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26/11/2014

Cizânia

Cizânia
Barata Cichetto
Do Livro "Cohena Vive!" - 2012
Registrado no E.D.A.  Fundação Biblioteca Nacional
Direitos Autorais Reservados

O que somos nós humanos sem pares de notas de dinheiro?
Humanos somos, sem dinheiro a essência da humanidade.
Estou rindo e limpando o rabo com uma nota no banheiro
Contas a pagar e a merda não falta, foda-se a humildade!

Então conte até cem, depois as notas e caminhe até a borda
E a beira do abismo, olhe para dentro do seu olhar profundo
Quando ele lhe fitar apanhe suas notas e compre uma corda
E amarre no pescoço, pois o abismo o espera no seu fundo.

Então Jesus, onde andam seus pregos? Onde anda sua mortificação?
Sangramos todos, e a humanidade inteira carrega espinhos na testa
E se não nascemos do Pai, também não aceitamos nossa crucificação
Somos humanos, dinheiro é o joio, a cizânia do trigo que não presta.

Dinheiro é o orgasmo da puta que chupa o pinto sem gosto
Acreditando que comprou o seu lugar na esfera do universo
Com dinheiro posso comprar seu orgasmo, gozar em seu rosto
Mas jamais poderás pagar pelo prazer que tenho em meu verso.

05/10/2011

20/10/2014

O Santo Maldito e o Bendito Poeta Puto

O Santo Maldito e o Bendito Poeta Puto
Barata Cichetto
Registrado no E.D.A. da Fundação Biblioteca Nacional
Do Livro: "Troco Poesia Por Dinamite" -  No Prelo
Poema Lido Durante o Sarau Nonada, em 29 de Setembro de 2014

E entre porres, porradas e putas eu morri
Entre vômitos, sarjetas e bucetas escorri.
E se era Julho ou se era Outubro não recordo
Mas se ontem estava morto, hoje não acordo.

Poesia é feito asa de barata e ferrão de abelha
Algo que enoja e arde e queima feito centelha.
Doces são para confeiteiros, poesia aos amargos
Que com ela te esbofeteiam e te causam estragos.

Morri por poesia e não quero a uma outra citar
Viver é para fracos e poetas podem ressuscitar.
Eu tenho veneno na alma, sou a morte da hipocrisia
E se não sei ser homem, posso ao menos ser poesia.

Entre mortos e feridos, sou aquele que caminha só
Meu caminho é feito de merda, montanhas e de pó.
Fui um rei entre as putas e entre rainhas um puto
E agora que morri, por mim mesmo estou de luto.

A poesia é o murro na cabeça e a mordida de vampiro
E nos miolos espalhados na calçada é que me inspiro.
Cerrar meus punhos e abrir feridas com as mãos nuas
E nem sei quantos minutos ainda faltam para as duas.

Trago um cigarro, a maconha detesto o cheiro de bosta
E trago comigo uma cicatriz, propriedade e não aposta.
E se morro e por mim mesmo choro a morte anunciada
Corro antes que chegue por minha poesia denunciada.

Beijo uma mendiga na boca, pois as ruas são tão duras
E penduro o quadro na parede feito com cores obscuras.
Sangue escorrendo nas ruas, tripas podres da sociedade
E eu ainda nem sei o endereço da tal Rua da Felicidade.

Exercito a garganta, respiro fundo e trago outro cigarro
Um peido, um tiro, cuspo grosso e solto o meu escarro.
Não adianta tua buceta dolorida e inchada de tanto foder
Quando teu gozo foi falso e teus gemidos foram de poder.

Conto histórias de mim, falo comigo sobre o que é solidão
Sei bem como falar sobre a dor, a ganância e a ingratidão.
Na esquina fode a puta, meio menina, meio mulher idosa
E eu nem sei ainda quanto custa uma trepada libidinosa.

Preciso acabar depressa, comprei um revolver do traficante
Apenas uma bala alojada no crânio e o suspiro recalcitrante.
Sem tempo para arrependimentos, apenas acabar com a dor
E ser transformado em morto santo por um maldito ditador.

