O CONTEÚDO DESTE BLOG É ESPELHADO DO BLOG BARATA CICHETTO. O CONTEÚDO FOI RESTAURADO EM 01/09/2019, SENDO PERDIDAS TODAS AS VISUALIZAÇÕES DESDE 2011.
Plágio é Crime: Todos os Textos Publicados, Exceto Quando Indicados, São de Autoria de Luiz Carlos Cichetto, e Têm Direitos Autorais Registrados no E.D.A. (Escritório de Direitos Autorais) - Reprodução Proibida!


21/10/2017

Cem Anos de Podridão

Cem Anos de Podridão
Barata Cichetto

Ontem foi Dia do Poeta, cumprimentem atrasado o vate
Porque aquele que chega por ultimo é mulher do padre.
E sabendo que braço que apanha é o mesmo que bate
Deixem-me dormir mais cedo porque ainda é de tarde.

Não comemorem do Dia do Poeta. Há tempos não existem mais poetas. Apenas uns escrevedores de versos tolos. Como se fossem receitas de bolos. Sem fermento. Sem gosto. Não gosto de bolos poéticos. Sem recheio. Sem receio. De magoar. Falsos poetas de teclados de computador. Não há mais salas de chá. Nem de café. Apenas poetas de boteco. Que adoram Charles por ser bêbado. Não por ser poeta. Desculpas de idiotas. Não de poetas. Paris foi dominada. Pela desordem. Pela desarte. Em Marte não há poesia. Nem na Terra. De ninguém. Não diga amém ao poeta. Não diga a ninguém. Ninguém é poeta. Num tempo sem poesia. Computadores não podem criar poesia. Mesmo que possam escrever poemas. Poetas modernos são computadores. Binários. Zeros e uns apenas. Enfileirados. Uns atrás dos zeros. E os zeros atrás dos uns. E entre uns e zeros. Sobra o nada. Absoluto. Da poesia hodierna. Tão moderna. Que nem existe. A revolução russa acabou com a poesia. Não há o que ser feito. Não existe poesia no coletivo. Ato efetivo. Lenitivo. Coercitivo. Poesia coercitiva. Incentiva o todo. Não há poesia no todo. Só no uno. Não existe o todo. Nem o tudo. Porque tudo. É apenas o um. Multiplicado. O rei está morto. Em Portugal. Com um saco de terra brasilis no bolso. Caminhando por Lisboa. Com saudades do Império. Não há poesia no socialismo. Não há poesia social. Isso é pessoal. De Pessoa pra pessoa. Ressoa. Como vento. Soprando nas areias do tempo. Do tempo em que tempo tinha. E não era apenas o segundo. Era o primeiro. Viva o rei. Viva o império. Abaixo o imperialismo. Abaixo da linha. Do Equador. Abaixo o império da dor. Do ditador. Que não tem cor. Abaixo o ismo. O histerismo. Desses tempos sem supor. Em que o andor é de barro. Não o santo. E para espanto. Do comunista. Do consumista. De celular chinês. Andando de camiseta do Che. A poesia morreu. Há cem anos. Cem anos de solidão. Cem anos de podridão. De imensidão. Do nada. Em que tudo. É falso. Plástico. Drástico. A poesia morreu com a modernidade. Com o modernismo. Com o hedonismo hipócrita. Mentiroso. Desastroso. Trocaram de mão o carrasco. A mão direita é a que alisa. A esquerda corta a cabeça. Ou oposto. Ou o posto. Não há gosto. Nem em Agosto. Nem em Janeiro. E como não existe mais poesia. Deixem de comemorar. O Dia do Poeta. Quero minha parte em dinheiro. Faço minha parte do trabalho. Agora quero o capital. Pecado capital?

21/10/2017

19/10/2017

Patty Duke Show e a Política

Em meados da década de sessenta, passava um seriado na televisão, ainda em preto e branco, chamado "Patty Duke Show". Era uma "sitcom" bem idiota, e eu detestava. Mas um belo dia, por algum motivo - provavelmente pelo fato de que as opções eram apenas sete canais - acabei assistindo. E por algum motivo aquele episódio nunca saiu da minha cabeça. E sempre em época de eleição lembro-me dele.

