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02/12/2012

Insônia

Insônia
Luiz Carlos Barata Cichetto

O que faço acordado às cinco da manhã, perguntou minha mulher. Faço escritos, faço escritos, disse eu, constrangido por estar acordado numa ainda madrugada de domingo, enquanto a maioria das pessoas dormem o sono reparador das mágoas e cansaços da semana, outros chegam da balada bêbados e mal amados e outros ainda acordam para ir a igreja distante em busca de algo tão perto. Mas é domingo, disse ela, com cara de sono, já que foi acordada pelo matraquear do meu teclado. A poesia não descansa, e não tem fim de semana; disse eu com cara de azedo. Não tem descanso semanal remunerado, não tem férias nem décimo terceiro salário; completei com começo de irritação. Minhas gatas ronronam e se acomodam no meu colo e minha mulher desiste e retorna para a cama quente enquanto eu ainda espero pela inspiração que talvez chegue junto com os primeiros raios da manhã. O Sol sairá hoje, ainda penso enquanto olho o cursor solitário e idiota piscando na tela do computador e bato nas teclas esperando que o som acorde minha inspiração. Estou perdendo tempo, penso. Mas o tempo é a única coisa que um poeta tem a perder, porque é a única coisa que lhe pertence.”Quem não tem nada, nada tem a perder”, disse o poeta na canção. E eu perdi a canção, perdi o tempo e perdi a hora. Estou atrasado. Que faço acordado às cinco e meia da manhã, pergunta o Sol esfregando os olhos, enquanto a ultima estrela solitária ainda pisca. O Sol é o único que não perde o tempo nem perde a hora. E agora eu lhe respondo que esperava sua chegada, desejo-lhe um bom dia – talvez devesse desejar boa noite - e vou dormir. A poesia? Ah, bem, a poesia pode esperar até que chegue outra noite. Ou dia.

01/12/2012

A Cadeira (Baseado em Fatos Reais)

A Cadeira (Baseado em Fatos Reais)
Luiz Carlos Barata Cichetto

Minha cadeira quebrou. Era de ferro, velha, estava enferrujada e foi soldada por um soldador pouco habilidoso. Desmontou e eu me esborrachei no chão, batendo as costas e a cabeça no piso da sala. Quase rachei a cabeça e quebrei alguns ossos das costas, mas entrei em desespero quando vi aos pedaços a minha cadeira. "Só me faltava essa agora!" Pensei enquanto jogava os pedaços no quintal, quase acertando a gata.

Minha cadeira, o que faço sem minha cadeira?  Sou agora um escritor sem uma cadeira e isso é um sério problema. Como escrever? De pé? Sentado no chão com o teclado do computador no colo? Como escrever sem ela? Como concentrar-me em pensamentos? Como acender o cigarro e apoiar os cotovelos sobre a mesa, buscando as idéias fugidias que comporão minha próxima obra? Estou aleijado, morto, sem capacidade de reação, de criação e minha inspiração parece que se partiu em pedaços, juntamente com a cadeira.

Um banco de plástico? Um banco de plástico não é uma cadeira, não a um escritor. A um escritor, uma cadeira tem que ser de fato uma cadeira. Não é a toa, que o premio máximo de um escritor é uma Cadeira na Academia de Letras. A cadeira é o trono de um escritor, onde ele exerce o papel de imperador sobre sua obra, decidindo o destino de seus personagens, matando-os ou fazendo-os amar, odiar, caminhar, matar.  E é de sua cadeira que um escritor comanda, cria ou destrói mundos  E agora, eu perdera meu poder quando meu trono, de ferro, espuma e tecido se espatifou. Tive a nítida impressão que escutei gritos quando ela se quebrou...Seriam os meus?

Minha cadeira não era comum, dessas que tem quatro pernas, era daquelas de escritório, com rodízios que deslizam. É bem possível que tenha pertencido a um escriturário entediado ou a um chefe de repartição que a usava como o trono de um rei efêmero a ditar ordens a subordinados amedrontados. Quem sabe até quantas orgias teriam acontecido sobre ela, com secretárias em busca de promoção e diretores de satisfação. Ela tinha rodas e com ela eu deslizava da mesa ate à estante em busca de algum livro importante. E como fazer isso agora, como eu poderia chegar até a estante sem as rodas mágicas da minha cadeira? 

