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09/07/2019

Tudo Certo. Tudo Politicamente Correto

Tudo Certo. Tudo Politicamente Correto

Um homem idoso dá uma cantada sexual numa garota de vinte e poucos. Ele diz que ela é gostosa, que quer transar com ela e um monte de coisas. Ela responde que não vai transar com um velho babão e xinga o velhote de machista, diz que ele não se enxerga e um monte de coisas. Ela o processa por assédio. Ele a processa por preconceito contra idoso. Estão presos. Ninguém trepou com ninguém. Nenhum dos dois gozou. Ela virou lésbica na cadeia, afinal homens são todos uns porcos. O velho morreu na cadeia, afinal lá se dá ou se morre protegendo o cu. Os advogados processaram os dois por falta de pagamento. A União recolheu as custas do processo. Os políticos fizeram as leis para proteger a sociedade. O presidente foi pego roubando. Ninguém sabe. Ninguém viu. A garota foi pra Marcha para Jesus. O velho para o cemitério.

A vida segue. Está tudo certo. Está tudo politicamente correto.

21/10/2017

05/07/2019

Like The Hurricane

Like The Hurricane
Barata Cichetto
Antagônico, busco uma dor que enfraquece meu corpo, mas fortalece a minha alma; irônico, dou tiros no escuro tentando abrir buracos na escuridão; crônico, sonho com minhas doces amantes e tenho pesadelos amargos comigo mesmo.
Sou feito o furacão, like the hurricane, forte, inquieto e destruidor, mas apenas uma força natural; consumo a mim mesmo, depois parto deixando uma lembrança de mim que nenhuma outra tormenta apaga; lembro de mim mesmo com ódio e com ternura daquilo que destruí; tenho saudades do parto e saudades antes do partir, mas depois parto ao meio meus sentimentos e dou a metade que sobrou à mendiga que, enlouquecida e entorpecida pela fome, brada que a insanidade é inerente á humanidade. 
Poeta profundo, do tipo perdido, que apenas encontra salvação na arte, num tipo de arte dolorida e inglória; mas não tentem salvar minha alma, que ela foi perdida quando eu nasci; não tentem salvar a mim de mim mesmo; ninguém é perfeito, mas eu não sou um mal sujeito, nem bom bem mal, apenas Poeta.
Estou à solta, sem crime nem castigo, sem perdão nem oração; categórico, instalo bandeiras no alto do meu precipício, depois salto de cabeça do alto do edifício; mas não busquem meus pedaços na calçada, peguem as folhas soltas das poesias que lancei ao ar no momento da minha queda.
Eu morro, mas não solto, padeço, mas não largo mão, apodreço, mas não... Não, não morro enquanto viver em mim a dor. Pobres amantes, não entendem de dor, nem da dor causada por elas mesmas! Não sou rocha, sou tocha humana queimando de minha própria combustão; não sou cristalino em minha dor, guardo as maiores a mim mesmo; e não acredito em anjos nem em deusas, sou um demônio que foi jogado á Terra em busca de pedras perdidas, asas partidas e putas arrependidas.
Reflito agora sobre a liberdade e as guerras santas, internas, contra mim e contra o que eu achara ser amor. Não posso amar, não sei mesmo o que é o amor que proclamam nas histórias, nos poemas e nos filmes. Porque meu amor é mais intenso e quente que qualquer história. Nem àquelas por quem abandonei minha alma, também conhecida por "Poesia", souberam compreender.
A arte, apenas ela, compreende e procura aqueles que a alimentam e suprem. Arte é autofágica, vampira e santa ao mesmo tempo. Arte é feito cachorro: é ele quem escolhe seu dono e não adianta outro alimentar que ela irá lhe morder a mão.
Agora, preciso sair e fumar, cigarro pode matar. Pode! Mas a vida mata ao certo, viver é fatal; é proibido pensar em áreas públicas, de uso comum; é proibido ser poeta, que arte é cancerígena; ambientes enfumaçados deixam o cabelo das belas fedido. Então, amadas, lavem o cabelo e deixem eu morrer tossindo.
Sonhei com minha própria morte - “Era um sujeito de sorte aquele homem!”, declarou sobre meu caixão uma puta, trajada de preto e com um cigarro na mão; amadas riam bebendo refrigerantes baratos, padres gargalhavam e o único choro que podia ser escutado era da Poesia, prostrada e um canto, desenhada em uma folha de papel.

