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14/11/2012

Merda no Ventilador


Merda no Ventilador
Luiz Carlos Barata Cichetto
Foto Extraída do Blog "Fetozine"

Muita gente me critica pelo fato de eu estar sempre jogando merda no ventilador, mas a merda que eu jogo é a deles, por isso que reclamam tanto e se sentem tão ofendidos. Em uma entrevista ao poeta e zineiro Diego El Khouri, o poeta Glauco Mattoso afirma: "Eu diria que, sendo o Brasil um país bem vira-lata, quem quiser assumir o rotulo de 'sujo' tem mesmo que estar um pouco acima da media... Mas ser um poeta sujo não é apenas chafurdar na merda: é saber jogá-la no ventilador, saber fazer dela boas tortas para atirar na cara dos politicamente corretos.". Concordo completamente com ele, mas preciso acrescentar neste contexto que muita gente liga o ventilador, apanha a merda e a espalha, mas não basta jogar a merda de volta na caras das pessoas a própria merda que eles produzem, é preciso fazê-las sentir que aquela merda toda é deles mesmos, não de quem a colocou no ventilador. Seria quase que o mesmo efeito da tortura de Alex, personagem de Laranja Mecânica, causar o asco pelo próprio feito. No livro de Burgess e no filme isso não dá resultado, anulando o que chamam de "livre arbítrio", tornando o ser incapaz também de gerar o bem. E na tortura pelos métodos de "merda no ventilador" funcionaria? Os torturados se sentiriam enojados pela própria merda a ponto de não mais produzi-la? O que a sociedade produz é apenas merda, no final das contas. Tudo vira merda! Tudo. Até mesmo o pensamento dos intelectuais, a musica, a poesia, tudo. Tudo acaba se transformando em merda pura. E artistas, que não são aqueles que como os poderosos se locupletam com a merda produzida por essa sociedade, como poucos que ainda existem, como é o caso de Glauco Mattoso e outros, sendo que nesses outros também incluo sinceramente a mim mesmo, precisam pegar essa merda toda e jogar no ventilador com toda a disposição. Existimos num país de fracos, doentes e incultos. Muita merda é o que existe. Então precisamos de mais ventiladores.

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Pessoal Mas Transferível
Barata Cichetto

Thomas Eakins (1844-1916) Old Man Said To Be Wal Whitman
- Acorda, preguiçoso! Corta o cabelo e arruma um trabalho
E aproveita e corta essa barba, seu vagabundo do caralho!
Não tem respeito quem não madruga em fila de emprego
Escuta o que falo ou preciso falar em russo ou em grego?

Ah, mas que tolo fui eu em acreditar naquilo que eu podia
Minha arte não dá dinheiro e a cada poesia mais me fodia
Com escrita nunca recebi sequer uma moeda de um real
E o mundo que conheci acabou, agora o mundo é surreal.

- Acorda, filho da puta! Nesses dentes podres dá um jeito
Ninguém precisa de poesia e poeta não é um bom sujeito
O trem funciona desde as cinco da manhã, todos os dias
E estou farta de suas poesias e de suas eternas covardias!

Esqueci o que sabia e não aguento mais subir descidas 
Precisamos de comida e as contas estão todas vencidas
Eu preciso provar que não sou um ladrão ou vagabundo 
Ainda arranjo um emprego nem que seja um moribundo. 

- Acorda e manda currículo, qualquer emprego lhe serve
E peço em nome de Deus, que seu emprego lhe conserve
Lembra da senhoria, paga as contas de luz e o crediário
Deixa portanto essas histórias de poesia, Poeta Ordinário!