Não era cara, a minha cadeira, eu a encontrei abandonada numa calçada, abandonada, partida e rasgada. Parecia triste ali, naquela calçada, e eu a recolhi e a consertei como quem cura as feridas de um cachorro ou de uma amante. E como o dono e um cachorro ou como amantes, fomos úteis um ao outro durante anos. E parecia também que ficaríamos juntos para sempre. Mas a fadiga do velho metal e a incompetência da solda mal feita tinham colocado o fim naquela eternidade.

Mas ontem, quando eu me preparava para escrever a obra prima da minha vida, meu grande livro, minha maior história, ela estalou e quebrou, me jogando no chão frio. Maldita cadeira! Até pensei em escrever um poema ou uma crônica sobre a cadeira quebrada, mas desisti da idéia, pois quem afinal leria sobre uma cadeira quebrada? Escrever sobre uma cadeira quebrada... Ah, coisa de louco, maluco mesmo... Que escritor com alguma insanidade escreveria sobre isso? Cadeira maldita!

E então minha obra não saiu, as palavras não saíram, o livro não saiu. E estranhamente não me senti mal por isso, pois agora, ao olhar aqueles pedaços de ferro, espuma e tecido, abandonados no quintal sob a chuva e o sol, ainda penso com tristeza sobre cães feridos, sobre amantes perdidas... E sinto falta da minha cadeira.

30/11/2012

Π2 - (PI ao Quadrado - Politicamente Incorreto ao Quadrado)

Π2 - (PI ao Quadrado - Politicamente Incorreto ao Quadrado)

Estou lançando um novo projeto digital: uma revista em PDF, com o objetivo de publicar cronicas, contos, poemas e imagens relacionados ao contexto do POLITICAMENTE INCORRETO, que é de fato um movimento de resistência à ditadura fascista e hipócrita do Politicamente Correto reinante nessa nossa sociedade que caminha para a esterilização. Convido aos amigos que queiram colaborar com suas artes que as envie para meu e-mail: barata.cichetto@gmail.com, juntamente com uma pequena biografia. Ah, e mandem logo, pois o lançamento é no dia do FIM DO MUNDO. O nome da revista é Π2 - (PI ao Quadrado - Politicamente Incorreto ao Quadrado). Aguardo suas colaborações.

Serviço:
Π2 - (PI ao Quadrado - Politicamente Incorreto ao Quadrado)
Revista Virtual
88 Páginas
Formato: PDF
Lançamento: 21/12/2012

Rock da Mortalha


Rock da Mortalha
Raymundo Raine

Última formação da banda em 1979: Orlando Lui (Baixo e Vocal), Marcos Baccas (Guitarra e Vocal), Marco Carvalhanas (Bateria), Participação Especial de Lola (Dançarino).

O embrião desse “power trio”  maldito nasceu em 1968 à margem do bairro histórico do Ipiranga, São Paulo, através da dupla Orlando Lui (Baixo e Vocal) e Marcos Baccas (Guitarra e Vocal) e chamavam-se “Os Bizimbetas”. Nesta ocasião fabricaram suas guitarras e começaram a trilhar a cena bailesca. Em 1969, mudaram o nome para “Missa Negra” e em paralelo o duo foi convidado a em um outro grupo de baile “Os Jades”. Em 1970 tocaram com o “Apollo 5” e com “Os Beatmans”. No limiar dos anos 70 (1971) tocaram com os “Slaves Of Drug” e com “Os Belsons”.

Em 1972, num aprendizado voraz, o duo ainda tocou com “Os Flippers” e, finalmente, com “Os Sifu’s”, último conjunto de baile. Em Setembro desse ano, Orlando (Landinho) contraiu hepatite e ficou recluso por três meses. Fora visitado diariamente por Marcos e ambos começaram a compor repertório próprio, marcado pelo “Hard Rock” e cantado em português.

Verão de 1973, Orlando, místico e inspirado em gibis de terror, grita o nome da lenda “Rock da Mortalha”. Surge a trindade pesada tupiniquim com a adesão do baterista Julinho. Passa a usar vestes negras, portando capas de morcego, tarjas e botas de soldado. Envolvem-se com magia e drogas. No repertório, cantam a luta permanente entre o “Bem” e o “Mal”, falam de reencarnação, buscam o transcendental.

