaixo e, ao contrario de meus amigos, eu nunca quis ser guitarrista ou vocalista. Não tinha dinheiro para comprar ou aprender instrumentos musicais e no fim achei que meu papel na musica seria o de falar sobre ela e o fazia nos "jornaizinhos" mimeografados impressos por amigos.  Eu poderia ter sido músico. Não fui, mas poderia ter sido... O tempo passou e com ele o desejo e as oportunidades...

Mas num determinado momento nada mais parecia me encantar, nem putas, nem musica, nem sonhos. Tinha algo faltando e eu não conseguia mais sonhar. Ao menos não a sós. E fui ser casado, fui ser pai. Não queria mais criar sonhos, nem idéias, nem mais nada. Apenas filhos. Abri mão dos desejos de ser cafetão, músico, jornalista e principalmente abri mão da poesia e fui ser pai. Fui presente, ensinei meus filhos a pensar com sua própria cabeça, a não acreditar em verdades absolutas. Fui contra todas os ensinamentos pedagógicos e psicanalíticos e desejei transformar filhos em amigos e ensinei-lhes o valor da leitura dando a eles desde muito pequenos, livros para que tomassem contato. FUI, mas poderia NÃO ter sido... O tempo passou e com ele o desejo e as oportunidades...

Abri mão de minhas vaidades pessoais, de meus desejos mundanos e aceitei a tudo, resignado e absorto na única coisa que me era importante: filhos.  E aos 25, 35 e 45 anos de idade fui muitas coisas, de datilografo a projetista de brinquedos, de desenhista de concreto a sócio de pequena empresa. E fui tudo isso por ser pai. E FUI, mas poderia NÃO ter sido.... O tempo passou e com ele o desejo e...

Aceitei mentiras, acreditei em deuses, santos e milagres. Queimei livros “proibidos”, escrevi receitas de bolos, cacei bruxas e fui caçado por santas e putas. Fui ao Inferno, ao Purgatório e a lugares “onde ninguém jamais esteve.” E era assim a minha Jornada. Uma jornada sem palavras, sem estrelas e sem volta à Terra. Fui um passageiro da minha própria nave. Sem comando. E fui tudo isso por ser pai. E FUI, mas poderia NÃO ter sido.... O tempo passou e com ele...

E decidi que agora que eram homens, seria também o momento de eu tornar a ser. A poesia teria ficado esperando? Meus sonhos ainda estariam a minha espera? E o que mais? As oportunidades ainda existiriam? Queria sonhar outra vez, queria fazer outra vez. E FUI, mas poderia NÃO TER IDO... O tempo passou...

O tempo passou e ainda existem os sonhos, ainda existe o que eu queria ter sido, mas sobra apenas o que sou. E as oportunidades...? E o que sou é o que eu NÃO TERIA SIDO. E não sou nada daquilo que poderia ter sido e nem sequer aquilo que querem que eu tenha sido. Mas sou o que FUI, sem nunca TER SIDO. O tempo...

26/09/2012

Nascimento, Vida, Paixão e Morte do Rock no Brasil

Nascimento, Vida, Paixão e Morte do Rock no Brasil
Luiz Carlos Barata Cichetto
Foto: http://aguasclarasfestival.blogspot.com.br

A história do Rock no Brasil começou ainda em 1955, com a gravação de "Rock Around The Clock" de Bill Halley, com o título traduzido para "Ronda das Horas" pela cantora de sambas de fossa Nora Ney. A primeira das primeiras gravações de Rock em português foi feita dois anos depois com Cauby Peixoto ("Rock´n´Roll em Copacabana"). Nessa mesma época, conjuntos como Luizinho e Seus Dinamites, Betinho e Seu Conjunto e outros fizeram suas gravações naquele ritmo que chegou a ser proibido nos por governantes que o consideravam "obsceno". Nos anos 1960, com chegada da Ditadura Militar com sua censura moral e política por um lado e por outro da Jovem Guarda, uma tentativa de se trazer o tal de Rock’n’Roll para cá de uma forma mais amena e pasteurizada, o Brazilian Rock se arrastou, embora muita gente teimasse em abrir esse espaço. Nos anos 70 o Rock viveu no Brasil seu maior momento, ao contrário da história contada hoje à revelia dos fatos. A explosão do Rock Progressivo no mundo e a abertura dos portos (e aeroportos) brasileiros a músicos estrangeiros no auge da carreira a partir da primeira metade da década, trouxeram às terras abaixo da linha do Equador a chance de se produzir e criar Rock, mesmo que debaixo das botas militares e sem alcance a equipamentos e instrumentos de boa qualidade, cujas importações eram proibidas. E surgiram então centenas e centenas de bandas, começou-se a pensar e realizar festivais de médio e grande porte e as gravadoras abriram um pouco as portas às bandas de Rock. 