Hoje pensei em abrir o gás do fogão e tal a Torquato Neto
Enfiar a cabeça deixando um bilhete de adeus bem direto
Mas não tenho coragem, deixo que me matem aos poucos
Pois tenho a covardia dos poetas e a coragem dos loucos. 
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Leia Também a Entrevista de Glauco Mattoso a Diego El Khouri: 
http://fetozine.blogspot.com.br/2011/07/glauco-mattoso-o-poeta-da-crueldade.html

12/11/2012

2058


2058
Luiz Carlos Barata Cichetto

Estamos em 2058, ano em que eu completaria 100 anos, juntamente com Madonna, Michael Jackson, Bruce Dickinson, Cazuza e Tim Burton. Alguém ainda lembra deles? Acredito que sim, pois foram grandes astros "pop". Quanto a mim, não acredito que alguém conheça algo a respeito, afinal, não fui ninguém importante, apenas um escritor e poeta, se é que ainda sabes o valor que tem alguém assim, o que não acredito, pois já na minha época esses valores deixaram de ser reconhecidos, o valor das letras e dos livros foram minimizados gradualmente com a intenção de transformar os seres humanos apenas em consumidores, sem capacidade de raciocínio próprios.

De fato, nestes anos em que passamos da metade do Século XXI,  os livros de ficção de minha época se tornaram realidade, as distopias também, embora as utopias ainda continuem a ser o que sempre foram. Aliás, as histórias de ficção cientifica se tornaram realidades, mas os livros há tempos não existem mais, pois sua matéria prima foi extinta. A mesma sorte, acredito, não tiveram trabalhos de pensadores e filósofos dos séculos passados, pois acusados de preconceituosos e politicamente incorretos foram todos banidos, numa onda perversa de perseguições ao pensamento ativo e livre, em prol da neutralidade, ainda na segunda década do Século.. Então é possível que quem esteja lendo minhas palavras neste momento o esteja fazendo em alguma catacumba subterrânea, às escondidas.

Aliás, lendo... De que forma estás tendo contato com esse meu pensamento? Pergunto porque sei que há tempos as pessoas não escrevem mais e não lêem mais. Desde ainda minha época que se descobriu uma forma preguiçosa e vaidosa de se expor as coisas, por intermédio de imagens e vídeos. Desde a minha época que as pessoas já perderam a capacidade de colocar suas idéias em palavras escritas. Então imagino que estejas assistindo a alguma holografia projetada à sua frente ou mesmo dentro de seu cérebro através de chips implantados. E ainda pergunto, porque alguém estaria tomando conhecimento de meu pensamento ainda nesta época? E fico aqui imaginando qual é o cenário ao seu redor, o que existe. Ainda existem carros que andam sobre rodas, fazem barulho e fumaça? Como são as casas e os prédios? Como são as pessoas e suas roupas e hábitos? Fico imaginando em que contexto estás lendo. E fico imaginando que deves ser algum descendente, um bisneto talvez, pois meus filhos estarão velhos demais para se interessar pela minha lembrança quando mesmo outrora eram jovens demais para se importar com ela. E pouco importa como meu nome chegou até aí, e de que forma, pois se estás lendo é porque chegou...

Mas o que reside em minha cabeça, no momento em que escrevo estas palavras, digitando-as manualmente (era assim, um teclado com letras as quais a gente apertava com as pontas dos dedos uma a uma e num monitor elas apareciam formando palavras e frases, algo rudimentar ao que talvez já tenha visto em algum museu holográfico), é saber o que foi feito não da forma como essas palavras lhe chegam, se na tal imagem holográfica projetada em seu cérebro ou algo semelhante, mas o que foi feito delas em si. Ainda existe a literatura, ainda existe a poesia? Alguma forma delas ainda deve existir pois se estás lendo isso é porque ainda, mesmo que nos subterrâneos ainda existem. Mas quero saber se ainda existem como arte... Aliás, me preocupa mais ainda em saber: ainda existem Arte e Artistas?

