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18/09/2017

O Menino Que Matou o Homem

O Menino Que Matou o Homem
Barata Cichetto
 
Quero ser lido. Ser tido. Como ídolo. Ter ido. Ter sido. Temido. (Tímido). Não ter medos. Ter segredos. Quero ser visto. Como perigo. Às famílias. Um perigo. Constante. Inconstante. Por um instante. Que seja. Por um mutante. Que enseja. Amante. De cerveja. Quero ser lido. Agora. Por uma senhora. De salto. E um senhor. Alto. Do alto do meu ser. E saber. Saber das coisas. Que não sei. Se são. Ser são. São Barata. Aos que não são.  Nem serão. Santos. Nem putos. Nem brutos. Dos lutos. De bruços. Na cama. De bunda pra cima. Em cima de si. Só sendo. Quero continuar sendo. O que sou. O que fui. E ser o que ainda serei. Nunca o homem que matou o menino. Mas o menino que matou o homem. Com um estilingue. Com forquilha de galho de árvore. E uma pedra. Que nem era de Drummond. Nem de nenhum Andrade. Quero ser o que fui. Mas que é apenas o que será. Quero ser lido. Feito qualquer escritor. De filme americano. Morar numa cabana. Feito qualquer personagem. Ser a imagem. E semelhança. De uma criança. Com espírito de ancião. Assim não. Ser mais que sou. Menos que fui. Igual ao que serei. Quero ser lido. Quero ser tido. Como inimigo. Publico numero um. Dois. Três. O tarado do quarteirão. O malvado de plantão. O alvo das críticas. Dos críticos. E dos políticos. Ser noticia de jornal. Estar da televisão. Às oito da noite. Antes da novela. Depois do pastor. E antes do padre. De colarinho. E do outro de gravata. Quero vender palavras. Sem querer troco. Vender caro. Ao caro amigo. Barato. Ao inimigo. Alugar verbos. Advérbios. Comprar sentenças inteiras. Apenas para trocar de adjetivo. Ou de objetivo. Vender a alma. Ou trocar por calma. Quero ser belo. Ter um pau de dez polegadas. Comer a Delegada. A Advogada. E a Empregada. Quero ser pai. E mãe. De tudo que eu criar. Criar até passarinho. E galinha em terreiro. Quero ser guerreiro. Inteiro. Guerrilheiro. Atirar pedras em placas de trânsito. Dar tiros em estudantes de segundo grau. Subir outro degrau. Na escala de evolução humana. E de dois em dois. Subir a escada para o Céu. Heaven and Hell. And réu. Do tribunal. De Justiça Celestial. Ser Juiz. Ser Luiz. Quero caminhar. Ao contrário. Beber na fonte. Derrubar a ponte. Comer meretriz. A imperatriz. A embaixatriz. Sou Luiz. Aprendiz. De feiticeiro. De justiceiro. Carniceiro. De arruaceiro. De cachaceiro. De carpinteiro. Pedreiro. Faceiro. Quero ser lido. Metido. Fluído. E tido. Como perigoso. Glorioso. Gostoso. Incestuoso. Maldoso. Melindroso. Quero se poeta. Profeta. Esteta. Pai da estética. E da esquelética. Morfética. Antiética. Poesia. Escrever em jornal. Comer coxinha. Mortadela. Pão com manteiga. E arrotar presunto. Na cara do punk. Do repórter. De terno. Ser eterno. Quero foder. Poder. Empoderar. O imponderável. Quero ser mito. Acredito. Quero ser Cristo. Duvido. Quero ser Belial. Belo e tal. O Mal. Encarnado. O Bem. Encantado. Ser. Ser. Ser. Quero crescer. Quero ser lido. Quero ter. Ter. Ter. Meter. Não apenas. Escrever. Sobre o ser. E ser apenas o escrito. Ser proscrito. Com a conta bancária lotada. Andar de carro. Na estrada cheia de pedágios. Pagar as contas com cartão ouro. De tolo. O vento no rosto. Motocicletas. Carros. Seres. Quero ser visto. Quisto. Um cisto. No ovário. No calvário. Sudário. Guardar no armário. A carteira de identidade. Armar a liberdade. Com balas de festim. Festejar o Dia da Padroeira. E do Padrão. Ser patrão. Patrono. Ter um trono. Com adorno. De serpentes. E cachos de uvas. Mandar as chuvas. Molhar as vulvas. De viúvas. Ser rei. Serei. Da tempestade. E do tempo. Em tempo. De ser. Elevado. A categoria de imortal. Da Academia. Busto de metal. Na Praça da Republica. Nome de rua. No centro da cidade. Avenida. Na periferia. Viaduto em estrada. Nome de estância hidromineral. Escritor fulano de tal. De tal e qual. Vate de filme. Com ciúme da vaidade. Vaiado em festival. Rei do Carnaval. Dono de canavial. Quero ser escritor. Criador. Deus. Qualquer um. Dos seus. Escrever dedicatória. Em página de rosto. Ter o gosto. Nascer em Agosto. Morrer em Julho. Ter orgulho. De ser. Sal. Pimenta.  Cagar no prato. Que comi. Cagar regra. De três. Para seis. Trocar seis. Por uma dúzia. E meia. Andar de meia no chão de terra. Declarar guerra. Com a Terra. Mandar leitor tomar no cu. E assinar contrato. Com editora de grife. Multinacional. Ser internacional. Universal. Ter meu reino. Ser um deus. Para ateus. E judeus. E quero ser lido. Polido. Tido. Como intelectual. Mostrar meu pau. No sarau. Sujeito legal. E coisa e tal. E por fim perguntar. O que há de mal. Em ser lido?

