A Estranha Loja das Palavras
Por Barata Cichetto
Um tanto estranha aquela loja do interior
Que tinha um verso pintado no exterior
A loja vendia palavras e não seus sentidos
E eram vendidas como se fossem vestidos.
E estranho também era aquele vendedor
Que dizia não saber o que era vender dor
E pelas roupas usadas pelo tal gerente
Sabia-se não ser aquele lugar de gente.
Estranho também que na loja não tinha portas
Pois os fregueses eram apenas pessoas mortas
E na tal loja ninguém precisava pagar o preço
Já que o dono tinha dos fregueses o endereço.
Estranha mesmo a loja das palavras permitidas
Pois ali não se vendiam as que foram proibidas
E assim eram as coisas naquela estranha cidade
Onde ninguém sabia onde era a loja da liberdade.
18/07/2017
05/11/2017 - Publicado também em: https://www.meart.com.br/poesias/poesia-reflexiva-a-estranha-loja-das-palavras/
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05/11/2017
03/11/2017
Três de Novembro
Três de Novembro
Barata Cichetto
Barata Cichetto
Três de novembro. O dia dos mortos passou. De todos os santos também. Três de novembro tinha que ser dia de alguma coisa, mas é apenas dia três de novembro. Um dia qualquer. E eu, um poeta qualquer, num dia qualquer escrevo qualquer coisa só para não enlouquecer. É três de novembro e não tem cigarro. Não tem pão. O circo caiu. Falam em Natal. Em festas de fim de ano e presentes e sorrisos falsos. Este ano será um tanto diferente. Não terá sorrisos falsos. Hoje ainda é três de novembro. Tem muito tempo pela frente. Há tempos atrás eu sorriria. Hoje, neste três de novembro, não. Acabou meu cigarro. Na mesa só sobrou um pão duro. Para dois. Tenho livros de poesia. Mas não tem poesia hoje. Neste três de novembro de dois mil e dezessete não há poesia possível. Daqui a menos de dois meses acaba um ano que foi qualquer como qualquer ano sempre é qualquer. Não contem comigo na sua ceia de Natal. Não contem comigo para soltar fogos na passagem do ano. Fiquem com seus comunismos incomuns, seus socialismos hipócritas e seus votos de felicidade e paz e harmonia da boca pra fora. Eu ficaria dormindo o dia três de novembro inteiro, só pra não pensar que não tenho dinheiro nem cigarros nem poesia. E ficaria dormindo até três de novembro do ano que vem. Não, não contem comigo no Natal. Não fui eu que criei Jesus Cristo. Nem fui eu que o matei. Fiquem com a história. Fiquem com a História. Com a retórica mentirosa das salas de aulas cheirando a maconha. Hoje ainda é três de novembro e falta muito para o Anti-Natal. O dia dos mortos se foi. Ficaram apenas saudades. Dos mortos que caminham sem pensar. Que caminham sem sentir. Não lembrem de mim no Natal. Não contem comigo no Ano Novo. Lembrem de mim no dia dos mortos. Ou de todos os santos.
03/11/2017
03/11/2017
31/10/2017
O Culpado é o Poeta
O Culpado é o Poeta
Barata Cichetto
30/10/2017
Barata Cichetto
Há uma forte suspeita de que o culpado é o poeta. E se a suspeita é forte, mais forte que ela é a certeza que não é o mordomo, nem a estatueta negra sobre a mesinha de centro de uma mansão. O milionário não foi, muito menos a diarista. O psicanalista está fora de suspeitas também, assim como o policial. E nem pensem em culpar o político ou o general, pois suspeitas nunca caem num feriado. As suspeitas são sempre aos sábados, ou domingos, dependendo do dia do mês. E antes que comecem a julgar, poupem o tempo dos jurados e do magistrado, e apontem para aquele poeta parado na esquina, com ar de terrorista, jeito de anarquista e fama de encrenqueiro. E maconheiro. Só pode ser ele, o poeta, o culpado. Aliás, alguém duvida que seja? É dele a culpa. Sempre dele. Chamem agora o retratista e que se faça o retrato falado do meliante, mediante uma módica quantia. Estampem na capa do jornal. É ele, sim é ele! E preparem o corredor da morte, paguem a fatura de energia elétrica e liguem a chave da cadeira. Cuidem para que ele não morda a língua na hora fatal. Mas permitam que revele seu ultimo desejo, que todo criminoso tem direito a um. E ele lhes confessará, nas suas rimas tolas que é, sim, o culpado. E pedirá papel e caneta. E escreverá um poema, rimando culpas com desculpas; ira com lira, e putas com lutas. Afinal, que o deixem a apodrecer sobre a terra depois de morto. E que os corvos e os ratos roam seus intestinos. Pois nem a terra lhe pode ser leve.
30/10/2017
30/10/2017
Modernoso Mundo Hodierno
Modernoso Mundo Hodierno
Barata Cichetto
Falam que sou estranho, por ser poeta e por ser otário
E eu nem sei o que é estanho, nem nunca fui a Ontário
Mas o tal artista underground de rua que toca roque
Chegou ontem a noite de Roma, Paris e Nova Iorque.