Em Janeiro de 1974 participam do I Festival de Águas Claras em Iacanga (Bauru, SP), encerrando a noite com uma performance que eletrizou seu primeiro grande público. Nessa ocasião havia uma galera argentina que registrou-os em fita cassete. Foram vistos como o “Black Sabbath Tupiniquim”. Um ledo engano e confortante exagero, pois buscavam sua identidade e eram “Sui Generis” comparados às outras bandas de Sampa. 

A partir de então, seu nome começa a ecoar pelos quatro cantos o país. Onde tocaram fizeram estremecer o “Underground”, abalando os pilares sombrios da Ditadura. Numa época em que não se cogitava o Black Metal. Na abertura do show, Orlando escondia a face sob a luz negra, portando um crânio humano ao braço, dando início a um ritual macabro. Monologava sobre nosso cotidiano infernal enquanto um som tétrico envolvia Lola, um bailarino dantesco arrastando-se no palco movediço de gelo seco. Em seguida, Marcos arrancava “riffs” poderosos da partitura da Morte e o público era abençoado pelo anjo do Rock and Roll.

No ano de 1977, chegaram a gravar em 4 canais no Estúdio da Pirata, cujo dono Aurino, é irmão de Eduardo Araújo. Receberam convites sinistros de empresários e seitas satânicas. Nessa época foram rotulados de fazer um “Rock Putrefato Pesadíssimo”. Houve fãs seguidores: um deles vestido á caráter, levou um caixão a um concerto. Participaram de programas de TV, vários festivais, tocaram e inúmeros teatros e bocadas. No ano seguinte, 1978, a banda chega ao auge, troca músicos, muda de visual e termina em 16 de Abril de 1976, quando muda de nome para “Xock”.

Ao começar a década de 80, mudam de nome para “Crisálida” mas ai começa outra longa história... Infelizmente, Marcos e Orlando faleceram há pouco tempo. Seu primeiro baterista pirou e perambula por ai como um fantasma bêbado, atormentado pela própria lenda.

(Texto escrito em memória de Orlando Lui (Landinho), falecido em 23 de Dezembro de 2003.)

Raito Raine
captainray@bol.com.br

29/11/2012

Sobre Amigos e Calcinhas

Sobre Amigos e Calcinhas
Luiz Carlos Barata Cichetto

Texto escrito como trabalho prático na Oficina de Literatura: Vida e Ficção, Coordenação: Deborah Goldemberg, Oficina da Palavra Casa Mário de Andrade, 22 a 30/11/2012. O texto abaixo é o apresentado na Oficina e na sequencia as alterações propostas.


(Mulher Sentada com a Perna Esquerda Dobrada - (Edith Schiele), 1917 - Praga, Národní Galerie)
Meu Amigo Andrade

Andrade é meu amigo há uns 30 anos e um profundo conhecedor de literatura. Mas não como acadêmico e sim como voraz leitor, desde menino, de qualquer coisa que se aproxime de suas mãos e olhos. Na adolescência, quando o conheci, era daqueles que passavam noites e noites em claro lendo sobre os mais diversos assuntos. Da poesia clássica à medicina nuclear, qualquer coisa interessava ao Andrade. E embora sua aparência física ou sua forma de se vestir e portar não fossem fora do convencional, era tido como “o cara estranho” da turma, sempre com livros debaixo do braço e a conversa girando em torno de grandes autores da literatura. Enfim, meu amigo Andrade era um sujeito muito esquisito, isso era mesmo.

No último sábado, um calor desgraçado desde o amanhecer, e eu ainda de cuecas tomava meu café, quando o telefone tocou. Era o Andrade, convidando para uma "conversa molhada", como sempre se referia às nossas conversas regadas a cerveja num "pé-sujo" do bairro.  Em menos de duas horas estávamos sentados em uma das mesas do boteco que há muitos anos era nosso ponto de encontro predileto, tomando nossas cervejas em "copos de botequeiro" como chamamos aqueles tradicionais copos conhecidos como "americano" e que nos bares servem tanto a cerveja da noite, quanto ao pingado da manhã. 