E caso não saiba responder a minha pergunta, pois provavelmente esses conceitos em sua mente tenham sido totalmente subvertidos ou mudados de significado, quero colocar uma frase que li há poucos dias, em 2012, do empresário, ator e escritor americano David Ackert, que, com exceção de duas palavras, por questões "de foro intimo" não concordo ("de Deus"), retrata o que é e o que pensa e sente um artista. A eliminação das duas palavras citadas não modifica em nada o sentido do texto original.
"Os artistas são as pessoas mais motivadas e corajosas sobre a face da terra. Lidam com mais rejeição num ano do que a maioria das pessoas encara durante toda uma vida. Todos os dias, artistas enfrentam o desafio financeiro de viver um estilo de vida independente, o desrespeito de pessoas que acham que eles deviam ter um emprego a sério e o seu próprio medo de nunca mais ter trabalho. Todos os dias, têm de ignorar a possibilidade de que a visão à qual têm dedicado suas vidas seja apenas um sonho. Com cada obra ou papel, empurram os seus limites, emocionais e físicos, arriscando a crítica e o julgamento, muitos deles a ver outras pessoas da sua idade a alcançar os marcos previsíveis da vida normal - o carro, a família, a casa, o pé-de-meia. Por quê? Porque os artistas estão dispostos a dar a sua vida inteira por um momento - para que aquele verso, aquele riso, aquele gesto, agite a alma do público. Artistas são seres que provaram o néctar da vida naquele momento de cristal quando derramaram o seu espírito criativo e tocaram no coração do outro. Nesse instante, eles estão mais próximos da magia, de Deus e da perfeição do que qualquer um poderia estar. E nos seus corações, sabem que dedicar-se a esse momento vale mil vidas." 
Aliás, falando em Deus, queria saber se ainda existe esse conceito de Deus em 2058, se as pessoas ainda exploram as outras usando Deus como desculpa e as religiões como meio. Ainda existem?  Não sei o lhe contam na escola nas aulas de História (ainda existem escolas, aulas? Ainda se estuda a história? Mas nos séculos passados as religiões foram responsáveis por muitas mortes violentas de seres humanos... Morte violenta? É essa aí que um dia na face da Terra já foi considerada exceção, motivo de consternação e indignação, mas que ainda em minha época se tornou coisa corriqueira, motivo de grande audiência de programas de televisão. Então fico imaginando como tratam da morte e da violência em 2058.

Possivelmente nem tinhas nascido - o que é nascer, agora em 2058? - quando eu morri e meu corpo se desfez em cinzas - se é que cumpriram meu ultimo desejo de ser cremado - e possivelmente nunca ouvistes falar de mim. Porque haveria de? Afinal, minha família chorou um pouco - ainda existe isso? - uns dois anos mais ou menos, no principio quase que diariamente, mas depois foi chorando menos e menos e em um ano depois quase ninguém mais chorava, e em três ninguém mais lembrava. então fico pensando porque alguém como você estaria lendo isto. De fato, foi meu desejo que tudo o que escrevi fosse apagado, deletado, incinerado, mas como muitas coisas estavam numa rede de computadores, a maior parte saiu do meu controle e aindou guardada em arquivos digitais. Foi bom até que tenha acontecido isso, caso contrário eu não estaria falando contigo, daqui do distante 2012, quando ainda tenho "apenas" 54 anos e uma boa saúde apesar dos dois maços de cigarros que fumo por dia.

Ah, agora lhe peguei: cigarros? Não sabe o que são, estou certo! Cigarros eram tubos de papel cheios de fumo picado, extraído das folhas de uma planta - deduzo que ainda existam plantas, ou que ao menos saibas o que são -, que as pessoas acendiam, colocavam boca e tragavam a fumaça. Não fazia muito sentido, a gente sabia, e não se sentia absolutamente nenhuma sensação, mas foi um hábito cultivado desde tempos imemoriais e em determinados momentos foi considerado símbolo de prestigio, de refinamento social. Mas num determinado momento passou a ser tratado como inimigo e seus usuários passassem de refinados à bandidos. Realmente nunca entendi isso, pois se o cigarro causava males e doenças, era apenas os usuários, e existiam as bebidas alcoólicas que causavam mortes violentas (aquelas que citei acima) que causavam entorpecimento e perda de sentidos. E do jeito que a perseguição aos tais fumantes se intensificou, não duvido que seus usuários tenham sido internados e efetivamente mortos, afinal segundo o conceito dos governantes, iriam morrer mesmo... E para lhe deixar bem curioso, enquanto escrevo este texto, fumo meu delicioso cigarro.