18/09/2017

14/09/2017

Sofismas de Sofia

Ontem transei com a Sofia. Fi-lo porque queria. E tanto queria que tive um orgasmo. De filosofia. E de poesia. Gozei muito. Gozamos. Porque quisemos. Porque fizemos. Poesia. E Filosofia. Eu e Sofia. Sofia e eu. Fiz amor com Sofia. E ela queria. E porquê quis. Então fiz. Poesia. Com Sofia. Mas a Filosofia era o que eu queria. Mas Sofia nem sabia. O que era Poesia. E eu nem sabia. Quem era Sofia.
11/09/2017

10/09/2017

Escritores no Cinema

Nos filmes de Hollywood, sempre que aparece a personagem de um escritor, este quase sempre é invejado, quase sempre vive numa cabana isolada, quase sempre ainda usa uma máquina de escrever, quase sempre tem problemas de relacionamento, quase sempre é detestado pelos vizinhos, mas amável com crianças e animais, quase sempre ganhou uma bela grana com livros de merda, quase sempre estão escrevendo a obra de suas vidas, quase sempre acabam conseguindo. Então pergunto: a realidade americana de literatura é melhor, muito melhor que a terra brasilis, ou quase sempre eles são mentirosos? Sempre? Ou quase sempre?
O que pensam, meus amigos escritores de Facebook? Ou melhor: o que pensam, meus amigos de Facebook que são escritores?

24/08/2017

Fui

Fui
Barata Cichetto

(Direitos Autorais Reservados)

Nos últimos sete ou oito anos, desde que criei um trabalho de artesanato de livros, que me possibilitou publicar, além de livros de pessoas interessadas, meus próprios livros, venho publicando cerca de dois ou três livros meus por ano. Tiragens bem pequenas na maioria das vezes. As menores giraram em torno de quinze ou vinte, chegando as maiores a cem. A maior parte dos livros "publicados" são de poesia, tendo feito treze nesse período.
A maior parte foi comprada por amigos mais chegados, em eventos que organizo e em redes sociais. Muitos foram doados a amigos, poucos por interesse de mídia. Amigos possivelmente os leram. A mídia, claro, ignorou, da mesma forma que, durante um tempo mandei textos de minha autoria a concursos literários, sem resultado nenhum.
Então fico aqui, nesta manha fria de inverno, depois de uma noite gelada de insônia, pensando sobre os erros que cometi durante cerca de quarenta e cinco anos que me dedico à escrita, e que me fizeram chegar a situação atual, com pilhas e pilhas de escritos, um currículo artístico que engloba atuação em inúmeras áreas, com uma produção constante, intensa e de qualidade, e nenhuma, ou quase nenhuma projeção dentro dos meios artísticos, tendo que me manter à custa de bicos, trabalhos espúrios e uma série de outras artimanhas, enquanto escritores medíocres, moleques e molecas sem não chegam a unha do meu trabalho, seja em vivência, qualidade e quantidade, brilham sobre holofotes, ganham fama e dinheiro.
Foram muitos, decerto, meus erros. Alguns identifico claramente, outros não. Mas decerto meu maior erro foi acreditar na independência.  Independência artística e financeira, sem permitir que o desejo de fama ou dinheiro corrompessem meu pensamento e, por conseguinte minha arte.
Mas agora, beirando aos sessenta anos, sem nada que possa me dar esperanças de ter o lugar que mereço, me entristeço. E é apenas o que consigo sentir. Tristeza.
Tristeza de não ter minha obra conhecida e reconhecida. Lida, vista e ouvida por muito mais pessoas. Isso é o mínimo que merece aquele que trabalha com paixão, dedicação, que faz de cada texto, de cada pincelada, de cada palavra, um artesanato preciso e ótima qualidade, no computo geral. Mas, afinal, a cada dia menos há lugar para mim, num mundo em que a intolerância do politicamente correto cada vez mais amordaça e amarra os braços dos artistas. Morro um pouco a cada manhã gelada de inverno, a cada noite quente de verão. Acreditei no trabalho, na perseverança, na qualidade que vem com o estudo, com a leitura e com o aprimoramento cultural, intelectual. Esperei. Esperei. Esperei. Trabalhei. Trabalhei. Trabalhei. Mas agora escrevo apenas para mim. Por mim. E sobre mim. Sou o que me importa. Tenho que ser. O não ser.
E na minha lápide imaginária, colocada na tampa de uma caixa de madeira onde estarão minhas cinzas, rogo que esteja escrito apenas: "Fui". Fui por ter sido, fui por ter ido.

24/08/2017

17/08/2017

Escriditadores

Escriditadores

Eu sei escrever a mão, em máquina de escrever. E até com pedaço de carvão, se necessário. Sempre fiz isso. E também sei ler. Cartas, livros, revistas e até receitas de remédios e de bolos. Sempre fiz isso. Portanto, se acabar o Facebook, a Internet e até mesmo a energia elétrica do mundo, continuarei a ler e a escrever. Fazia isso às velas, à noite. De dia. Qualquer horário. Então escrevo isso para que fique bem claro que Facebook não faz escritores, com sua fama de quatrocentos cliques. Tenho poucos leitores, mas nenhum me pede livros de graça, não me imploram dedicatórias, nem lotam salas da FLIP por minha causa. São poucos, sim. Mas entendem o que sou. E me respeitam por isso. Eu sou escritor. Respeito qualquer pessoa que leia qualquer coisa minha. E a entenda. Por isso, escriditadores de Facebook, meu mais profundo desprezo à sua vaidade. Fiquem com seus quatroquinhentos cliques que eu fico com meus dez leitores. Eu os respeito, porque são pessoas. Não máquinas. E eles me respeitam pelo mesmo motivo.

Barata Cichetto, 31/07/2017