Eu que sou estranho, mas acha bacana ser poeta surreal
Afinal, a falta de grana é o que alimenta a literatura real
Fala que é legal ser fudido, sofrer com falta de dinheiro
Mas ontem comeu duas groupies na porta do banheiro.
O artista usa coturno sem ser militar, e acha bom meliante
E por ser um bom militante, acha que é um eterno mutante
Me chama de reacionário guardando no armário casaco
E eu abro a geladeira e só acho restos dentro de um saco.
Ainda ontem, passou por mim trajando uma enorme capa
Chegado da Europa, da exposição marginal sobre a Lapa
Se diz esquerda, usa coque de lenhador, sapato sem meia
É estrela da feira literária e grita palavrão na hora da ceia.
Fuma maconha, cheira cocaína e reclama do meu cigarro
Mas o meu imposto é o que paga o preço do seu escarro
Chama traficante de chefe e policial de bandido de farda
E nunca pensa que a justiça é coisa que falha e que tarda.
É artista underground que ama o Buarque e o Caetano
Mas baixou um milhão de musicas somente neste ano
É um escritor que nunca lê, mas publica sobre dificuldades
E faz palestras sobre literatura em auditórios de faculdades.
Usa camiseta de Che e ama Fidel, mas nunca foi a Havana
Brada contra a ditadura, mas acha legal sandália Havaiana
Compara o capitalismo com o socialismo por ser ignorante
E acha que a mulher branca nunca pode usar um turbante.
Anda com O Capital e um Ipod na mochila de pano encardido
Come sanduíche natural em publico e um Big Mac escondido
Depois compra spray no shopping e lambuza muros inocentes
Porque a sujeira é algo que interessa a seus lideres indecentes.
Defende o aborto como forma de liberdade e por pura vaidade
E ofende até a um morto que não concorde com a sua maldade
Deixa morrer o feto, defende sem teto, mas é incapaz de afeto
Mesmo que seja a um filho, um pai ou ao enteado de seu neto.
E eu que sou egoísta, deixei de mim para tratar do casamento
Sem saber que o futuro me guardaria apenas o esquecimento
Restando apenas lamentar o que não foi feito em outras eras
Quando crianças ainda não tinham se transformado em feras.
Enquanto ele, o artista independente, carrega estrelas no peito
E escarra em meu rosto por discordar das sandices do prefeito
Berra pelos cantos sobre aquilo que considera como igualdade
Acreditando em cotas e tudo que é segregação e desigualdade.
Berra seu direito na escada rolante, na fila e no banco do trem
Mas o direito é de quem conquista, não de quem acha que tem
E eu que sou estranho perante prisioneiros de ideologias tortas
Caminho sem perceber sobre um mar turvo de criaturas mortas.
29/07/2017
Também publicado em: https://www.meart.com.br/poesias/poesia-reflexiva-modernoso-mundo-hodierno/#comment-577
Em 29/10/2017
Barata Cichetto
Falam que sou estranho, por ser poeta e por ser otário
E eu nem sei o que é estanho, nem nunca fui a Ontário
Mas o tal artista underground de rua que toca roque
Chegou ontem a noite de Roma, Paris e Nova Iorque.
Eu que sou estranho, mas acha bacana ser poeta surreal
Afinal, a falta de grana é o que alimenta a literatura real
Fala que é legal ser fudido, sofrer com falta de dinheiro
Mas ontem comeu duas groupies na porta do banheiro.
O artista usa coturno sem ser militar, e acha bom meliante
E por ser um bom militante, acha que é um eterno mutante
Me chama de reacionário guardando no armário casaco
E eu abro a geladeira e só acho restos dentro de um saco.
Ainda ontem, passou por mim trajando uma enorme capa
Chegado da Europa, da exposição marginal sobre a Lapa
Se diz esquerda, usa coque de lenhador, sapato sem meia
É estrela da feira literária e grita palavrão na hora da ceia.
Fuma maconha, cheira cocaína e reclama do meu cigarro
Mas o meu imposto é o que paga o preço do seu escarro
Chama traficante de chefe e policial de bandido de farda
E nunca pensa que a justiça é coisa que falha e que tarda.
É artista underground que ama o Buarque e o Caetano
Mas baixou um milhão de musicas somente neste ano
É um escritor que nunca lê, mas publica sobre dificuldades
E faz palestras sobre literatura em auditórios de faculdades.
Usa camiseta de Che e ama Fidel, mas nunca foi a Havana
Brada contra a ditadura, mas acha legal sandália Havaiana
Compara o capitalismo com o socialismo por ser ignorante
E acha que a mulher branca nunca pode usar um turbante.
Anda com O Capital e um Ipod na mochila de pano encardido
Come sanduíche natural em publico e um Big Mac escondido
Depois compra spray no shopping e lambuza muros inocentes
Porque a sujeira é algo que interessa a seus lideres indecentes.