Nesse tal episódio, a Patty Duke, que tinha como melhor amiga uma prima, disputavam uma eleição escolar. As duas se empenhavam demais para ganhar a eleição, fazendo discursos cada vez mais ferozes com a intenção de vencer. Eram discursos enormes. Mas havia uma terceira candidata na sala, uma garota tímida, quase um estereótipo de nerd, que sempre em seu momento de discursar apenas se levantava e com uma voz quase inaudível dizia apenas: "Vote em mim!", E tornava a se sentar.

No calor da eleição, as duas primas, que além de tudo eram as melhores amigas, acabaram rompendo a amizade, a ponto de, mesmo morando na mesma casa e comendo na mesma mesa, não se olharem ou trocarem uma palavra. As duas tinham certeza da vitória e nem davam conta da existência da terceira. Nos intervalos de aulas, os amigos de uma ou outra também se engalfinhavam. Entretanto, quando chega o dia da eleição, o resultado que surpreende as duas é que a tal nerd venceu as eleições, com boa margem de votos.

Sabem que lição tiramos disso? Que democracia é sempre surpreendente. No bom e no mau sentido.

18/10/2017

02/10/2017

War Pigs

War Pigs
 Barata Cichetto

Quero penetrar nas linhas inimigas. Abrindo fogo com minha metralhadora giratória. Abrir fogo. Por entre as linhas quase paralelas das tuas coxas. Abrir teus flancos. Esmagar tuas trincheiras.  Dinamitar teus orgasmos. Enfiar tua cara na poeira. Te fazer comer grama. Invadir tua propriedade. Desapropriar tua impropriedade. Coletivizar tua privacidade. Te privar de verdade. Da tua individualidade. Te cortar com foice. Te esmagar com martelo. Rasgar tua bandeira. Te foder inteira. Morder teus dentes. Lamber tua língua. Cortar teu raciocínio. Contar teus mortos. Descontar teus impostos. Teus postos. Explodir teus limites. Destruir teus sagrados. Matar teus inocentes. Quebrar teus dentes. Invadir tuas praias. Afundar teus barcos. Derrubar seus voos. Implodir tuas pontes. Dominar teus montes. Plantar minas. Jogar granadas no teu celeiro. Queimar teus campos. Tua morada. Enterrar teus mortos. Em cova rasa. Deixar aos urubus. Tua carcaça. Afogar teus fetos. Perseguir teus netos. Te empalar pelo reto. Incendiar tua cabana. Queimar tua cana. Tua cama. E teu pijama. Deixar em chamas. Teu esplendor. Causar dor. Matar teu ditador. Teu imperador. Estuprar tua rainha. Tua princesa. Tua beleza. Cortar a faca tua tua garganta. Tua tristeza. Acabar com tua esperança. Proibir tua dança. Secar tua chuva. Costurar tua vulva. Te deixar viúva. De mim. Por mim.  Te matar de fome. De sede. De vontade de morrer. Te deixar viver. Te aprisionar. Na minha gruta. Apodrecer. Tua fruta. Te odiar. Te chamar. De algo. Por algo. Por alguém. Declarar guerra. A única maneira. De eu poder. Ter. Poder.

02/10/2017

01/10/2017

Falo!

Falo!