Andrade bebericava sua cerveja sem gelo e folheava displicentemente um livro, quando cheguei, também com um livro debaixo do braço. Era uma espécie de código secreto, de senha, entre nós, desde quando nos conhecemos, essa coisa de aparecermos em nossos encontros sempre com livros, que no fim eram trocados e nunca mais destrocados. A minha senha daquele dia era: "Olga", de Fernando Morais, a do Andrade "Eu e Outros Poemas", de Augusto dos Anjos, que, aliás, tinha sido minha senha há uns dez anos atrás. Mais que esquisito esse meu amigo Andrade...

Nossas conversas sempre se iniciavam sobre os livros que usávamos como "senha" no encontro, mas naquele dia foi um pouco diferente, pois Andrade conhecia bastante a vida de Olga Benario, esposa de Luiz Carlos Prestes e que fora morta num campo de concentração durante a segunda guerra mundial, e eu sabia quase que de cor todos os poemas do único livro editado pelo poeta paraibano. Portanto, o prólogo daquele nosso encontro foi um tanto mais curto. E assim passamos muito mais rapidamente da literatura à vida real, segunda parte dos nossos encontros, quando falamos sobre família, mulheres, filhos, essas coisas corriqueiras, mas essenciais. Afinal, como dizia sempre o Andrade parafraseando Oscar Wilde: "A literatura antecipa sempre a vida. Não a copia, amolda-a aos seus desígnios." 

“Ô, cidadão”, gesticulou Andrade ao dono do bar “manda outras duas, a minha sem gelo!”. Mas enquanto o homem abria as cervejas, algo mudaria o roteiro de nosso encontro. Uma mulher belíssima, usando uma saia minúscula e possuidora de um belo e longo par de pernas adentrou ao bar e sentou-se na mesa em frente à nossa. Andrade deixou cair os óculos sobre “Olga”, o homem do bar a cerveja sobre a mesa e eu, bem, eu deixei cair o queixo sobre Augusto dos Anjos. Ela, é claro, percebeu, mas disfarçou pedindo “uma água com gás, por favor!” Amaldiçoei minha cerveja e desejei que Andrade saísse dali correndo, levando a história da revolucionária judia para longe dali. Muito esquisito, eu.

Mas Andrade não saiu. E em sua esquisitice, naquele momento travestida de pura sacanagem, começou a falar alto sobre as aventuras e sofrimentos da revolucionária alemã, grifando verbalmente a palavra “mulher” constantemente. O sacana do Andrade queria mostrar o quanto ele tinha apreço e respeito por mulheres fortes e corajosas. Queria impressionar a dama sentada a nossa frente. “Entenda, meu amigo, que essa MULHER era de uma fortaleza incrível. Desde menina já se engajou nas fileiras anarquistas e comunistas na Alemanha. MULHER de fibra!”. Entretanto, a tática do Andrade parecia não surtir nenhum efeito, pois ela não tirava os olhos do celular, digitando uma mensagem, bebericando sua água com gás e cruzando e descruzando aquelas pernas de um lado para o outro, num balé digno das mais dedicadas dançarinas do Moulin Rouge. 

“Ela foi uma das mulheres mais fortes da história da humanidade”, quase berrava Andrade “Uma vadia!”, sussurrei. “A Olga era uma vadia? Tá louco?”. “Estou falando da dona aí em frente, seu babaca!”. “Ah, sim... Mas então... O desgraçado do Getulio mandou-a para as mãos dos nazistas, grávida..”. Hã, hã... É verde claro!”, disse eu. “O quê, cacete, o que é verde claro?”. “A calcinha dela. A calcinha dela é verde claro!”. “Da Olga?”. “Claro que não, estou falando da dona ai em frente... Ah, deixa de ser chato, Andrade!”. (Silêncio) “Não, não é! É azul!”. “Hein? O que é azul?”.“A calcinha, a calcinha é azul...” Andrade deu uma gargalhada escandalosa que fez com que todos dentro do bar se virassem em nossa direção. Ou melhor, quase todos, pois a mulher, alvo da nossa atenção, continuava impassível, digitando no celular e cruzando e descruzando as longas pernas numa rapidez impressionante.