2058... Como são feitos os calendários, os relógios, enfim como são construídos e marcado o tempo agora? O dia ainda tem 24 horas? Os meses ainda oscilam entre 28 e 31 dias? Os anos em 365 ou 366? Sim, pergunto isso, pois é bem possível que, por algum interesse político ou mercadológico tenha alterado a marcação do tempo. E por falar em datas e tempo também imagino que idade você tem. Criança, jovem, adulto ou velho? Ah, mas isso também depende do que são considerados esses conceitos em 2058. Até o final do século XX, crianças tinham até 12 anos e brincavam de coisas inocentes como amarelinha, pique-esconde, essas coisas - não, não vou lhe explicar o que são essas brincadeiras, pois jamais irás entender -, jovens tinham de 13 a uns 20 anos e começavam a despertar para o sexo, numa espécie de preparação para a vida adulta; adultos tinham mais de 20 anos e ai sim, tinham plena vida sexual, trabalhavam, construíam família - família?, vai dizer que não sabe o que é? - produziam bens como casas, carros e outras coisas. E depois chegava a velhice onde as pessoas eram respeitadas por sua sabedoria acumulada e premiadas pela dedicação a filhos. E assim, se dedicavam às novas gerações, os netos, filhos dos filhos, até morrerem.  Mas depois esses próprios conceitos e idades foram perdendo o sentido e começaram a misturar tudo, com crianças fazendo sexo, adultos brincando, velhos trabalhando, enfim, nao apenas mudaram a forma de marcar o tempo, mas os proprios conceitos que delimitavam das idades. Ainda é assim, agora em 2058?

Estamos em 2058... E há uns três anos se comemorou 100 anos de Rock... Ah, se me falar não sabe o que é isso... Mas, de toda forma se o Rock não sobreviveu até ai, até 100 anos de idade,  ou ter sobrevivido com outro conceito, vou tentar explicar o que era isso. O que era Rock, também conhecido por Rock and Roll:

Por volta de 1955, alguns negros (aliás, eu nem sei se posso escrever essa palavra sem correr o risco de não ser entendido, pois creio que na sua época ela não deve mais fazer parte de nenhum dicionário, pois a hipocrisia politicamente correta ainda nos dias de hoje já ameaça até isso. Aliás eu nem sei se ainda vão existir dicionários, porque perderam também a utilidade mesmo agora)  americanos pegaram outros ritmos originalmente também... (ah, como falar?), como o Blues e o Jazz e botaram um ritmo mais rápido e dai lançaram uma coisa chamada inicialmente  de "Rock'n'Roll". E foi uma febre, coma pessoas dançando e cantando em algo muito rápido e contagiante. Era uma época de mudanças sociais profundas, pois apenas há 10 anos havia terminado uma guerra horrenda, que matou milhões de pessoas pelo mundo afora e aquele novo ritmo, da América (aliás, ainda existe o Estados Unidos da América em 2058? Ou o mundo inteiro se chama América? Apesar de achar mais provável, pelo andar das coisas, que o planeta seja conhecido como Republica Universal da China) partiu para outros continentes, como a Europa (se é também que ainda existe Europa, pois atualmente ela afunda rapidamente) e até mesmo o Japão (ainda...?).

Mas o Rock depois que chegou a tal Europa tomou outros ares, ares mais aristocráticos se tornando não apenas o ritmo mais popular no mundo como chegou até mesmo a ser comparado com Jesus Cristo (ainda falam nele? Acredito que sim, pois a ditadura Cristã é uma das mais eficientes que já existiram). A ele, ao Rock não a Jesus, se juntaram pessoas de todas as partes do mundo, independente de religião, posição política ou social. Criaram um modo de vida próprio, sistemas sociais próprios e assim, muita gente achou que em breve ele, o Rock não Jesus, dominaria o mundo. Ele, o Rock não... dizia "não" a todos dogmas e conceitos antigos e aquela musica deixou de ser apenas musica e se tornou um movimento ecumênico e apartidário, um movimento social forte, embora musicalmente fosse de fato um amálgama de cultura mundial, misturando influências musicas tão diversas quanto musica folclórica e musica erudita. Era a consumação de Eros, Bacos e de todas as deidades, o panteísmo sonhado, o sonho social perfeito. Mas algo deve ter dado errado, pois cerca de cinquenta anos depois, com a velhice e a morte dos criadores e pioneiros, o Rock foi enfraquecendo, cedendo espaço a culturas menos nobres, mas que atendiam os interesses dos poderosos. Os lideres que não morreram, com a ansia de dinheiro e poder perderam a aura e então ao Rock sobrou apenas o fato de ser o flagelo de si mesmo. 