Parecia que o Rock no Brasil estava mesmo arraigado e estabelecido como a opção dos "jovens" de todas as idades. O Terço e Os Mutantes tocavam Beatles no Teatro Municipal de São Paulo, surgiam festivais como os de Iacanga em São Paulo e Hollywood Rock no Rio de Janeiro. Ginásios de futebol, como o do Palmeiras, da Portuguesa e do Corinthians e teatros particulares e das prefeituras recebiam festivais e temporadas de bandas, sempre lotados. “Banana Progressiva” e Festival Latino Americano de Rock”, temporadas do Made In Brazil e Chave do Sol no Paulo Eiró e até casas especificas com a lendária “Tenda do Calvário” e salões de Rock aos borbotões tocando Rock pelas tarde e noites adentro como a Led Slay, Fofinho, Tarkus, Templo do Rock, Paraíso dos Loucos e muitas outras onde além de discos de bandas estrangeiras sempre abriam espaço para o Rock Brasileiro.  E as bandas, empurradas e entusiasmadas com esses espaços e a presença do publico surgiam aos montes. Ave Sangria, Chave do Sol, Rock da Mortalha, Lírio de Vidro, Arnaldo e A Patrulha do Espaço, Terço, Novos Bahianos, Vímana, Joelho de Porco e muitas outras surgiam e tinham seu publico fiel e garantido. 

Mas, ainda no final dos 70, a chegada do Punk ao Brasil, apesar de trazer novos ares, trouxe consigo um furacão que viria a derrubar todos os sonhos até então. O "movimento" Punk era um fenômeno puramente inglês, com causas e consequencias locais. Aqui, apenas uma caricatura mal feita, sendo responsável por uma divisão nas trincheiras já não muito resistentes do Rock Brasileiro. As tardes de Rock na Estação São Bento do Metrô, criadas como espaço de bandas emergentes e independentes, logo foi dominada pela violência gratuita de uma leva de Punks o que culminou com o fechamento do espaço.

Até que na década de 80, a indústria fonográfica e a mídia global começaram a polir o Rock, transformando em algo mais palatável ao "gosto brasileiro".  Isto significava irrediavelmente uma infantilização do Rock, ou melhor, uma idiotização do Rock, tornando-o mais comercializável. E da-lhe então bandas infantilóides como Blitz, RPM, Capital Inicial, Legião Urbana. O "Rock In Rio" tido como um marco do Rock no Brasil, foi sim um divisor de águas, sendo que a partir dele, tudo degringolou trazendo uma quantidade de bandas querendo conquistar seu espaço tocando o que foi chamado de "Pós Punk", “Proto-Isso” Prato-Aquilo”. Estava criada a cultura dos rótulos e consequentemente a divisão do “Exército do Rock” em pequenas divisões de uma infataria fraca e sem comando. Perdidos. 

Paralelamente o "Metal" começava a tomar conta das cabeças, mas o que até então era desenhado como "Rock Nacional" foi transformado em rascunho, passando a maior parte a ser meras copias de estilos, letras, gestos e atitudes das bandas e artistas estrangeiros. 

Chegamos assim aos anos 90, uma década perdida sob todos os aspectos, definidos pela frustração logo no primeiro ano com a primeira eleição de Presidente da República das ultimas décadas. E tal e qual a política, o Rock Brasileiro foi de fracassos a fraudes passando pela insipiência e total falta de criatividade. Com o inicio do terceiro milênio, o avanço tecnológico e as facilidades na veiculação e acesso à informação poderia ter trazido às terras brasileiras no que tange ao Rock uma sedimentação. Mas o que ocorreu foi justamente o contrário. Os artistas das bandas "antigas" se cansaram das dificuldades e muitos abandonaram o barco, outros trocaram de bandeira e foram ganhar dinheiro mais fácil. A história foi se perdendo, as referências apagadas. Pouco sobrou e também pouco interessava a essa "nova" legião de "roqueiros" que tinham fácil acesso a instrumentos, sistemas de gravação e distribuição de musica.