Quase saímos na porrada para definir a cor da calcinha da moça. E concluímos que era um tom entre o azul e o verde. “Azul esverdeado”, como achei de definir, ou “verde azulado”, como Andrade ainda queria. E quando tínhamos chegado a um consenso sobre a cor da calcinha, o balé de pernas simplesmente cessou. A “bailarina” juntando os joelhos fechou o celular, pediu a conta e saiu pela porta, atravessando a rua a passos rápidos e entrando num carro estacionado, que rapidamente desapareceu na primeira esquina, enquanto eu e Andrade ficamos totalmente em silêncio, como que nos culpando mutuamente.

Olhamos cada um aos nossos livros e em silêncio destrocamos os títulos, como nunca tínhamos feito antes. E nos despedimos sem uma palavra sequer, indo cada um para um lado da rua, com seu livro debaixo do braço. A vida, parece, tinha entrado em um carro e desaparecido minutos antes. Mas ainda tínhamos aos nossos livros e possivelmente em algum outro sábado de sol estaríamos de volta ali, naquele boteco sujo, onde a vida parecia existir. Esquisitos nós, eu e o Andrade!

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Após a apresentação e leitura na Oficina e baseado em comentários, tanto dos participantes, quando da Coordenadora, onde a critica maior foi sobre o fato de o texto não ter um gênero definido, oscilando entre crônica e conto, foi solicitado algumas mudanças. O texto ficou assim, sendo que inclusive mudei o titulo.

Sobre Amigos e Calcinhas

No último sábado, um calor desgraçado desde o amanhecer, e eu ainda de cuecas tomava meu café, quando o telefone tocou. Era o Andrade, meu melhor amigo há quase 30 anos, convidando para uma "conversa molhada", como sempre se referia aos nossos papos regados a cerveja num "pé-sujo" do bairro. Andrade bebericava sua cerveja sem gelo e folheava displicentemente um livro quando cheguei, também com um livro debaixo do braço. Era uma espécie de código secreto, de senha, entre nós, desde quando nos conhecemos, essa coisa de aparecermos em nossos encontros sempre com livros, que no fim eram trocados e nunca mais destrocados. A minha senha daquele dia era: "Olga", de Fernando Morais, a do Andrade "Eu e Outros Poemas", de Augusto dos Anjos, que, por esquecimento e desleixo dele, já tinha sido minha senha há uns três anos atrás.

Nossas conversas sempre se iniciavam sobre os livros que usávamos como senha do encontro, mas naquele dia foi um pouco diferente, pois Andrade conhecia bastante a vida de Olga Benario, esposa de Luiz Carlos Prestes, morta num campo de concentração durante a segunda guerra mundial, e eu sabia quase que de cor todos os poemas do único livro editado pelo poeta paraibano. Portanto, o prólogo daquele nosso encontro foi um tanto mais curto. E assim passamos muito mais rapidamente da literatura à vida real, segunda parte da nossa conversa, quando sempre falávamos sobre família, mulheres, filhos, essas coisas corriqueiras, mas essenciais. Afinal, como dizia sempre o Andrade parafraseando Oscar Wilde: "A literatura antecipa sempre a vida. Não a copia, amolda-a aos seus desígnios." 

“Ô, cidadão”, gesticulou Andrade ao dono do bar “manda outras duas, a minha sem gelo!”. Mas enquanto o homem abria as cervejas, algo mudaria o roteiro de nosso encontro. Uma mulher belíssima, usando uma saia minúscula e possuidora de um belo e longo par de pernas adentrou ao bar e sentou-se na mesa em frente à nossa. Andrade deixou cair os óculos sobre “Olga”, o homem do bar a cerveja sobre a mesa e eu, bem, eu deixei cair o queixo sobre Augusto dos Anjos. Ela, é claro, percebeu, mas disfarçou pedindo “uma água com gás, por favor!” Amaldiçoei minha cerveja e desejei que Andrade saísse dali correndo, levando a história da revolucionária judia para longe do bar. 