Não demorou desde que nasceu, e o tal de Rock'n'Roll chegou também no Brasil (ainda existe esse país em algum mapa? Não creio, pois nestes dias que correm essa terra afunda também num mar de corrupção e violência nunca antes imaginado na história das nações, e nenhuma povo sobrevive a isso) e depois de alguma resistência também se implantou. De inicio à resistência aos estrangeirismos, depois aos novos costumes e padrões morais e sociais que ele trazia assustaram os mais conservadores. Mas, mesmo assim ele se fincou e durante um bom  tempo também se transformou em hino de grande parte das pessoas que buscavam uma linguagem jovem. Mas era certo de que não sobreviveria por muito tempo, pois ele fora nascido e  criado para exigir cultura e inteligência, coisas que pelas tais terras não eram muito comuns. E no Brasil ele morreu muito antes de mim, morreu muito antes.

Mas agora cumpre-me deixar escrita esta conversa, com a esperança de ser lida, de alguma forma, no ano de 2058. Peço educadamente desculpas (ainda se usa isso? Desculpas, por favor, muito obrigado, com licença? Não creio, mas como fui educado a agir com respeito - sabe o que é isso? - com relação a todas as pessoas), por lhe mostrar tantas coisas que talvez não conheças, falar de coisas a sua pessoa podem parecer idiotices, bobagens de eras passadas, coisas antiquadas, tolices enfim. E apenas esperar que sua geração, aparte toda tecnologia que possam estar usando, ainda seja capaz de compreender e sentir coisas como a arte, e principalmente o sentimento, pois sem eles, se estas coisas não sobreviveram temo estar lido neste momento por um robô construído de chips e plástico, e que não é capaz de entender uma palavra daquilo que escrevo, em 2058... Em 2012...??? - 9/10/2012

11/11/2012

Manifesto Pessoal Antropofágico

Manifesto Pessoal Antropofágico
Barata Cichetto

Comam dos poemas que lhes entrego em belos pratos suculentos
Minha poesia não é comida mas a tenham feito lautos alimentos
Deixe o resto da comida aos porcos pois a conta ninguém lhe cobra
O que lhe farta a outro falta e minha janta do seu almoço é a sobra.

Apanhem cutelos, bocas e outros alimentares instrumentos
E retalhem a melhor parte da minha poesia de tormentos.
Comam da minha poesia num nefasto banquete trágico
Alimento podre consagrado em um altar antropofágico.

Minha cabeça em uma bandeja e uma porção em seus lábios
Comam agora minha poesia indigesta e brindem aos sábios
Entrem no restaurante e comam poesia temperada com solidão
Transformada em carniça, a poesia é dos vermes da podridão.

Ao mendigo um poema entrego e comida seus olhos imploram
O feijão, o pão e o circo são as marcas daqueles que lhe adoram
Ah a poesia, ela é feita com dentes, soluços e abraços
Ela morde meu pescoço e depois cai nos meus braços.

Toda comida que comemos é apenas matéria morta
Apodrecendo o sangue e entupindo a artéria aorta.
Porque é da morte alheia que nós nos alimentamos
E na nossa própria morte em nós nos manietamos.

Não vomitem em meu tapete, não cuspam em meu prato
Estamos mesmo todos mortos, então façamos um trato
Tratem a mim com a indiferença das espécies silenciosas
Eu não lhes mordo e nem cuspo em suas vestes graciosas.

(Do Livro: "Cohena Vive!" 2012 - Registrado Sob Nº. 562.916- 1.073- 473)

Poesia Não Se Vende! Poesia, Não Se Vende! Poesia Não, Se Vende!