Defende o aborto como forma de liberdade e por pura vaidade
E ofende até a um morto que não concorde com a sua maldade
Deixa morrer o feto, defende sem teto, mas é incapaz de afeto
Mesmo que seja a um filho, um pai ou ao enteado de seu neto.
E eu que sou egoísta, deixei de mim para tratar do casamento
Sem saber que o futuro me guardaria apenas o esquecimento
Restando apenas lamentar o que não foi feito em outras eras
Quando crianças ainda não tinham se transformado em feras.
Enquanto ele, o artista independente, carrega estrelas no peito
E escarra em meu rosto por discordar das sandices do prefeito
Berra pelos cantos sobre aquilo que considera como igualdade
Acreditando em cotas e tudo que é segregação e desigualdade.
Berra seu direito na escada rolante, na fila e no banco do trem
Mas o direito é de quem conquista, não de quem acha que tem
E eu que sou estranho perante prisioneiros de ideologias tortas
Caminho sem perceber sobre um mar turvo de criaturas mortas.
29/07/2017
Também publicado em: https://www.meart.com.br/poesias/poesia-reflexiva-modernoso-mundo-hodierno/#comment-577
Em 29/10/2017
29/10/2017
Sim, Piva, Eu Direi As Palavras Mais Terríveis Esta Noite
Sim, Piva, Eu Direi As Palavras Mais Terríveis Esta Noite
Barata Cichetto
26/10/2017
Barata Cichetto
Ao contrário de Piva, eu quero esta noite dizer as palavras mais terríveis que puder. E as que não puder também. Lançar a maldição mais hedionda, a ofensa mais profunda, a blasfêmia mais profana. Quero dizer palavras terríveis, temíveis, horríveis. A ponto de te fazer vomitar, a ponto de te fazer cagar nas calças, molhar as calcinhas, por ódio, tesão, horror, vontade. Quero dizer palavras tão terríveis, que ninguém ousou dizer. Que nem Arqúiloco, poeta-soldado grego, que causou o suicídio do sogro ao ler seus poemas, ousou pensar. Sim, quero dizê-las, em alto e bom som, para que todos os cachorros da rua escutem, para que meu pai, do outro da sala se mate, para que minha mãe na cozinha deixe a comida queimar, para que meus filhos comunistas lamentem, e para que minha mulher interrompa seu sono à base de remédios. Quero dizer as palavras mais terríveis, que nenhum sacerdote, em sua sacristia profana, jamais ousou orar, e que nenhum deus, em seus momentos de maior ira, cogitou, e que nenhum filósofo tergiversou. Quero dizer as palavras mais terríveis, que sequer uma criança, na sua mais tenra e infinita maldade brincou. Quero dizer as palavras mais orgânicas, mais orgásticas que nem Safo, ou nenhuma deusa lésbica grega ou romana disse, nem a seus mais secretos amantes, as palavras mais horrorosas, que sequer aqueles que tanto me odeiam são capazes de pensar. Dizer em um volume mais alto que toca uma banda de metal, as palavras mais danosas, que possam a alguém machucar. Quero dizer, quero dizer que as palavras que quero dizer, sejam as mais hediondas, que nem Augusto conseguiu versejar, que nem Nero conseguiu incendiar, que nem Calígula conseguiu enomear. Quero falar as palavras que sejam mais terríveis, que nenhuma jura amorosa foi capaz de ser, que nenhuma mulher foi capaz de dizer, e nenhum homem foi capaz de escutar. As palavras mais medonhas, que nem mesmo aqueles que sonham com o futuro poderão aguentar. Falar as palavras mais sinceras, que nenhum traidor foi capaz de contar, que nenhum traído foi capaz de ouvir. Quero falar, com minha língua ferina, todas as palavras terríveis que eu puder pensar. E não imaginem que poderei por acaso pedir perdão pelas palavras terríveis que quero falar esta noite, que perdão é palavrão, palavra de baixo calão, que não sei soletrar. Quero dizer todas as palavras terríveis que ainda nem constam de dicionários, que sequer foram inventadas. Todas. Quero inventar palavras terríveis esta noite. Inventar palavras na noite terrível. Quero dizer palavras terríveis incríveis. Daquelas que nem sua imaginação possa reconhecer. Quero dizer todas as palavras que eu possa conhecer. Quero dizer palavras terríveis, capazes de te cegar. De te enxergar. Tão terríveis que possam te ouvir. Te deixar muda. Te mudar. E quero, porque quero e pronto, falar as palavras horríveis para escandalizar a diva. Quero dizer as palavras mais terríveis que nem Piva foi capaz de dizer. E que nenhum outro poeta foi capaz de versar. E se essas minhas palavras não lhe forem tão terríveis, a ponto de te chocar, a ponto de lhe causar o desejo de suicídio, escute-as como quem escuta palavras de amor. Ou pedidos de socorro!
26/10/2017
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