Mas Andrade não saiu. E começou a falar alto sobre as aventuras e sofrimentos da revolucionária alemã, grifando verbalmente a palavra “mulher” constantemente. O sacana do Andrade queria mostrar o quanto ele tinha apreço e respeito por mulheres fortes e corajosas. Queria impressionar a dama sentada a nossa frente. “Entenda, meu amigo, que essa MULHER era de uma fortaleza incrível. Desde menina já se engajou nas fileiras anarquistas e comunistas na Alemanha. MULHER de fibra!”. Entretanto, a tática do Andrade parecia não surtir nenhum efeito, pois ela não tirava os olhos do celular, digitando uma mensagem, bebericando sua água com gás e cruzando e descruzando as pernas de um lado para o outro, num balé digno das mais dedicadas dançarinas do Moulin Rouge. 

“Ela foi uma das mulheres mais fortes da história da humanidade”, quase berrava Andrade “Uma vadia!”, sussurrei. “A Olga era uma vadia? Tá louco?”. “Estou falando da dona aí em frente, seu babaca!”. “Ah, sim... Mas então... O desgraçado do Getulio mandou-a para as mãos dos nazistas, grávida..”. Hã, hã... É verde claro!”, disse eu. “O quê, cacete, o que é verde claro?”. “A calcinha dela. A calcinha dela é verde claro!”. “Da Olga?”. “Claro que não, estou falando da dona ai em frente... Ah, deixa de ser chato, Andrade!”. “Não, não é! É azul!”. “Hein? O que é azul?”.“A calcinha, a calcinha é azul...” Andrade deu uma gargalhada escandalosa que fez com que todos dentro do bar se virassem em nossa direção. Ou melhor, quase todos, pois a mulher, alvo da nossa atenção, continuava impassível, digitando no celular e cruzando e descruzando as longas pernas numa rapidez impressionante.

Quase saímos na porrada para definir a cor da calcinha da moça. E concluímos que era um tom entre o azul e o verde. “Azul esverdeado”, como achei de definir, ou “verde azulado”, como Andrade ainda queria. E quando tínhamos chegado a um consenso sobre a cor da calcinha, o balé de pernas simplesmente cessou. A “bailarina” juntando os joelhos fechou o celular, pediu a conta e saiu pela porta, atravessando a rua a passos rápidos e entrando num carro estacionado, que rapidamente desapareceu na primeira esquina, enquanto eu e Andrade ficamos totalmente em silêncio, como que nos culpando mutuamente.

Olhamos cada um aos nossos livros e em silêncio destrocamos os títulos, como nunca tínhamos feito antes. E nos despedimos sem uma palavra sequer, indo cada um para um lado da rua, com seu livro debaixo do braço. A vida, parece, tinha entrado em um carro e desaparecido minutos antes. Mas ainda tínhamos aos nossos livros e possivelmente em algum outro sábado de sol estaríamos de volta ali, naquele boteco sujo, onde a vida parecia existir. 

29/11/2012
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(Após a última leitura, o texto "definitivo" ficou assim. Apenas suprimi uma frase e algumas palavras) .  

Sobre Amigos e Calcinhas


No último sábado, um calor desgraçado desde o amanhecer, e eu ainda de cuecas tomava meu café, quando o telefone tocou. Era o Andrade, meu melhor amigo há quase 30 anos, convidando para uma "conversa molhada", como sempre se referia aos nossos papos regados a cerveja num "pé-sujo" do bairro. Andrade bebericava sua cerveja sem gelo e folheava displicentemente um livro quando cheguei, também com um livro debaixo do braço. Era uma espécie de código secreto, de senha, entre nós, desde quando nos conhecemos, essa coisa de aparecermos em nossos encontros sempre com livros, que no fim eram trocados e nunca mais destrocados. A minha senha daquele dia era: "Olga", de Fernando Morais, a do Andrade "Eu e Outros Poemas", de Augusto dos Anjos, que, por esquecimento e desleixo dele, já tinha sido minha senha há uns três anos atrás.