Poesia Não Se Vende! Poesia, Não Se Vende! Poesia Não, Se Vende!
Luiz Carlos Barata Cichetto

Dias atrás, caminhando pelo centro da cidade fui abordado por um poeta. Cabeludo, barbudo, com uma aparência um tanto desleixada, como aliás bem convém a um poeta mambembe, embora exibisse um largo sorriso que deixava a mostra dentes perfeitos. Estrategicamente bem próximo a Galeria Olido, que concentra algumas atividades culturais. O tal poeta me abordou e sem nem olá nem oi, foi logo falando: "Estou vendendo meus livrinhos de poesia. Cinco reais cada um." Quando dei por mim estava com o tal livrinho na mão, todo amarfanhado, umas duas folhas de sulfite dobradas em quatro. Corri os olhos, poesias toscas, conteúdo fraquíssimo. "Cinco paus? Ah, não tenho isso, não!" Falei meio envergonhado por não ter cinco pratas no bolso para colaborar com um "colega". - "Eu também sou escritor, também..." Ele não deixou eu terminar, totalmente desinteressado. "Eu aceito Cartão de Débito!". O tal livrinho quase caiu da minha mão. Mambembe? Sujo? Barbudo? Cabeludo? Poeta? Mas a maquininha maldita de cartão de crédito rápido apareceu em sua mão. "Eu.... Eu não tenho cartão de banco, amigo.... Como te disse, também sou poeta...E também..." . Tão rápido quanto aquele livrinho apareceu na minha mão ele foi retirado, quase arrancado e meu querido amigo poeta se virou de costas, pronto a dar o bote no próximo transeunte que se aproximava.

Fiquei um tempo ali parado, estático, decepcionado. Queria dizer decepcionado, mas não vou... Eu queria ter ficado ali, conversando com aquele "colega de infortúnio poético", aquele colega batalhador que afinal precisa comer e pagar as contas e tem coragem de fazer algo que não tenho: parar as pessoas nas ruas e oferecer meu trabalho. Tenho muita vergonha e nada no mundo me faz ter coragem de “mascatear”, seja para vender seguros de vida ou poesias. Mas não tive chance. Apenas tempo de perceber que o tal próximo transeunte nem sequer parou e ainda desviou do seu caminho. Ouvi um sonoro "Mão de vaca filho da puta!". Seria comigo ou com aquele que não parou? Minha vontade foi correr até aquele camarada e lhe dar uma sonora porrada. Ele não era meu companheiro, não era um poeta, apenas um comerciante. Um comerciante que tinha, aliás, um produto mal feito, mal acabado e com um conteúdo ruim (não precisava ler o livro inteiro para saber... E ele nem deixaria, claro!) Apenas um comerciante, e um mau comerciante, por sinal, que sequer sabia agradar seus clientes. Ou seja, mais um!

Por algumas centenas de metros aquela cena ficou gravada na minha cabeça e se misturava com algumas outras que eu tinha presenciado durante os últimos quarenta anos em que escrevo. Acho que pelo menos uma centena de vezes me deparei com situações como aquela, mudando o personagem, o cenário e o... produto. Sou da era do mimeografo, onde a maioria que não tinha grana produzia poesia e jornaizinhos (não "fanzines", porque "fanzine" era um termo afrescalhado americano que era conhecido e aplicado apenas pelos "artistas" mais abastados, pobres faziam mesmo era 'Jornalzinho"). E conheci atitudes prepotentes de "nobres" que faziam livros em "off-set" e diziam não "acreditar em arte pobre", não no sentido "pobre" da arte, mas no sentido do meio, do custo, da qualidade do papel. Conheci o chicote de jornalistas formados, donos de cadeiras em redações de jornais que simplesmente desprezavam trabalhos como os meus. Conheci a ira de Testemunhas de Jeová que, da mesma forma que meu "companheiro poeta" me arrancaram a "Sentinela" das mãos quando também disse que não tinha dinheiro para conhecer a palavra do seu deus. E pensei nas centenas de editoras que procurei, mandei originais e que nunca sequer me responderam ou se o fizeram, uma minoria, foi para recusar meu trabalho.