09/12/2009

04/07/2019

O Dia Em Que Eu Morri

O Dia Em Que Eu Morri
Luiz Carlos Cichetto
Imagem: Jonny Lindner por Pixabay

O dia em que eu morri foi igual ao dia antes e ao dia depois de eu morrer. Para muita gente foi diferente, mas não para mim. Naquele dia, assim como nos anteriores e nos posteriores, eu não sabia que tinha morrido. Todos são dias de morto para mim.
No dia em que eu morri, como em todos os outros dias, eu não fui lembrado, a não ser por três ou quatro amigos. Alguns até lembraram mandaram uma mensagem à viúva afirmando minha bondade e outras inverdades que se falam quando alguém morre, ou quando se deseja bajular. Estranha essa mania de as pessoas bajularem os mortos, como se eles tivessem ouvidos, como que se pudessem ser ouvidos. Ou como se quisessem.
Aquele dia eu não acordei, como não acordo nenhum outro dia. Não inspirei em aspirei o ar como nunca faço. A diferença foi que não acendi um cigarro, nem preparei café. Apenas fiquei deitado, morto, como faço todos os dias antes de morrer.
No dia em que morri, como em todos os outros em que estive morto, meus filhos não falaram comigo, ocupados com suas lutas, meus pais continuavam preocupados, como em todos os outros dias em que me abortaram, em guardar dinheiro para quando morrerem; e todos eles tiveram desculpas para não me verem morrer: as mesmas desculpas que usaram para não me verem viver.
O dia em que morri não aconteceu nada além da mesmice de todos os outros dias: políticos continuaram roubando e as pessoas brigando por eles; os donos do mundo continuaram a mandar, e os mandados continuaram a andar pelo mesmo caminho. Tudo era muito igual, e nenhuma pena caiu do céu em minha homenagem. Nenhum pássaro cantou diferente. Os ponteiros do relógio, mesmo daqueles que não tem ponteiros, continuaram a marcar as horas, até completarem as vinte e quatro do dia em que morri; e depois continuaram sua marcha marcando o dia seguinte ao da minha morte, sem se importar com quem ficou para trás, atrasado, perdido ou morto no tempo. 
Eu não sei a que horas foi que morri, que não uso relógio de pulso.
No dia em que morri não aconteceu nada que algum jornal pudesse dar notícia, a não ser as mesmas que dão desde que existe jornal, apenas mudando as palavras, as pessoas e os lugares. 
Enfim, no dia em que morri, apenas foi um dia qualquer em um lugar qualquer, como qualquer dia em que eu não tenha morrido.

04/07/2019

30/06/2019

Homem-Barata

Homem-Barata
Barata Cichetto
Imagem: Barata - Clker-Free-Vector-Images por Pixabay

Eu não quero ser o herói da classe trabalhadora,
Ou morrer em nome de uma causa dominadora.
Não quero ser o herói além de mim de ninguém,
Enriquecendo ou morrendo às custas de alguém.

Não quero usar capa, foice e martelo ou armadura,
Com a estrela no peito de um general da ditadura.
Eu não desejo ser chamado pelo sinal do delegado,
Deixando a cidade à mercê do meu próprio legado.

Quero salvar apenas a mim mesmo do meu perigo,
E ser meu próprio herói e o próprio arqui-inimigo.
Apenas por um dia, deixar de salvar a humanidade,
Pensando em salvar minha própria individualidade.

Sou super, mas nunca serei um herói de brinquedo,
E escondido atrás da capa de um miserável segredo.
Sem asas, casas a sobrevoar, com meu jeito de viver,
Apenas Homem-Barata, um anti-herói do sobreviver.