Nossas conversas sempre se iniciavam sobre os livros que usávamos como senha do encontro, mas naquele dia foi um pouco diferente, pois Andrade conhecia bastante a vida de Olga Benario, esposa de Luiz Carlos Prestes, morta durante a segunda guerra mundial, e eu sabia quase que de cor todos os poemas do único livro editado pelo poeta paraibano. Portanto, o prólogo daquele nosso encontro foi um tanto mais curto. E assim passamos muito mais rapidamente da literatura à vida real, segunda parte da nossa conversa, quando sempre falávamos sobre família, mulheres, filhos, essas coisas corriqueiras, mas essenciais. Afinal, como dizia sempre o Andrade parafraseando Oscar Wilde: "A literatura antecipa sempre a vida. Não a copia, amolda-a aos seus desígnios." 

“Ô, cidadão”, gesticulou Andrade ao dono do bar “manda outras duas, a minha sem gelo!”. Mas enquanto o homem abria as cervejas, algo mudaria o roteiro de nosso encontro. Uma mulher belíssima, usando uma saia minúscula e possuidora de um belo e longo par de pernas adentrou ao bar e sentou-se na mesa em frente à nossa. Andrade deixou cair os óculos sobre “Olga”, o homem do bar a cerveja sobre a mesa e eu, bem, eu deixei cair o queixo sobre Augusto dos Anjos. Ela, é claro, percebeu, mas disfarçou pedindo “uma água com gás, por favor!” Amaldiçoei minha cerveja e desejei que Andrade saísse dali correndo, levando a história da revolucionária judia para longe do bar. 

Mas Andrade não saiu. E começou a falar alto sobre as aventuras e sofrimentos da revolucionária, grifando verbalmente a palavra “mulher” constantemente. O sacana do Andrade queria mostrar o quanto ele tinha apreço e respeito por mulheres fortes e corajosas. Queria impressionar a dama sentada a nossa frente. “Entenda, meu amigo, que essa MULHER era de uma fortaleza incrível. Desde menina já se engajou nas fileiras anarquistas e comunistas na Alemanha. MULHER de fibra!”. Entretanto, a tática do Andrade parecia não surtir nenhum efeito, pois ela não tirava os olhos do celular, digitando uma mensagem, bebericando sua água com gás e cruzando e descruzando as pernas de um lado para o outro, num balé digno das mais dedicadas dançarinas do Moulin Rouge. 

“Ela foi uma das mulheres mais fortes da história da humanidade”, quase berrava Andrade “Uma vadia!”, sussurrei. “A Olga era uma vadia? Tá louco?”. “Estou falando da dona aí em frente, seu babaca!”. “Ah, sim... Mas então... O desgraçado do Getúlio mandou-a para as mãos dos nazistas, grávida..”. Hã, hã... É verde claro!”, disse eu. “O quê, cacete, o que é verde claro?”. “A calcinha dela. A calcinha dela é verde claro!”. “Da Olga?”. “Claro que não, estou falando da dona ai em frente... Ah, deixa de ser chato, Andrade!”. “Não, não é! É azul!”. “Hein? O que é azul?”.“A calcinha, a calcinha é azul...” Andrade deu uma gargalhada escandalosa que fez com que todos dentro do bar se virassem em nossa direção. Ou melhor, quase todos, pois a mulher, alvo da nossa atenção, continuava impassível, digitando no celular e cruzando e descruzando as longas pernas numa rapidez impressionante.

Quase saímos na porrada para definir a cor da calcinha da moça. E concluímos que era um tom entre o azul e o verde. “Azul esverdeado”, como achei de definir, ou “verde azulado”, como Andrade ainda queria. E quando tínhamos chegado a um consenso sobre a cor da calcinha, o balé de pernas simplesmente cessou. A “bailarina” juntando os joelhos fechou o celular, pediu a conta e saiu pela porta, atravessando a rua a passos rápidos e entrando num carro estacionado, que rapidamente desapareceu na primeira esquina, enquanto eu e Andrade ficamos totalmente em silêncio, como que nos culpando mutuamente.

Olhamos cada um aos nossos livros e em silêncio destrocamos os títulos, como nunca tínhamos feito antes. E nos despedimos sem uma palavra sequer, indo cada um para um lado da rua, com seu livro debaixo do braço. A vida, parece, tinha entrado em um carro e desaparecido minutos antes. Mas ainda tínhamos aos nossos livros e possivelmente em algum outro sábado de sol estaríamos de volta ali, naquele boteco sujo, onde a vida parecia existir. 

30/11/2012