Eu. Que sou o que falo. E falo o que sou. Se sou falo. Falo o que sou. Calo meus calos. Dolorosos calos. Calo minhas cicatrizes. Calo tudo o que puder ser calado. E falo. Falo o que precisa ser falado. Calos. Calo. Calor. Calorosos. Dolorosos. Calos. Falo sobre meu falo. Falo. E falo sobre o que calo. Cicatrizes abertas. Meretrizes têm méritos. Féretros. Diretrizes. A diretriz da meretriz. Da atriz pornô. Do centro da cidade. Se cala. E fala. Com a vagina. Imagina! Uma meretriz. Que fala com o cu. Peida a meretriz. Na tua cara de santa. E se faz por merecer. Merece a meretriz. Aprendiz. De Feiticeira. A vassoura varre a cidade. Nas mãos do gari. Gary Cooper em A Nascente. O gari nunca viu Gary falar seu discurso no tribunal. O tribunal do gari é o balcão da padaria. Do boteco. A cachaça é o Juiz. E o meritíssimo convoca a meretriz para depor. Depois. Não existe o depois. Só o agora. E agora eu calo. Que não falo. Com qualquer um. Nenhum. Nem um. Sequer. Se quer. Pegue. Pegue e ponha na boca. Meu pau sujo. Chupa, cadela. O pau do Juiz. Do gari. E do Gary. Cooper. Na cooperativa. Coopere. Porra. Coopere. Opere. Tempere. Não há mais possibilidades nas ruas. Elas estão tomadas por traficantes. E por políticos. Traficaram as almas das meretrizes. As diretrizes são as balas. As falas são coisas do passado. Palavras são coisas do passado. Só há imagem. Fotografias. Vídeos. Filmes em três dimensões. A quarta fica pra depois. Então fala! Fala, cadela! Falo contigo. Não responde. Não seja a vitima de si própria. Desaproprie. A maldade. Não seja uma puta. Não aborte. Não corte. O cordão. Com os dentes. Primavera nos dentes. Sementes podres. Nobres. E não cobre. Quando chupar. O preço do cobre. No mercado aberto. Commodities. Cobre. Ouro. Metal. Heavy Metal é a lei. Então que se cumpra. Em última instância. Por inconstância. Pegue o papel. A certidão de casamento. E enfie no rabo. Junto com a aliança. Sem esperança. E pegue sua criança. E saia com ela. Até o fim. Ai de mim. Ai de si. Ai de só. Somente. Semente. Se mente. Não é verdade. Não existe verdade. Só a sua. A minha não serve. Não te serve. Então ferve seu leite. E se deleite. Até espumar. Pelos cantos da boca. Te dou formigas. Amigas. Estrebuche. Largue o celular. Acabou!
28/09/2017

27/09/2017

Bolo de Tolo

Sou tolo. Até que me provem o contrário. Ou o contrário do contrário. Sou um tolo. Por acreditar na inocência das mulheres. Por acreditar no sentido de palavras que não tem. Por acreditar em palavras de mulheres. Ou simplesmente em palavras. Ou ainda simplesmente em mulheres. Sou um tolo. Idiota que pensa. Que pensa que não é idiota. Uma cenoura pendurada em frente a meu focinho e ando o dia inteiro, sem nunca perceber que jamais poderei alcançar. A tolice é parte de mim. Como a cor dos meus olhos e dos meus cabelos. E não confundam tolice com ingenuidade. Ingênuos nem sempre são tolos. E tolos nem sempre são ingênuos. Há sempre tolice na ingenuidade, no entanto. Sou um tolo, por direito, não por decreto. Um tonto que acredita nas cenouras que apodrecem e nunca serão alcançadas. E nunca percebe que elas apodrecem. E as palavras são como cenouras que apodreceram e eu não percebo. Fazer poesia é diferente que fazer um bolo de cenouras. Um bolo é algo util. Mas a poesia é o bolo do tolo. Que não come. Não sei fazer bolos. Sou tolo. Apenas trabalhar. E escrever. E escrever por trabalho. E trabalhar por paixão. A paixão pelo trabalho, pela escrita, pelo que podem produzir minha cabeça e minhas mãos fazem de mim um tolo eterno. Então fico aqui serrando e lixando palavras feito um marceneiro tolo. Pregando pregos em palavras, cimentando rimas, sedimentando sentidos e sentimentos tolos. Tolos. Tolos. Sou mesmo um tolo. Jamais deixarei de ser. Ninguém acredita o quanto sou. E às vezes me iludo que não sou. Mas sou. Adoçam-me a boca. Tiram o açúcar. Me deixam sem nada. Perdas e danos. Herança de tolos. Não há herança aos tolos. E cobram mais e mais e quanto mais dou, mais querem. E o tolo dá tudo. Menos a cenoura pendurada em seu focinho. O cabresto da tolice é foda. Não enxerga o tolo um centímetro adiante de seu nariz de cavalo. E "não se mata cavalo?" Cavalos de patas quebradas são inúteis. Não servem pra nada. São tolos. Acaba assim, como apenas um tolo terminaria um texto.

27/09/2017