E assim, fui embora para casa, pensando sobre essas coisas, sabendo que minhas contas estão todas atrasadas, que não tenho contas em bancos e muito menos maquininha de cartão de débito, que estou com os dentes fudidos por falta de grana para o dentista, que meus dentes não são tão brancos e perfeitos quanto os do meu “amigo poeta”. Fiquei pensando que deveria pegar meus escritos, que somam um volume de mais de mil páginas de poesias e sair pelas ruas oferecendo. Fiquei pensando que o que eu preciso mesmo é arrumar um emprego decente, desses de carteira assinada, 8 as 18, com direito a trem lotado e chefete filho da puta. Fiquei pensando que, embora ganhe algum dinheiro com outras atividades, não posso ser considerado um padrão social, um padrão. Ou então começar a lamber o saco dos donos da poesia que tomaram de assalto a Casa das Rosas com seus poemas subversivos da boca pra fora, “beatniks” que cabide. Puxar o saco dos donos da arte pode ser uma boa saída se eu não conseguir arrumar um emprego decente, de carteira assinada, 8 as 6 da tarde e tal. 

Ora, ora, eu não troco minha poesia por um sanduíche nem por um copo de pinga, não vendo livrinhos amarfanhados por cinco pratas pelas esquinas do centro, não dou o rabo por um prato de comida e nem um livro por um boquete. Rimbaud virou mercenário, sim, mas quando o fez, negou e renegou sua poesia. Eu não sou francês, nem moro na Mariana, minha aposentadoria ainda demora e não tenho emprego publico garantido. E daí?  E não fosse ainda aquilo que lateja, não fosse aquilo que pulsa, a maldita necessidade de escrever poesia, feito um viciado em drogas, eu rasgaria todos os meus poemas como já fiz uma vez. Não fosse a crença na humanidade disfarçada em descrença, eu deixaria meus pensamentos guardados dentro da minha cabeça para serem queimados junto com o resto de mim quando eu morrer. 

E me ponho a pensar em Bukowski, por exemplo, com sua grande voracidade por bebida, degradação e carros de luxo, não necessariamente nesta ordem. E fico a pensar em quantos poetas por outro lado morreram pobres e ou doentes e outros a quem o mundo nunca conheceu. E fico a pensar na honestidade da poesia e do poeta, do casamento em comunhão universal de bens (ou da falta deles) que todos deveriam ter com sua arte. Fico a pensar se realmente um poeta tem que ser um bosta, pobre e fudido para ter valor reconhecido. Valor? O valor é contrário a poesia? Não, não é! Não acredito e nem posso pregar isso. Sofro com a falta de dinheiro e falo disso em minha poesia. E se um dia tiver dinheiro, vou falar da minha miséria? Claro que não, porque tenho comigo ser escravo da arte, não do dinheiro.

Poesia não se vende! Poesia, não se vende! Poesia não, se vende!

09/11/2012

Hierophantes


Hierophantes
Luiz Carlos Barata Cichetto

A liberdade existe apenas quando acabam todas as esperanças. A esperança é o que conforma e conforta. E tudo aquilo que conforta e conforma aprisiona, portanto não existe liberdade com esperança. E então, preferes a liberdade à esperança? A esperança nunca morre? E a liberdade? Afinal, sabemos que é a esperança aquela que "não murcha e não cansa, não sucumbe à crença", mas e "eu que vivo atrelado ao desalento, também espero o fim do meu tormento na voz da..." Liberdade “... a me bradar: descansa”? Não existe, portanto, a liberdade senão na morte?  E então, pois que no fundo disso temos conhecimento, porque passamos nossas existências buscando a liberdade e fugindo da morte? Porque então essa busca, porque então essa fuga? Mas eu, eu ainda busco e ainda fujo! E as buscas e as fugas são lutas. Estratégias militares de ataque e defesa. E no fim, tudo se resume a isso: buscas e lutas. Fora isso, somente podemos nos esconder nas trincheiras esperando a guerra acabar... E quando a guerra acaba? Nunca? A liberdade é a desculpa de todas as guerras, e a morte a desculpa de todas as fugas. Liberdade e morte, esperança! 

(Nota: as citações entre aspas são do poema "A Esperança" de Augusto dos Anjos)