O sangue espirra, pintando de vermelho o armário da cozinha
E agora sabem que minha morte não foi conquistada sozinha.
Deixo de mim os restos, limpem a sujeira que fizeram comigo
A lembrança por herança e gemidos guardados no baú antigo.

E às virgens mentirosas que foderam para salvar-se da perdição
Que continuem a se arrastar pelas esquinas sujas da maldição.
E morram à míngua ou que morram pela espada com que luto
Porque eu sempre serei o santo maldito e o bendito poeta puto.



16/10/2014

Ausência (Animal Serenade)

Ausência
(Animal Serenade)
Barata Cichetto
"Busco um abrigo das tempestades vermelhas quase invisíveis" - Joanna Franko

Ando deprimido e obscuro feito sombra de um burro cansado
Cabisbaixo feito lesma e mal afortunado feito ao feto abortado.
E entre ser a sombra de um asno ou torto igual um desgraçado
Prefiro estar morto, teso e fétido por meus pesadelos derrotado.

Quando desapareci feito sombra, ninguém sentiu falta de mim
E quando morri feito um aborto, ninguém pensou ser meu fim.
Mas já que eu era morto, obscuro e torto, fui sem jamais ter ido
E ninguém lembrou que eu era, então eu fui sem jamais ter sido.

16/10/2014

10/10/2014

O.C.U. (Ordem da Convergência Universal)

O.C.U.
(Ordem da Convergência Universal)
(De Uma Conversa Com Nua Estrela)
Barata Cichetto

Tenho a sorte de não ter sorte, pois se a tivesse por sina
Pouco sobraria de meu desejo insano, da fúria assassina.

Ah, a sorte, simplista e inocente, pura e inconsequente
Vaticina que é dor, uma dor que a gente nunca sente.

E se por sorte entendemos o que é convergência pura
Realidade que converge de fatos de realidade segura.

Ah, sim, por sorte não sou um sujeito que comigo a tenha
E apenas por um golpe de sorte, espero que nunca venha.

A sorte é a rima da morte, por decreto do incerto
E preconizo que elas nunca me estejam por perto.

Mas, enfim, por sorte ainda tenho o dom ou a ironia
Vingança que seja, mas que ainda chamo de poesia.

10/10/2014

09/06/2014

A Culpa é do Meu Pai (?)

A Culpa é do Meu Pai (?)
Luiz Carlos Barata Cichetto

A culpa é do meu pai... Porra, eu queria ser pedreiro e ele não quis me ensinar. Queria que eu trabalhasse num banco, num escritório, de paletó e gravata. Queria que eu estudasse, fosse engenheiro, daqueles que o humilhavam. A culpa foi dele, mesmo. Se eu tivesse sido pedreiro, talvez tivesse construído muito mais do que sendo bancário, engenheiro ou qualquer merda dessas. Mas o pior, quando ele dizia que ser escritor era coisa de perdedor, de vagabundo, de marginal. Porra, como eu queria ser pedreiro! Igual ele, né? Mas ele não queria que eu fosse igual ele, não. Os pais nunca querem... Ele não quis e eu fui ser pedreiro de letras.. Tomei no cu! E hoje, quando olho de lado e nem força física para ser pedreiro eu tenho, vejo as tais letras, colocadas umas sobre as outras, desmoronarem, mais uma vez. Virarem pó. Não, a culpa não é do meu pai. Pais nunca são culpados. Ele queria que eu fosse melhor que ele, como qualquer pai deseja ao filho. E eu não fui melhor que ele, nem sequer igual a ele. Nem tão bom, nem tão ruim. E agora, só o que me resta é catar os cacos das letras que se esparramaram pelo chão e tentar construir mais uma vez. Meu pai já não diz mais nada, está velho, esquecido e completamente sozinho en seu mundo. E eu, até quando tenho força para levantar outra letra do chão e colocar sobre outra? Não sei. Ele não sente culpa... Nem eu.