Iludidos por uma fama de "15 minutos", a maioria optou pelo caminho fácil e pouco trabalhoso. A forma passou a ser mais importante que o conteúdo, a vaidade mais que qualidade e o tesão maior que a emoção. Poucos sobraram com aquela disposição de transformar o Rock no Brasil senão em dominante, mas em opção. Senão em hegemônico, mas como parte de um harmônico caldo cultural, que é afinal o que diferencia uma grande cultura de uma falácia cultural. Essa mesma sempre fomos.

E por fim, analisando o contexto histórico do Rock Brasileiro, percebemos que não foram as gravadoras e a grande mídia apenas os únicos responsáveis pela morte precoce do Rock por cá. A falta de visão e de cultura, aliada a vaidade excessiva da maior parte dos músicos brasileiros foi o grande responsável por esse falecimento. Explicando: enquanto o Rock nos Estados Unidos da América surgiu dos guetos pobres, dos artistas de Blues que buscavam na musica a expressão de sua dor e de sua emoção maior, aliados a musica caipira (Folk) que remetia às também dores da terra e ao Jazz, musica de bêbados, vagabundos e intelectuais, o Rock no Brasil foi tomado pelas elites jovens, daqueles filhos da burguesia cansados de escutarem a Musica Popular Brasileira de seus pais. Eram eles, e apenas eles, que tinham acesso a comprar instrumentos, equipamentos e discos importados. E foram eles que tomaram para si a "missão" de tocar Rock. Isso fica patente nos temas, nas letras da maioria da bandas brasileiras até hoje em dia. O trinômio "Carrão/Moto&Mulher&Bebida" sempre foi a temática principal, como se outras preocupações não fizesse parte do seu dia-a-dia. Atitude típica de classe média/alta. 

Tal afastamento da realidade da imensa maioria da população, com temas e instrumentos que eram inacessíveis a ela, fez com que o Rock não atingisse as periferias, que continuava a escutar Samba e outros gêneros mais “populares”, com temática e instrumental mais próximos de sua própria realidade. Era muito mais fácil para um garoto pobre da periferia chegar a comprar um violão e tocar Samba falando de sua realidade, do que uma cara guitarra ou baixo e falar sobre algo que não lhe dizia muito respeito, como a vida na estrada de um motociclista pilotando uma potente Harley Davidson. O Pagode, uma versão "Pop", ou seja mais simplificada do estilo tomou seu lugar, principalmente nas faixas de idade mais baixas. A chegada do "Rap" e "Hip Hop" deu a molecada da periferia o lugar que o Rock deveria ter tomado bem antes, com temas e instrumental acessível. O moleque do subúrbio não queria de fato saber do Punk, pois inconscientemente ele sabia que não tinha a ver com sua realidade. E assim se fez, e assim foi. 

E enquanto os roqueiros brasileiros, que, aliás, nunca tiveram nada de bandidos, se debatiam para ter espaços sem deixar seu próprio quadrilátero nos bairros de classe média e alta, esses "movimentos" tomaram literalmente de assalto às mentes da garotada. O chamado "Funk Carioca", que nada mais é do que um reflexo de uma sociedade que oscila entre sexo fácil e drogas baratas, usa disso como instrumento de fuga das dificuldades cotidianas. Enquanto isso, o Rock brasileiro ainda fala do mesmo trinômio e acrescenta bruxas, dragões alados e duendes.

Um parêntese com relação a uma frase decantada, requentada e repetida por muitos músicos e artistas, de autoria de Milton Nascimento: “Todo artista tem de ir aonde o povo está.” Sob o ponto de vista de postura cultural e política, um artista tem que ser provocador e inovador, ditando tendências culturais, nunca ir na tendência da manada popular. Mas isso tem que ser levado “onde o povo está” e não esperar que este venha até ele. Em outras palavras, o Rock tinha que ter ido até as periferias, aos guetos mais pobres e mostrar ao “povo” seu espírito provocador e inovador, não esperar que ele saísse da periferia por livre e espontânea vontade e os fosse procurar em seus redutos. Mas a arrogância e a preguiça da maioria dos artistas fez com que preferissem ficar no papel de um Maomé esperando que a montanha chegasse até ele.