30/06/2019

27/06/2019

Sebos & Puteiros

Sebos & Puteiros
Luiz Carlos Cichetto

Sempre gostei de freqüentar sebos e puteiros. Mas o que têm em comum os livros e as putas? Tudo! Ou ao menos tudo o que oferece prazer, descoberta e diversão. O enorme prazer em abrir um livro e as pernas de uma puta... A descoberta eminente de uma nova história ou pensamento escondidos debaixo da capa de um livro; rugas, defeitos,  perfeições e perversões debaixo das mini-saias das putas. Quantas novas experiências e vivências conquistamos ao ler um novo livro ou ao trepar com uma nova puta? Quantos novos prazeres existem em cada página de um livro e em cada dobra do corpo de uma putinha? Quantos novos prazeres descobrimos em livros e em putas?  Todos!
Deveria existir estantes de livros, de preferência usados para combinar com as putas, dentro de puteiros. E deveriam existir putas atendendo em sebos. Putas lendo livros antigos, usados, à beira de estantes de sebos. Putas sendo comidas em cima de pilhas de livros, putas lendo histórias em salas de espera de puteiros. Putas cultas e livros putos. Putas que escrevem livros e escritores que fazem programa em puteiros... O mundo ideal: apenas putas e livros! O som das folhas de um livro sendo viradas, e dos gritos de tesão de uma puta. Os gritos de tesão das putas podem ser falsos tanto quanto um mau escritor... (Um bom escritor nunca é falso, tanto quanto uma boa puta nunca solta gritos falsos de tesão).
Passei minha adolescência inteira dividida entre os puteiros e os sebos, entre os livros e as putas. Uma vida dividida entre dois prazeres. Sempre gostei de putas, porque elas são mais honestas... As putas são até mais honestas que os livros, a não ser quando nos livros, os personagens ou autores são putas. Livros são livros, putas são putas! Óbvio! Alcoviteiro das letras, prostituístes as letras e as palavras dos livros e eu nem sei quando termino de escrever um livro que comecei dentro de um puteiro há uns três anos atrás. 
Ontem fui a um sebo que fica ao lado de um puteiro. Comprei um livro de Bukowski, capa suja e amassada, páginas amarelas, gasto, cheio de marcas. Depois, com o livro debaixo do braço, subi as escadas do puteiro, feliz com minha compra. O segurança sorriu irônico, pois não é comum alguém entrar num puteiro com um livro debaixo do braço. E as putas então, surpresas e curiosas, porque tão pouco é comum alguém lendo um livro sentado no sofá da sala de espera de um puteiro. Mesmo que seja de Buk.
Num dos contos, ele narra uma transa, que eu fiz questão de repetir, cena por cena, com a puta com quem me tranquei no quarto por quarenta minutos. Quarenta minutos... Quantas páginas de um livro eu teria lido em quarenta minutos... Mas por outro lado é um tempo razoável para transar com uma puta. As putas têm pressa! Os livros e as fodas para elas têm que acabar logo, bem ou mal. Mandei puta chupar meu pau enquanto eu lia para ela algumas passagens do livro. A boca dela deslizando no meu pau e meus dedos hora em suas costas e pescoço, hora virando as páginas do livro.
- Buk, você é um velho safado! – Eu gritei quando gozei na cara daquela putinha. Ela tentou virar o rosto, mas não deu tempo e seus olhos e boca se encheram de esperma. Arranquei uma das páginas do livro, uma que eu já tinha lido e dei para que ela se limpasse. Ela arrancou o livro da minha mão e atirou pela janela. Dei-lhe uma sonora bofetada e ela caiu sobre a cama, pelada e sangrando, mas antes que começasse a gritar por socorro joguei meu corpo sobre ela e enfiei meu pau em sua bucetinha lisa. E como todos sabem que putas não beijam, não procurei por seus lábios, apenas a fodi, com o mesmo tesão com que Buk descrevia suas fodas. Quando acabei, joguei trinta pratas sobre os peitos dela, coloquei a roupa e desci correndo as escadas atrás do meu livro, que solitário jazia na calçada com o velho desgraçado do Buk sorrindo com aquela cara de puta bêbada sem-vergonha na capa.
- Buk, você era mesmo um velho filho de uma puta! – Ainda murmurei, enfiando o livro debaixo do braço e descendo a rua em direção ao próximo sebo... Ou puteiro.

21/09/2007