Enfim, o Rock no Brasil perdeu sua grande oportunidade de ser o que foi na maior parte dos paises onde se estabeleceu e se firmou: um catalisador de idéias e cultura, um aglutinador de pessoas e um porta-voz dos jovens de todas as idades. O Rock perdeu o trem da história do Brasil. E esse trem não para em todas as estações. "Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma."

24/09/2012

23/09/2012

Selvageria – “Selvageria”


Selvageria – “Selvageria”
Luiz Carlos Barata Cichetto

Usando e abusando de todos os clichês do gênero Speed/Thrash Metal, a banda “Selvageria” por horas soa como retrô, resgatando a sonoridade do Metal Brasil dos anos oitenta, outras soa "moderna" com a atualização do estilo de forma criativa, falando de temas recorrentes como guerras apocalípticas, o mal e o inferno e referencias ao próprio estilo. Uma das letras, a que mais me chamou a atenção, foi a de "Cinzas da Inquisição" que em seu inicio fala: "Fugindo de assassinos, o terror dos inocentes / Medo e terror em seus olhos, pânico rodeia sua mente / Perseguido por furiosos, atacado pela multidão / Corpos queimados, enfileirados, fogueiras acesas, a dor e o terror / Cinzas jogadas, no meio das praças, o fogo ardendo e muita dor ..."  

Também a busca pela união da sua “tribo”, sempre um tema muito utilizado pelas bandas do Metal é fartamente usado pelo “Selvageria”. Ao menos duas das musicas falam desse assunto: "União Total" e "Hino do Mal" . O fato é que entre todas as tribos dentro de todas as vertentes do Rock, ai incluído o Metal, as que mais conseguem essa união é justamente o pessoal das denominações "’AlgumaCoisa-Metal". São eles que ainda conseguem levar algum publico a apresentações. E um publico ativo e participante.

A "Selvageria" foi formada em 2005 em São Paulo e nesse mesmo ano lançou a demo "Metal Invasor". Sempre com letras em português, o que sob meu ponto de vista já é um ponto positivo, a banda chegou ao primeiro semestre de 2010 com algumas mudanças de formação e lançou seu primeiro disco, homônimo, pela “Dark Sun Label”,  propriedade da “Dies Irae”, com a produção e mixagem de Rodrigo "Skillo" Toledo. Em 2011 a Selvageria participou do "Metal SP Festival" no Blackmore Rock Bar, que teve como atrações principais duas lendas do estilo, o “Vulcano” e “Salário Mínimo”. O visual da banda é o clássico "headbanger", carregado de rebites, correntes, cintos, calças apertadas e tênis brancos de cano alto.

Enfim, Selvageria” não faz nenhuma grande masturbação mental, não traz idéia absolutamente nova em relação aos destinos do planeta, mas serve a seu propósito, que é o de fazer o pessoal bater cabeça, resgatando e atualizando o que existiu de melhor no Metal brasileiro dos anos 80, tida por muitos como a década perdida e para outros a melhor de todas.

Uma critica pessoal com relação ao CD físico, é que achei o desenho da capa assinado pelo guitarrista Capi, apesar das referencias terem sido muito bem pensadas (lobisomens, caveiras, dedos sangrentos e referencias paulistanas que deixam claras suas origens), tem um traço um tanto simples demais para o tema. Talvez uma montagem fotográfica funcionasse melhor. E a impressão do encarte, com letras em tipo gótico em um vermelho muito forte sobre o fundo preto dificulta absurdamente a leitura.

Por fim, o CD "Selvageria" da banda homônima tem muitos pontos altos e pontos baixos, mas no geral é um trabalho que merece e precisa ser escutado por todos aqueles que apreciam o estilo, e de forma geral se interessam por Metal cantado em português e tocado com competência. 

Faixas:
1 - Trovão de Aço
2 - Metal Invasor
3 - Na Lâmina da Foice
4 - Águias Assassinas
5 - Hino do Mal
6 - União Total
7 - Cinzas da Inquisição
8 - Garra do Cão
9 - A Serviço do Mal

Formação Atual:
Gustavo - Voz
Capi - Guitarra
Tomás - Baixo
Andrei (Baixo, no disco)
Danilo Toloza - Bateria

Referencias na Internet:
http://letras.mus.br/selvageria/
http://www.myspace.com/selvageria